Natural de Piumhi, a graduanda Assucena Quéren Lopes, do curso de Ciência da Computação da UNIFAL-MG, foi aprovada no processo seletivo de Doutorado Direto da Universidade de São Paulo (USP), na área de Inteligência Artificial, com bolsa da FAPESP. O resultado preliminar do certame foi divulgado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP).
Na UNIFAL-MG, Assucena construiu parte dessa trajetória como bolsista de Iniciação Científica no SisAPEC, iniciativa voltada ao desenvolvimento e validação de modelos de IA aplicados ao cuidado em enfermagem. A pesquisa contou com a supervisão da Isabelle Cristinne Pinto Sampaio Costa e com a coordenação técnica de Tiago Silveira, reforçando a integração entre computação e saúde como diferencial formativo.
Na entrevista a seguir, a estudante relembra como a curiosidade inicial pela física e pelas Olimpíadas de Astronomia a levou à computação, fala sobre a descoberta da Inteligência Artificial e da Ciência de Dados, comenta os desafios de conciliar graduação e pesquisa e destaca a importância do fomento público para ampliar o acesso à ciência e incentivar mais mulheres na tecnologia.
Confira na íntegra:
Poderia se apresentar brevemente, dizendo de onde é e o que a motivou a cursar Ciência da Computação na UNIFAL-MG?
Assucena Quéren Lopes: Foi estudando para as Olimpíadas de Astronomia que, quase sem perceber, a computação apareceu como um novo interesse.
Tudo começou de um jeito meio inesperado: eu achava que meu caminho estava na física. Foi estudando para as Olimpíadas de Astronomia que, quase sem perceber, a computação apareceu como um novo interesse.
Ao mesmo tempo, eu sempre tive um apoio muito forte dentro de casa. Meus pais sempre apoiaram meus estudos de forma incondicional e me fizeram acreditar, desde cedo, que eu poderia conquistar o que quisesse. Foi assim que a Ciência da Computação na UNIFAL-MG se tornou uma escolha natural e especial para mim, pela excelência da universidade e pela proximidade com Piumhi, minha cidade natal.

Em que momento a pesquisa científica passou a fazer sentido na sua formação? Houve algum episódio em que percebeu que a ciência poderia transformar realidades na saúde ou na computação?
Assucena Quéren Lopes: No decorrer da graduação, houve um momento em que eu me senti frustrada, como se ainda não tivesse encontrado o meu lugar dentro da computação. Parecia que o caminho mais esperado era seguir para o desenvolvimento de sistemas, criando aplicativos e sites (back-end e front-end). Eu entendia a importância disso, mas, no fundo, sentia que não era ali que minha motivação realmente estava.
Foi quando comecei a olhar para outras possibilidades dentro do curso que tudo mudou. Descobri a Inteligência Artificial e a Ciência de Dados e, pela primeira vez, a computação fez sentido para mim de um jeito diferente. Eu mergulhei nesses temas, iniciei minha primeira iniciação científica e, nesse processo, percebi o quanto a pesquisa pode ser transformadora.
Como foi participar do projeto de iniciação científica “Validação de modelos de inteligência artificial para predição de diagnósticos de enfermagem com dados públicos”, ligado ao SisAPEC? Quais atividades ou resultados mais a marcaram e como essa experiência contribuiu para seu desenvolvimento acadêmico?
Assucena Quéren Lopes: Participar do SisAPEC foi um daqueles pontos que mudam a forma como a gente enxerga a própria área. Foi ali que eu me aproximei de verdade da pesquisa aplicada e comecei a entender como a Inteligência Artificial pode ter impacto real na saúde, especialmente em algo tão sensível quanto apoiar diagnósticos de enfermagem.
Essa experiência marcou muito a minha formação e acabou influenciando diretamente os temas que eu sigo hoje e que, mais tarde, se conectaram ao meu projeto de doutorado. Sou muito grata à professora Isabelle Cristinne Pinto Sampaio Costa e ao professor Tiago Silveira, pela orientação, pelo apoio e por terem acreditado no meu potencial nesse caminho.
Quais desafios você enfrentou ao conciliar as demandas da graduação com as atividades do SisAPEC e outras responsabilidades, e como conseguiu superar esses obstáculos?
Assucena Quéren Lopes: Conciliar as demandas foi realmente desafiador. Houve dias em que eu me sentia muito cansada e até sem motivação, porque a rotina exige bastante. Com o tempo, eu aprendi que é fundamental saber a hora de parar, descansar e cuidar da mente, porque sem equilíbrio a gente acaba se esgotando.
Mas também aprendi que, independentemente do ritmo, o mais importante é não desistir. Aos poucos, com constância e dedicação, as coisas vão se construindo.
O SisAPEC une profissionais de enfermagem e de tecnologia da informação. De que forma essa convivência interdisciplinar influenciou sua visão sobre a computação aplicada à saúde?
Assucena Quéren Lopes: Essa troca me mostrou que aplicar Inteligência Artificial na saúde não é apenas desenvolver modelos com bom desempenho, mas criar soluções que realmente façam sentido para quem está na prática — e que possam ser usadas de forma ética, segura e útil.
Também me fez entender a importância de saber comunicar o que estamos fazendo: traduzir conceitos técnicos e conseguir que pessoas de outras áreas compreendam e confiem na tecnologia. Isso mudou bastante a forma como eu enxergo a computação: como uma ponte entre conhecimento técnico e impacto social.

Como recebeu a notícia de que foi aprovada em 2º lugar geral no processo seletivo do doutorado direto da USP, com bolsa FAPESP? O que essa conquista representa para você e para a UNIFAL-MG, considerando que você é a primeira aluna de Ciência da Computação da instituição a ingressar nessa modalidade?
Assucena Quéren Lopes: Quando eu recebi a notícia, além da alegria imensa, veio junto uma reflexão: a de que existem muitos alunos com um potencial enorme que passam pela graduação sem perceber todas as possibilidades. Muitas vezes, o curso parece empurrar todo mundo para um mesmo roteiro, como se existisse apenas um destino natural. E caminhos como pesquisa, inovação ou aprofundamento acadêmico acabam ficando distantes, pouco discutidos e até invisíveis para muitos estudantes.
Eu já ouvi várias vezes que mestrado ou doutorado seriam só para quem quer dar aula, ou até uma perda de tempo. Mas, para mim, é justamente o contrário: é um espaço de profundidade, de pensamento crítico, de trabalhar em problemas grandes — inclusive para quem quer seguir no mercado.
O que me chama atenção é que muitos estudantes terminam a graduação sem ter contato real com pesquisa, sem ler sequer um artigo, sem se aprofundar de verdade em algo que desperte interesse. Por isso, eu acho fundamental que a universidade e os professores mostrem mais cedo que existem muitas possibilidades além do caminho mais tradicional e que a pesquisa pode abrir horizontes enormes.
No fim, essa conquista é um sonho pessoal, mas também diz muito sobre a UNIFAL-MG: sobre o quanto os alunos daqui podem ir longe quando encontram apoio, orientação e incentivo.
O programa de Inteligência Artificial da USP é reconhecido pela excelência. Que temas ou linhas de pesquisa pretende desenvolver no doutorado e como suas experiências na UNIFAL-MG a preparam para esses desafios?
Assucena Quéren Lopes: Alguns temas que eu tenho pesquisado bastante são classificação multirrótulo, fluxos contínuos de dados e aprendizado não supervisionado, especialmente em cenários em que os dados mudam ao longo do tempo — o que chamamos de deriva de conceito. Em termos mais simples, são problemas em que informações chegam constantemente, podem ter mais de um resultado ao mesmo tempo e, muitas vezes, sem as respostas corretas já disponíveis imediatamente.
No doutorado, eu pretendo desenvolver uma pesquisa justamente na interseção desses temas, criando modelos de Inteligência Artificial mais robustos e adaptáveis a situações reais e dinâmicas.
A UNIFAL-MG foi fundamental para me preparar para esses desafios. Foi aqui que eu tive meu primeiro contato com pesquisa científica, aprendi a construir uma base sólida e ganhei maturidade acadêmica para seguir em um programa de excelência como o da USP.
Qual a importância das bolsas de fomento, como a da FAPESP, para a formação de jovens pesquisadores? Como políticas públicas de apoio à ciência ajudam a reduzir desigualdades e ampliar a participação feminina na tecnologia?
Assucena Quéren Lopes:
Essas políticas públicas são essenciais. Poder se dedicar integralmente aos estudos e à pesquisa é um privilégio que poucas pessoas têm, e ter um suporte financeiro como uma bolsa da FAPESP é, muitas vezes, o que torna isso possível.
Defender o investimento público em ciência é defender o direito à educação, à inovação e ao futuro do país. Sem fomento, a pesquisa se torna inacessível e a universidade deixa de ser um espaço verdadeiramente democrático. Com essas bolsas, conseguimos desenvolver pesquisa de ponta, formar pesquisadores altamente qualificados e gerar impacto direto no mundo real.
Além disso, políticas de apoio à ciência ajudam a reduzir desigualdades e ampliam a participação de grupos que historicamente tiveram menos oportunidades, como mulheres na computação. Elas garantem que talento e dedicação possam valer mais do que condição financeira — porque, muitas vezes, o que falta não é capacidade: é acesso e incentivo. Por isso, eu acredito que investir em ciência e em bolsas de fomento não é gasto: é uma das formas mais poderosas de transformação social.
A área de Inteligência Artificial ainda tem baixa representatividade feminina. Você se vê como inspiração para outras mulheres interessadas em computação e saúde? Que iniciativas julga importantes para incentivar mais alunas a seguirem esse caminho?
Assucena Quéren Lopes: Eu me vejo muito mais como uma aliada do que como um exemplo distante. Eu estou sempre disposta a ajudar, conversar e dar dicas para qualquer mulher que tenha interesse na área da computação ou que queira seguir uma pós-graduação. Acho importante que elas saibam que esse caminho é possível e que não precisa ser solitário.
Para mim, as iniciativas mais importantes começam muito cedo, ainda na infância. A família e a escola têm um papel fundamental em incentivar meninas a terem contato com tecnologia, jogos, computadores e raciocínio lógico, sem reforçar estereótipos.
A ideia de que certas atividades, como videogames ou jogos no computador, são “coisa de menino” contribui diretamente para a desigualdade e acaba afastando muitas meninas da área antes mesmo de elas descobrirem seu interesse. Criar ambientes de incentivo, apoio e pertencimento desde cedo faz toda a diferença para que mais mulheres se sintam confiantes para seguir esse caminho.

Que conselho deixaria para estudantes da UNIFAL-MG que desejam trilhar caminhos semelhantes — seja em Inteligência Artificial, seja em pesquisa científica — e alcançar conquistas como a sua?
Assucena Quéren Lopes: O principal conselho que eu deixaria é: não se compare tanto e não ache que já é tarde. Eu mesma não fui uma aluna “nota 10” durante toda a graduação, nem comecei com um currículo perfeito ou com várias iniciações científicas desde o início. Então, mesmo que você sinta que ainda não tem um currículo excelente ou que não começou cedo, saiba que ainda dá tempo.
O que faz diferença é ter curiosidade, iniciativa e disposição para aprender de verdade. Muitas oportunidades surgem justamente para quem decide se movimentar, procurar orientação e colocar a mão na massa.
E também deixo uma mensagem importante aos professores: um bom professor não é apenas aquele que transmite conteúdo, mas aquele que inspira, orienta e enxerga o potencial dos alunos. Incentivar a pesquisa, aconselhar e abrir portas faz toda a diferença. Os estudantes não são apenas apoio: eles são o futuro da ciência e da universidade.
Outro ponto muito importante é estudar bem a base. Modas vêm e vão — hoje usamos uma ferramenta, amanhã outra linguagem —, mas os fundamentos permanecem. Quem constrói uma base sólida consegue se adaptar a qualquer mudança. E, com dedicação genuína, é possível alcançar muito mais do que parece no começo.
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