Na reportagem sobre a presença feminina na ciência na UNIFAL-MG, os dados revelam avanços e desafios na formação e permanência de mulheres nas áreas de Exatas e Engenharias. Para aprofundar essa discussão, ouvimos a professora Renata Piacentini Rodriguez, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) e coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina, iniciativa que se consolidou como proposta nacional de incentivo à participação feminina em STEM – Science, Technology, Engineering and Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Renata analisa as barreiras ainda enfrentadas pelas meninas na escolha de carreiras científicas, o papel das universidades públicas e das escolas na promoção do letramento científico, e ainda anuncia os próximos passos do projeto, que segue ampliando sua atuação pelo Brasil.
Modelos reais criam futuros possíveis
O projeto “Ciência, coisa de menina” é uma proposta tão enriquecedora, que se tornou uma proposta nacional. O que ele tem mostrado, na prática, sobre o interesse das meninas pela ciência?

Renata: O projeto Ciência, Coisa de Menina deixou claro que precisamos levar ciência para dentro das escolas e que, quando a ciência é palpável, real e está disponível, a carreira científica se torna uma opção.
Temos que ter em mente que parte das nossas inspirações para a pergunta “O que você quer ser quando crescer?” parte do pressuposto de que vamos nos espelhar em modelos, em pessoas reais que passamos a admirar e a sonhar em ser como elas. Se as meninas não têm contato com mulheres cientistas, se elas não fazem ideia de que a ciência é uma carreira possível para elas e se isso não parece algo factível, como poderão sonhar em ser cientistas?
É por isso que o projeto precisa estar cada vez mais difundido pelo país. Esse é meu objetivo maior: levar o projeto ao maior número possível de estados e escolas, estabelecer parcerias em todo o Brasil.
Em 2026, vamos inaugurar dois novos polos, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Iremos de cinco para sete estados e seguimos com a perspectiva de crescer cada vez mais, porque crescer, nesse caso, significa ampliar nossa extensão de ação, levar a ciência para TODAS e permitir que, ao longo dos próximos anos, sejamos um agente de mudança no panorama da desigualdade de gênero na ciência.
Estereótipos ainda pesam na escolha profissional
Quais são as principais barreiras que você observa quando meninas pensam em seguir carreiras científicas?
Renata: Quando pensamos em barreiras, precisamos reconhecer que ainda existem estereótipos colocados pela sociedade para determinadas carreiras. Apesar de estarmos em 2026, infelizmente ainda há a ideia de que carreiras de cuidado, atenção, proteção e educação são femininas, enquanto carreiras científicas e da área de exatas são vistas como predominantemente masculinas.
Isso influencia muito a decisão das meninas. Ingressar em um curso de graduação no qual se sabe que a maioria será composta por homens pode ser uma escolha difícil, especialmente em um país onde a violência de gênero também permeia a desigualdade de gênero nas carreiras de exatas.
Além dos estereótipos, há a escassez de modelos femininos em posições de liderança nessas áreas. É verdade que houve avanços – temos mais mulheres ocupando cargos de direção e liderança -, mas ainda são poucas quando comparadas ao número de homens nesses espaços. As meninas precisam se enxergar nesses lugares, olhando para outras mulheres.
Quando fazemos um recorte racial, o problema se aprofunda. Se já é difícil encontrar mulheres em determinadas posições, é ainda mais difícil encontrar mulheres negras, pretas e pardas. As barreiras sociais estão ligadas a uma cultura machista ainda presente em nossa sociedade.
Outro ponto importante é o ambiente escolar. Muitas vezes, professores e professoras acabam trilhando caminhos diferenciados entre meninos e meninas, não oportunizando de maneira igualitária essas carreiras dentro da própria escola.
O projeto atua justamente na direção contrária: levamos mulheres cientistas – desde mulheres jovens em início de carreira, fazendo iniciação científica, até mulheres seniores, como eu – para mostrar às meninas que é possível. Sentamos, conversamos, construímos estratégias para que elas também possam trilhar essa carreira, se esse for o desejo delas.
Um ciclo virtuoso que começa na sala de aula
Qual é o papel da escola e da universidade para romper essas barreiras desde cedo?
Renata: No Brasil, mais de 90% da ciência é produzida dentro das universidades públicas. Portanto, cabe a nós, como cientistas dessas instituições, levar a ciência para além dos muros da universidade. Não apenas por meio de artigos científicos ou descobertas acadêmicas, mas aproximando a ciência da sociedade.
Isso é fundamental para promover o letramento científico. Uma sociedade com letramento científico desenvolve pensamento crítico, questiona informações, não aceita passivamente notícias falsas e mantém uma postura investigativa diante do mundo.
Sair da bolha acadêmica é uma responsabilidade nossa. Esse é um dos pilares do projeto: levar ciência para fora da universidade. A escola, por sua vez, tem papel formativo central. O estudante passa de 15 a 17 anos de sua vida dentro da escola. A formação científica precisa ser consolidada nesse espaço. Embora o Brasil tenha políticas que exigem formação científica, a implementação enfrenta desafios como falta de infraestrutura e necessidade de formação especializada de professores.
Em 2026, o projeto lançará um programa nacional de letramento científico para professores da rede pública, com formação gratuita aberta a todo o país. A proposta é capacitar docentes para que promovam o letramento científico em sala de aula.
Um país só se desenvolve tecnologicamente quando possui ciência forte, com financiamento e resultados produtivos. Isso gera desenvolvimento econômico, melhora o ensino e cria um ciclo virtuoso de crescimento.
Dentro do projeto, seguimos atuando com as meninas e, a partir de 2026, também de forma estruturada com os professores, fortalecendo essa rede de transformação.
Participantes do projeto Ciência, Coisa de Menina. (Fotos: Arquivo/Coordenação)
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