A professora Fernanda Onuma, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) e integrante do Grupo de Pesquisa de Gênero pela Não Intolerância (GENI), aborda como as desigualdades de gênero também atravessam outros campos do conhecimento, inclusive aqueles que historicamente enfrentam disputas em torno do reconhecimento científico.
Fernanda amplia a seguir o debate ao analisar como estereótipos de gênero, carga mental, trabalho doméstico e desigualdades sociais estruturais impactam a trajetória de mulheres pesquisadoras. Para ela, discutir mulheres na ciência exige olhar não apenas para o acesso às carreiras acadêmicas, mas também para as condições materiais e simbólicas que moldam o reconhecimento, a permanência e o avanço das mulheres no campo científico.
Ciências Sociais Aplicadas também são ciência!
Por que, historicamente, algumas áreas do conhecimento enfrentam questionamentos sobre seu reconhecimento como ciência, e como isso impacta as mulheres que atuam nesses campos?

Fernanda: O que às vezes a gente percebe é que não só as Ciências Sociais Aplicadas, mas também outros campos do conhecimento científico, como as Ciências Humanas e as Ciências Sociais, muitas vezes sequer gozam do mesmo status de ciência que outras áreas, como a Engenharia e as Exatas.
Então, já é difícil ser mulher nas mais diferentes áreas, se a gente pensar que vivemos em uma sociedade que se estrutura de maneira não apenas racista, mas também patriarcal, que impõe desafios extras às mulheres, sobretudo às mulheres negras. E, se a gente pensa que o campo científico seria, a princípio, uma área de prestígio ligada à intelectualidade e ao uso da razão, as mulheres, por conta dos estereótipos de gênero, são frequentemente atreladas às questões do cuidado e da emoção. Muitas vezes, portanto, as mulheres já são negligenciadas dentro das áreas das ciências, como um todo.
E quando falamos de áreas que, dentro do próprio campo científico, já são desprestigiadas, como as Ciências Sociais Aplicadas, a situação se agrava. Muitas vezes nem status de cientista as pesquisadoras desses campos têm. Imagina, então, ser reconhecida entre os pares. É importante colocar as Ciências Sociais Aplicadas dentro do campo das ciências, porque ainda há um pensamento muito positivista de que as chamadas “ciências duras” seriam as ciências por excelência, enquanto as demais áreas seriam menos científicas.
A sobrecarga do cuidado e seus reflexos na produção científica das mulheres
De que maneiras os trabalhos doméstico e de cuidado, muitas vezes invisíveis ou romantizados, afetam as trajetórias das mulheres cientistas?
Fernanda: Pela própria construção social do papel da mulher, há uma associação às tarefas de cuidado – maternidade, trabalho doméstico, cuidado com pessoas idosas, crianças e o lar. Isso toma muito tempo das mulheres. Mesmo mulheres que estão na ciência não estão isentas desses trabalhos reprodutivos. E não se trata apenas da execução. O trabalho doméstico envolve planejamento, organização, antecipação de demandas. Ele não se limita ao tempo dentro de casa. Ele nos atravessa mesmo quando estamos no trabalho produtivo.
Nas nossas pesquisas no GENI, temos visto como essa carga é distribuída de forma desigual. Durante a pandemia, por exemplo, isso ficou ainda mais evidente: o trabalho doméstico é uma carga, não só de trabalho físico, mas também mental e emocional. E o trabalho acadêmico-científico, enquanto um trabalho intelectual, demanda tempo de dedicação. Quando as mulheres são historicamente delegadas às funções de cuidado, acabam tendo menos tempo para a atividade científica, em todos os campos da ciência.
Interseccionalidade e desigualdade social
Como as desigualdades sociais, econômicas e raciais interagem com gênero para afetar o percurso acadêmico e científico das mulheres?
Fernanda: Quando olhamos para mulheres de diferentes classes sociais, a desigualdade se intensifica. Muitas mulheres das classes trabalhadoras não contam com rede de apoio. Não podem delegar o trabalho doméstico. Muitas exercem trabalho doméstico remunerado fora de casa e, ao retornar, continuam realizando trabalho doméstico não remunerado em suas próprias casas.
A romantização da maternidade e do trabalho doméstico contribui para que essas atividades sejam vistas como “não trabalho”. E isso tem recorte de raça. No Brasil, são sobretudo mulheres negras que realizam esse trabalho, remunerado ou não.
Mesmo na academia, há essa pressão identitária. A maternidade é constantemente cobrada. O valor social da mulher ainda é medido pela maternidade. E o trabalho científico, que exige dedicação exclusiva, entra em conflito com esse modelo. Muitas mulheres carregam culpa por não conseguirem corresponder à expectativa social de dedicação integral à família.
Estudos de gênero e o questionamento do que é ciência
Como os estudos de gênero e das Ciências Sociais Aplicadas desafiam a ideia tradicional de ciência e ampliam nossa compreensão sobre produção de conhecimento?
Fernanda: Estudos de gênero muitas vezes são acusados de não serem ciência. Como já apontava a professora Heleieth Saffioti desde a década de 1960, falar de mulheres, pessoas LGBTQIAP+, pessoas negras é frequentemente tratado como “perfumaria”.
A sociedade não é composta por corpos amorfos. Ela é construída por mulheres, por pessoas negras, por pessoas LGBTQIAP+. Ignorar essa pluralidade é que seria fazer uma pseudociência.
Mas o que chamamos de ciência moderna foi construída sob bases eurocêntricas e androcêntricas.
Os estudos de gênero buscam justamente resgatar a materialidade da vida social. Se a ciência pretende compreender a sociedade, ela precisa olhar para a diversidade humana. Ciências Sociais Aplicadas aplicam conhecimento científico à realidade concreta. E essa realidade é, sim, muito plural, muito miscigenada e muito diversa.
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