Entre estereótipos, liderança e letramento científico: os desafios das meninas na ciência

Renata Piacentini Rodriguez compartilha como o projeto Ciência, Coisa de Menina atua para romper barreiras que ainda afastam meninas das carreiras científicas

Atualizado em 11/02/2026 08:31

Na reportagem sobre a presença feminina na ciência na UNIFAL-MG, os dados revelam avanços e desafios na formação e permanência de mulheres nas áreas de Exatas e Engenharias. Para aprofundar essa discussão, ouvimos a professora Renata Piacentini Rodriguez, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) e coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina, iniciativa que se consolidou como proposta nacional de incentivo à participação feminina em STEM – Science, Technology, Engineering and Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Renata analisa as barreiras ainda enfrentadas pelas meninas na escolha de carreiras científicas, o papel das universidades públicas e das escolas na promoção do letramento científico, e ainda anuncia os próximos passos do projeto, que segue ampliando sua atuação pelo Brasil.

Modelos reais criam futuros possíveis

O projeto “Ciência, coisa de menina” é uma proposta tão enriquecedora, que se tornou uma proposta nacional. O que ele tem mostrado, na prática, sobre o interesse das meninas pela ciência?
Renata Piacentini Rodriguez – professora do Instituto de Ciência e Tecnologia e coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina. (Foto: Arquivo Pessoal)

Renata: O projeto Ciência, Coisa de Menina deixou claro que precisamos levar ciência para dentro das escolas e que, quando a ciência é palpável, real e está disponível, a carreira científica se torna uma opção.

Temos que ter em mente que parte das nossas inspirações para a pergunta “O que você quer ser quando crescer?” parte do pressuposto de que vamos nos espelhar em modelos, em pessoas reais que passamos a admirar e a sonhar em ser como elas. Se as meninas não têm contato com mulheres cientistas, se elas não fazem ideia de que a ciência é uma carreira possível para elas e se isso não parece algo factível, como poderão sonhar em ser cientistas?

É por isso que o projeto precisa estar cada vez mais difundido pelo país. Esse é meu objetivo maior: levar o projeto ao maior número possível de estados e escolas, estabelecer parcerias em todo o Brasil.

“Precisamos levar ciência para dentro das escolas… quando a ciência é palpável, real e está disponível, a carreira científica se torna uma opção.”

Em 2026, vamos inaugurar dois novos polos, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Iremos de cinco para sete estados e seguimos com a perspectiva de crescer cada vez mais, porque crescer, nesse caso, significa ampliar nossa extensão de ação, levar a ciência para TODAS e permitir que, ao longo dos próximos anos, sejamos um agente de mudança no panorama da desigualdade de gênero na ciência.

Estereótipos ainda pesam na escolha profissional

Quais são as principais barreiras que você observa quando meninas pensam em seguir carreiras científicas?

Renata: Quando pensamos em barreiras, precisamos reconhecer que ainda existem estereótipos colocados pela sociedade para determinadas carreiras. Apesar de estarmos em 2026, infelizmente ainda há a ideia de que carreiras de cuidado, atenção, proteção e educação são femininas, enquanto carreiras científicas e da área de exatas são vistas como predominantemente masculinas.

“Ingressar em um curso de graduação no qual se sabe que a maioria será composta por homens pode ser uma escolha difícil, especialmente em um país onde a violência de gênero também permeia a desigualdade de gênero nas carreiras de exatas.”

Isso influencia muito a decisão das meninas. Ingressar em um curso de graduação no qual se sabe que a maioria será composta por homens pode ser uma escolha difícil, especialmente em um país onde a violência de gênero também permeia a desigualdade de gênero nas carreiras de exatas.

Além dos estereótipos, há a escassez de modelos femininos em posições de liderança nessas áreas. É verdade que houve avanços – temos mais mulheres ocupando cargos de direção e liderança -, mas ainda são poucas quando comparadas ao número de homens nesses espaços. As meninas precisam se enxergar nesses lugares, olhando para outras mulheres.

Quando fazemos um recorte racial, o problema se aprofunda. Se já é difícil encontrar mulheres em determinadas posições, é ainda mais difícil encontrar mulheres negras, pretas e pardas. As barreiras sociais estão ligadas a uma cultura machista ainda presente em nossa sociedade.

“Muitas vezes, professores e professoras acabam trilhando caminhos diferenciados entre meninos e meninas, não oportunizando de maneira igualitária essas carreiras dentro da própria escola.”

Outro ponto importante é o ambiente escolar. Muitas vezes, professores e professoras acabam trilhando caminhos diferenciados entre meninos e meninas, não oportunizando de maneira igualitária essas carreiras dentro da própria escola.

O projeto atua justamente na direção contrária: levamos mulheres cientistas – desde mulheres jovens em início de carreira, fazendo iniciação científica, até mulheres seniores, como eu – para mostrar às meninas que é possível. Sentamos, conversamos, construímos estratégias para que elas também possam trilhar essa carreira, se esse for o desejo delas.

Um ciclo virtuoso que começa na sala de aula

Qual é o papel da escola e da universidade para romper essas barreiras desde cedo?

Renata: No Brasil, mais de 90% da ciência é produzida dentro das universidades públicas. Portanto, cabe a nós, como cientistas dessas instituições, levar a ciência para além dos muros da universidade. Não apenas por meio de artigos científicos ou descobertas acadêmicas, mas aproximando a ciência da sociedade.

Isso é fundamental para promover o letramento científico. Uma sociedade com letramento científico desenvolve pensamento crítico, questiona informações, não aceita passivamente notícias falsas e mantém uma postura investigativa diante do mundo.

“Sair da bolha acadêmica é uma responsabilidade nossa. Esse é um dos pilares do projeto: levar ciência para fora da universidade. A escola, por sua vez, tem papel formativo central. O estudante passa de 15 a 17 anos de sua vida dentro da escola. A formação científica precisa ser consolidada nesse espaço.”

Sair da bolha acadêmica é uma responsabilidade nossa. Esse é um dos pilares do projeto: levar ciência para fora da universidade. A escola, por sua vez, tem papel formativo central. O estudante passa de 15 a 17 anos de sua vida dentro da escola. A formação científica precisa ser consolidada nesse espaço. Embora o Brasil tenha políticas que exigem formação científica, a implementação enfrenta desafios como falta de infraestrutura e necessidade de formação especializada de professores.

Em 2026, o projeto lançará um programa nacional de letramento científico para professores da rede pública, com formação gratuita aberta a todo o país. A proposta é capacitar docentes para que promovam o letramento científico em sala de aula.

Um país só se desenvolve tecnologicamente quando possui ciência forte, com financiamento e resultados produtivos. Isso gera desenvolvimento econômico, melhora o ensino e cria um ciclo virtuoso de crescimento.

Dentro do projeto, seguimos atuando com as meninas e, a partir de 2026, também de forma estruturada com os professores, fortalecendo essa rede de transformação.

Participantes do projeto Ciência, Coisa de Menina. (Fotos: Arquivo/Coordenação)

Leia também:

:: Da permanência estudantil à conquista do diploma em Engenharia Ambiental na universidade pública
Destaque Acadêmico do curso de Engenharia Ambiental, Ana Lidia de Castro relembra como o suporte institucional foi decisivo para transformar sonho em profissão
:: Quando mulheres ocupam territórios historicamente masculinos e constroem trajetórias de destaque na Engenharia de Minas
Reconhecida como Destaque Acadêmico, Carolina Mendes Gonçalves comenta os desafios de ser mulher em um curso majoritariamente masculino
:: Dedicação e protagonismo na construção de trajetórias de destaque na Engenharia Química
Reconhecida pela segunda vez como Destaque Acadêmico, Isabelle Ferreira destaca a importância de aproveitar todas as oportunidades da universidade na construção de uma carreira científica
:: Formação interdisciplinar abre caminhos nas áreas de Ciência e Tecnologia
Destaque Acadêmico no Bacharelado em Ciência e Tecnologia, Victória Maria Da Ré Silva destaca o papel da monitoria, da extensão e da iniciação científica na construção de sua trajetória
:: Excelência científica com assinatura feminina: do investimento público ao reconhecimento global
Olga Luisa Tavano, professora da Faculdade de Nutrição e única pesquisadora da Instituição incluída no ranking World’s Top 2% Scientist, reflete sobre excelência acadêmica e os desafios da carreira científica para mulheres
Participe do Jornal UNIFAL-MG!

Você tem uma ideia de pauta ou gostaria de ver uma matéria publicada? Contribua para a construção do nosso jornal enviando sugestões ou pedidos de publicação. Seja você estudante, professor, técnico ou membro da comunidade, sua voz é essencial para ampliarmos o alcance e a diversidade de temas abordados.

LEIA TAMBÉM