Enquanto os números mostram avanços na formação de meninas e mulheres na ciência, o reconhecimento internacional da professora Olga Luisa Tavano da Faculdade de Nutrição (FANUT) evidencia o impacto desse percurso no mais alto nível da produção científica: ela foi a única pesquisadora mulher da Universidade a figurar entre os pesquisadores mais influentes do mundo no ranking World’s Top 2% Scientists, elaborado pela Universidade de Stanford (EUA), em parceria com a editora Elsevier.
Olga reflete sobre o significado desse reconhecimento e sobre o que ainda precisa avançar para que mais mulheres alcancem os níveis mais altos da carreira científica.
Quando o reconhecimento valida o investimento público
Você está entre os pesquisadores mais citados do mundo. O que esse reconhecimento representa para você?

Olga: Tem muitos significados, mas especialmente vou destacar dois: me reforça a certeza de que o investimento público em educação vale a pena (100% da minha formação veio de escolas e universidades públicas, além de poder contar com bolsas de estudos e financiamento público de pesquisas); e de que é possível fazer um bom trabalho com qualidade, mesmo sem estar em grandes grupos com altos financiamentos, e mantendo a ética.
Índices que consideram nossas publicações não são fáceis para pesquisadores que, por exemplo, não se colocam em sistemas de autorias que se dão muito mais por “compadrios” do que por somatórias de competências.
E, nesse sentido, é importante o tipo de índice da Universidade de Stanford, que não considera apenas o número de trabalhos publicados, mas também sua qualidade, através do número de citações recebidas e se somos os principais “responsáveis” por eles (primeiro autor ou o correspondente).
A exaustão feminina invisível
O que você acha que ainda falta para que mais mulheres cheguem aos níveis mais altos da carreira científica?
Olga: Poderia citar outros pontos, mas outro dia li sobre a “exaustão feminina oculta ou invisível” e me pareceu algo ainda a se trabalhar. Então eu diria que falta às mulheres uma “carga mental” melhor equacionada, especialmente fora do ambiente de trabalho.
Nossa carreira científica se dá especialmente em ambientes que já avançaram em não nos discriminar. E ainda estamos avançando, vide as novas ponderações em Editais para pontuações de currículos de mulheres que se tornaram mães (por nascimento ou adoção). E penso que vamos avançar mais.
Mas, será que para chegarmos nesses níveis altos da carreira dedicamos a mesma carga mental que homens? Em casa, quantas mulheres não estão ainda sob a velha estrutura em que elas pensam e planejam toda ou quase toda rotina doméstica?
Não falo só da divisão da execução, mas do espaço mental ocupado pelo planejar, decidir, se responsabilizar…
Essa carga ainda não igualmente dividida com nossos pares em casa pode nos prejudicar? Sim, estamos chegando ao mesmo lugar, cargo, responsabilidade no trabalho, mas será que ao mesmo custo?
Claro, muitos lares estão mudando, e sou de uma geração que testemunhou muita mudança. Mas ainda penso que esse é um ponto importante a ser equacionado para que nossas meninas da ciência não iniciem suas atuações dentro dessas velhas estruturas e possam mostrar todo seu potencial.













