Faz pouco tempo que presenciamos, perplexos, o impeachment balançar as estruturas presidenciais no Brasil, mais uma vez. Se, no caso de Fernando Collor, em 1992, a campanha por sua deposição estava aureolada de dignidade e participação popular, a história volta, em elipse, a mais um episódio que, longe de ser farsa, pode ter mais a revelar do que julga nossa consciência massacrada pela avalanche midiática daquela ocasião.
Para que essa compreensão tenha algum tipo de efeito, talvez seja necessário enfrentar a questão com uma amplitude que compreenda a extensão do problema. Embora algumas perspectivas possam se deixar seduzir pela ideia de golpe de Estado ao se referirem aos episódios de deposição de Dilma, tais noções podem ocultar problemas mais profundos da insipiente democracia brasileira. Gritar “foi golpe!” exaspera toda uma indignação que antevia e, ao mesmo tempo, não esperava todo o porvir da nossa política a partir daquele ano.

Dilma Rousseff foi constrangida a se defender em um ambiente completamente hostil àquilo que ela representava. A saber, entre outras questões, a abertura política para trazer à tona questões camufladas da ditadura militar, o aprofundamento das políticas inclusivas, e o que mais se temia em círculos do poder: ser Dilma a ponte para mais oito anos de governo Lula. Dilma, sem impeachment, seria a potencial porta para 24 anos de governos petistas. Tudo isso em meio à contestada Operação Lava Jato.
Esta seara, aqui apenas delineada, instigava insatisfações de origens variadas, o que não era exclusividade da oposição – é bom que isso não se perca de vista. Mas seu processo de deposição não atropelou nenhum protocolo. Foi aprovado nos rigores da Lei nº 1.079, de 1950, ainda que a sessão de 17 de abril de 2016 tenha deixado flagrante o baixo nível representado pela maioria daqueles deputados. Naquele domingo de 10 anos atrás, o plenário da Câmara dos Deputados explodia em votos favoráveis ao parecer de prosseguimento do impeachment, em um conjunto de entusiasmos delirantes manifestados no interesse de ver o fim antecipado daquele segundo mandato. Olhando em retrospectiva, o episódio foi constrangedor, para dizer apenas o necessário.
Todo o desenrolar de 2016, politicamente, fez emergir um volume inédito na redemocratização brasileira de forças simpáticas a premissas neofascistas. Como um Tifão[1] que, ao subir à superfície, encontrou ambiente propício ao seu espraiado fortalecimento em nossa sociedade.
Inúmeros estudiosos, a maioria da ciência política, debruçaram-se sobre o tema. Dividiram opiniões. Repartiram a razão para esclarecer suas posições sobre ‘se’ foi golpe ou não. E, até hoje, a questão é espinhosa e merecedora de atenção. No entanto, longe de qualquer resposta de fácil digestão, é preciso reconhecer que, à luz da lei brasileira, o processo trilhou genuinamente o que se esperava dele. Concorreu no leito da caudalosa legislação brasileira; ou seja, foi legítimo, embora deletério.
A discussão enveredou para analisar se o Estado brasileiro foi solapado pela arrogante onda de ódio contra a primeira mulher presidente do Brasil, dentro e fora de Brasília, ou por identificar a legitimidade da estridência da nascente rede social eletrônica e sua confluência política. Nesse contexto, essas e outras discussões de mesma natureza ajudam a clarear boa parte da questão, mas ocupam um precioso tempo e podem não revelar a extensão concreta do dano que repousa sobre a responsabilidade da história política de 2016.
Em outras palavras, a compreensão histórica, nesses dez anos pós-2016, precisará nos ajudar a elaborar melhor a análise do período, tendo em vista frutos mais permanentes. A força do impeachment de Dilma deixou marcas que podem ser lidas como sintomas de uma democracia frágil, calcada exagerada e patologicamente nas instituições, como se infalíveis fossem. Dilma Rousseff caiu institucionalmente e sua deposição deixou evidente a vulnerabilidade da nossa cultura democrática.
Situar Dilma e sua deposição enquanto evento histórico restrito ao gradil da eterna discussão golpe x não golpe, exaspera ânimos polarizantes e turva a visão do horizonte claudicante de nossa política democrática. Diante dos atuais desafios enquanto nação, olhar 2016 e enxergá-lo pela perspectiva da dualidade nos priva de compreender a corrosão a ser encarada.
O que os eventos desencadeados a partir da abertura dos trabalhos da comissão especial de impeachment de Dilma, na Câmara, em março de 2016, podem nos mostrar, portanto? Talvez revelem um conhecimento sobre nós mesmos enquanto sociedade política que, entre outros desvios, defende a democracia sem conhecê-la completamente? É possível. Sistema que, apesar de carregar esse nome, realmente traz inoculada, em repetidas atitudes, a participação democrática apenas relativizada pelo voto. Por outro lado, pode-se perguntar: é possível hoje candidaturas sem reserva de capital expressivo para campanhas? Norberto Bobbio (1986) chamava tal cenário de miopia e presbiopia política.[2]
Talvez 2016 nos provoque, à luz da História, a entender que defender a democracia sem conhecer seus problemas e buscar suas melhorias é como não a defender. Comprometer-se com um sistema cujas bases municipais, estaduais e federais são carentes de uma verdadeira cultura democrática é expor-se a críticas cada vez mais pertinentes, embora maliciosas em muitos casos. É diminuir a força dessa construção que deveria ser de todos.
Zygmunt Bauman cunhou, em 2007, a expressão “retrotopia”. Carlos Melo, cientista político brasileiro, utilizou termo semelhante em entrevistas às vésperas da eleição de 2018, citando a “utopia regressiva”. Ambos, congêneres, denotam a vontade individual ou coletiva de idealizar o passado em busca de segurança, diria talvez Bauman, ou de um modelo bem-sucedido, diria Melo. Conceitos que podem funcionar como ferramenta para entender determinadas visões sobre o passado, cuja tendência é distorcê-lo a favor de seus interesses. Carlos Fico evidenciou isso em Utopia Autoritária Brasileira (2025). Ao olhar para o passado, hoje mais que nunca, para muitos significa enxergá-lo por esses prismas de distorção.
O que 2016 continua a nos instigar é, primordialmente, que precisamos entendê-lo no que ele traz de mais preocupante e instável a respeito dos pilares do nosso sistema democrático. Apesar dessas transformações, lutas e debates, nossa organização política ainda permanece vulnerável internamente, como na metáfora do cupim de Políbio, que corrói o sistema democrático sem rupturas bruscas, mas paulatinamente o compromete por dentro.
Enquanto país, parecemos ainda carentes de mais episódios de amadurecimento: menos na direção do poder e mais na direção da qualidade de vida da população. Ou seja, a cultura democrática é o patrimônio a ser popularmente apropriado. Realidade cuja compreensão de 2016 pode ajudar, se virmos a deposição de Dilma pelo paradigma de que não é necessariamente preciso ser golpe para ser nocivo.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar, 2017
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
FICO, Carlos. Utopia autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. 1. ed. São Paulo: Crítica, 2025.
HESÍODO. Teogonia. Tradução: Christian Werner. 2. ed. São Paulo: Hedra, 2025.
MELO, Carlos. ‘Brasil vive uma utopia regressiva’. Entrevista concedida a Amanda Pupo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 nov. 2017. Disponível em https://ihu.unisinos.br/categorias/186-noticias-2017/573572-brasil-vive-uma-utopia-regressiva. Acesso em 23 fev. 2026.
POLÍBIO. História pragmática. Tradução: Breno Battin Sebastiani. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.
[1] Monstruosidade da Mitologia Grega, gerado por Gaia e Tártaro para vingar os Titãs da derrota pelos deuses olímpicos. Zeus o venceu e o aprisionou sob as águas, abaixo do monte Etna na Sicília. A crença da antiguidade atribuía à ira de Tifão a erupção do vulcão nesse mesmo lugar.
[2] Uma alusão à compreensão pouco precisa da política, vista de longe como algo que não pertence ao cidadão comum, portanto míope. Ou vista como forma de enriquecimento pessoal, numa visão de perto igualmente turva do que é participar da vida política, configurando uma visão presbita.
Lucas Magalhães Costa é doutorando em História e Culturas Políticas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em História Ibérica pela UNIFAL-MG. E-mail: lc.ara@hotmail.com
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