
A crise climática já não pode ser tratada como um problema distante. Seus efeitos aparecem nas ondas de calor, nas chuvas intensas, nas enchentes, nas secas prolongadas e em outros eventos extremos que passaram a fazer parte da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, esses impactos não são sentidos, interpretados nem percebidos da mesma forma por todos. Observar quem se preocupa mais, quem sente mais os efeitos da crise e quem transforma essa preocupação em prática também é uma forma de entender as desigualdades que atravessam a questão ambiental.
No Sul de Minas, os dados de uma pesquisa realizada pelo grupo Oikos – Desenvolvimento, Sustentabilidade e Políticas Públicas, da UNIFAL-MG, mostram um detalhe que chama atenção: as mulheres aparecem mais preocupadas com o meio ambiente do que os homens e também percebem com mais força os impactos concretos da crise climática no cotidiano.
O survey foi realizado entre agosto e novembro de 2025 nos municípios de Varginha e Poços de Caldas, com margem de erro de 4,9% e nível de confiança de 95%. No conjunto da amostra, 81,0% das mulheres disseram estar preocupadas com o meio ambiente, contra 77,1% dos homens. Quando a pergunta passa do tema em geral para os efeitos diretos da crise climática, a diferença cresce: 89,2% das mulheres afirmaram que o aquecimento global pode prejudicar muito a si mesmas e às suas famílias, enquanto entre os homens esse percentual foi de 79,3%.
O mais interessante é que essa diferença não aparece da mesma forma em todos os lugares. Em Poços de Caldas, ela surge já na preocupação ambiental geral: 84,0% das mulheres se disseram preocupadas com o tema, contra 75,4% dos homens. Em Varginha, por outro lado, homens e mulheres aparecem praticamente no mesmo nível quando o assunto é preocupação ambiental ampla. A distância reaparece com mais força quando a pergunta trata dos impactos concretos da crise climática: em Varginha, 86,4% das mulheres disseram que o aquecimento global pode prejudicar muito a si mesmas e às suas famílias, contra 79,4% dos homens.
A percepção sobre eventos extremos reforça esse quadro. No conjunto da pesquisa, as mulheres também relataram maior afetação por esses eventos. Isso ajuda a pensar na crise climática não apenas como um problema ambiental no sentido abstrato, mas como algo que atravessa o bairro, a casa, a rotina e a vida familiar. Em outras palavras, os dados sugerem que a crise é percebida de forma mais próxima e mais concreta entre as mulheres.
Essa diferença também não fica só no campo da opinião, as mulheres aparecem mais presentes em práticas do dia a dia, como reciclagem, escolhas de consumo mais cuidadosas e circulação de informações ambientais. Isso indica que a preocupação ambiental tende a se transformar mais facilmente em atitudes cotidianas, especialmente na esfera privada, onde entram decisões sobre consumo, descarte, cuidado com a casa e proteção do entorno.
Mas é importante entender que esses resultados não significam que exista uma ligação “natural” entre mulher e cuidado ambiental. O que eles apontam é algo mais complexo: em muitos contextos, as mulheres ainda seguem mais diretamente envolvidas com a administração da vida cotidiana, do consumo doméstico, da proteção da família e do ambiente comunitário. Nesse sentido, a maior sensibilidade à crise climática pode estar ligada também à forma desigual como o cuidado continua sendo distribuído na sociedade.
Assim, mais do que mostrar números, os dados produzidos pelo grupo Oikos ajudam a perceber que a crise climática não é vivida de maneira uniforme. Ela atravessa a vida cotidiana de forma desigual e revela que falar de meio ambiente também é falar de desigualdade, território, trabalho do cuidado e formas distintas de sentir o peso da crise no presente. Talvez a pergunta mais interessante, então, não seja apenas quem se preocupa mais com o clima, mas quem sente primeiro seus efeitos e por quê.

Graziella Herman é estudante do curso de Ciências Sociais UNIFAL-MG e integrante do grupo de pesquisa Oikos – Desenvolvimento, Sustentabilidade e Políticas Públicas. Sua trajetória acadêmica envolve participação em pesquisa, extensão e atividades formativas voltadas para temas como gênero, meio ambiente, desigualdades sociais e percepção da crise climática no contexto do Sul de Minas Gerais.
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