A vida não é útil, de Ailton Krenak

Atualizado em 23/03/2026 08:44

O pensamento de Ailton Krenak, uma das maiores lideranças indígenas contemporâneas, ecoa uma sequência de ideias que podem corroborar a educação ambiental. Neste texto, propomo-nos a discutir e refletir sobre a obra A vida não é útil, a qual intitula princípios fundamentais à educação ambiental, especialmente, a definição de Terra enquanto organismo vivo e o de ambiente como um elemento intrínseco ao ser humano. Tais noções são essenciais para transgredir o educar, superando a prática educativa ocidental, a qual reforça, majoritariamente, que “[…] educação é, na verdade, uma ofensa à liberdade de pensamento, é tomar um ser humano que acabou de chegar aqui, chapá-lo de ideias e soltá-lo para destruir o mundo” (Krenak, 2020, p. 101-102).

(Foto: Reprodução/Gênero e Número)

O autor, Ailton Krenak, nascido em 1953 em Itabirinha (MG), foi  o primeiro   indígena a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Pertencente ao povo  Krenak, destacou-se como ativista, ambientalista, filósofo e escritor, sendo  um dos principais defensores dos direitos dos povos originários e da preservação da  natureza. Tornou-se conhecido nacionalmente ao participar da Assembleia Constituinte de 1988, quando fez um discurso histórico pintando o rosto com jenipapo em protesto. Fundador do Núcleo de Cultura Indígena, publicou obras como Ideias para adiar o fim do mundo e  A vida não é útil, que está na lista de leituras obrigatórias do vestibular da UNICAMP, de 2026. 

A publicação é uma coletânea de cinco textos, os quais são organizados em capítulos, que se baseiam em lives e palestras do autor, entre novembro de 2017 e junho de 2020, abrangendo o desastroso período pandêmico. Neles, é predominante a cosmovisão que norteia o pensamento do ativista, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).

No primeiro capítulo, intitulado Não se come dinheiro, a abordagem central foca na noção de civilização e progresso, presente na sociedade do Ocidente, enquanto destinação ideal. Neste mesmo trecho, o ambientalista, com estilo irônico e provocativo, define o Homo sapiens como “uma espécie de ameba gigante” (Krenak, 2020, p. 9) que consome vorazmente o ambiente com o qual deveria viver em comunhão.  

Já no segundo segmento, nomeado Sonhos para adiar o fim do mundo, o sonho é apresentado como uma continuidade da realidade, uma esfera da existência que não deve ser analisada de forma prática, mas sim como uma forma de pressentimento que, em certas ocasiões, nos prepara para enfrentar o que está por vir. Logo, para postergarmos o término do mundo,“[…] temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver” (Krenak, 2020, p. 24). É sobre ser vivo e tomar parte de todos os atravessamentos do mundo, não deixando que o capitalismo nos faça esquecer daquilo que já deveríamos estar envolvidos. 

Na seção A máquina de fazer coisas, o ambientalista critica o desejo humano de se distinguir das outras espécies e questiona a lógica que valoriza a vida apenas por sua utilidade, associando esse pensamento à “máquina de fazer coisas”- metáfora para o sistema capitalista que transforma tudo em mercadoria e desconecta o ser humano da Terra. Por meio de uma memória ancestral, nos lembra que somos parte de um organismo vivo e interdependente, e não senhores da natureza, propondo uma reconexão com formas de existência que respeitam os ciclos da vida, os saberes dos povos originários e a sacralidade do planeta. Assim, somos convidados a contemplar o mundo de forma mais sensível, a suspender o céu e imaginar mundos em que o humano não ocupa o centro, mas caminha junto com os rios, as florestas e os demais seres. Contudo, essa missão parece inviável em um planeta tão narcisista e egocêntrico.

O terceiro capítulo, denominado O amanhã não está a venda , demonstra a pandemia a partir da visão do ambientalista, apontando assim como o capitalismo afeta o meio ambiente e como a separação de Ser Humano versus Terra é nociva e nos levou ao cenário pandêmico. Ailton Krenak exemplifica seu posicionamento comparando a vida humana à animal e vegetal,  

Esse vírus está discriminando a humanidade. Basta olhar em volta. O melão-de-são-caetano continua a crescer aqui do lado de casa. A natureza segue. O vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise. (p. 46-47)

Assim, podemos observar que a pandemia, a partir da visão de um determinado grupo indígena, o povo Krenak, foi um apelo da natureza, uma elucidação da necessidade de mudança no comportamento humano, não apenas a um nível individual, mas sim sistêmico.  

Outro momento na qual podemos observar tal posicionamento político, é quando o ambientalista critica a visão de que as atividades econômicas não podem parar, sendo que, para o autor, as atividades econômicas são criadas e mantidas pelo próprio homem. Ademais, critica também o posicionamento do então presidente do país, Jair Bolsonaro, que afirmou diversas vezes que algumas pessoas, principalmente pessoas idosas, iriam morrer, 

Vemos algumas pessoas defenderem a manutenção da atividade econômica, dizendo que “alguns vão morrer” e é inevitável. Esse tipo de abordagem afeta as pessoas que amam os idosos, que são avós, pais, filhos, irmãos. É uma declaração insensata, não tem sentido que alguém em sã consciência faça uma comunicação pública dizendo “alguns vão morrer”. É uma banalização da vida, mas também é uma banalização do poder da palavra. […] Governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa de quem acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. […] (p. 48-49)

O quinto e último segmento é A vida não é útil, que carrega também o título da obra então analisada. Essa parte do livro busca analisar a relação Humano versus Natureza e como o planeta possui recursos finitos. O autor relaciona a experiência humana no planeta terra com uma planta que foi devorada por formigas, assim como as formigas, nós devoramos o planeta e esperamos que ele se recupere e prospere de maneira rápida e eficaz, como uma máquina, entretanto, o planeta, assim como a planta, não é capaz de tal ação (Krenak, p. 56). Krenak ainda aprofunda seu posicionamento dizendo que “[…] a gente não se pergunta de onde vem o que consumimos. Na maioria do tempo, as pessoas mal respiram ou têm consciência do que põem na boca para comer […]” (p. 59) e que tal cenário muda apenas quando algum desastre natural acontece. 

Para mais, o autor demonstra como o sistema educacional ocidental é falho e que é a partir dele que discursos como “economizarmos água, ou só comermos orgânico e andarmos de bicicleta” (Krenak, p. 59) fará com que o planeta acabe de maneira mais lenta ou que, a partir desse cenário, o fim do mundo possa ser evitado. Entretanto, como demonstrado por ele e por outros estudiosos, como Adilson D. Paschoal em sua obra Pragas, Agrotóxicos e a Crise Ambiente (2019) e Larissa Bombardi em Agrotóxicos e Colonialismo Químico (2023), o fim do mundo não pode ser evitado a partir de ações individuais, mas sim coletivas e a nível global, com o impedimento do avanço do capitalismo como única forma de organização econômica e social.

Assim, podemos concluir que a obra A vida não é útil, de Ailton Krenak é um livro de extrema importância para o debate ambiental e educacional atual, pois questiona o papel do indivíduo na sociedade, ademais das consequências do avanço desenfreado do capitalismo. Apesar de tratar de temas complexos e relevantes na contemporaneidade, por possuir uma escrita acessível, é passível de ser lido por qualquer pessoa que deseja compreender mais sobre o assunto, principalmente a partir de uma perspectiva indígena. Por fim, fica o aprendizado de que os povos originários possuem formas de viver profundamente valiosas, que podem oferecer caminhos ou pelo menos aliviar os impactos da crise climática. Essas experiências se fundamentam em dois princípios centrais apresentados no livro e apontam para um novo modo de pensar, capaz de promover a regeneração da Terra. Nesse olhar, a vida não tem apenas um valor prático ou utilitário, mas representa uma expressão criativa que só faz sentido quando se reconhece o planeta como um ser vivo e generoso, com quem devemos estabelecer uma relação de cuidado e respeito.

Resenha desenvolvida na disciplina de Metodologia de Pesquisa, sob a revisão da professora Flaviane Faria Carvalho, do curso de Letras.

Título original: A vida não é útil
Gênero: Ensaio
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Ano da edição: 2020
Páginas: 128

Roberta Kelly Gomes dos Santos é graduanda em Letras pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) e bolsista de Iniciação Científica financiada pelo CNPq, com o tema ”apagamento de autoria feminina nos materiais didáticos”. Estagiária na Diretoria de Comunicação Social da UNIFAL-MG, autora do livro infantil ”Rafa, a Doutora Diversão” e idealizadora do perfil educacional @conquistandopelaspalavras.

Yasmin Lima Rosa Fernandes Duca é egressa do curso de graduação Letras – Línguas Estrangeiras da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG). Foi integrante do grupo PET – Letras e desenvolveu uma pesquisa de iniciação científica denominada “A voz de Neus Català e a construção do testemunho concentracionário feminino”, orientada pela Prof. Dr. Katia Aparecida da Silva Oliveira. Participou também do projeto de tradução dos contos de Emília Pardo Bazán, desenvolvido na UNIFAL-MG.

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