Literatura indígena: conhecendo duas obras significativas da etnia dos Kiriri, localizada na região do Sul de Minas

Atualizado em 22/04/2026 11:38

“O verdadeiro sábio é aquele que escuta calado” (Pagé Ajuanã)

A literatura também é produzida por autores dos povos originários entre cujos assuntos ou temas abordam-se questões que envolvem a ancestralidade, a valorização da identidade, a memória e a luta pela terra. Assim, a literatura indígena se caracteriza por transformar a tradição oral em escrita, dando a conhecer cosmovisões, tradições, mitos e a relação do indígena com a natureza. Foi neste contexto que surgiu o interesse por dar a conhecer as narrativas da comunidade indígena dos Kiriri através de duas de suas publicações que serão abordadas aqui: o “Livro dos Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré”, lançado em 2021, e a obra “Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré”, lançada, recentemente, em abril de 2026, ambos livros publicados pela Uka, um selo editorial e produção cultural especializado na temática indígena no Brasil.

Significativo apontar que Kiriri corresponde ao nome étnico deste povo que, na etimologia tupi, significa “povo calado”, “povo do silêncio”; os termos incorporados pela aldeia “Ibirimã” e “Acré”, significam, respectivamente, “terra da fartura” e “Rio Verde”. Por meio de seus registros, seus livros, suas presenças múltiplas, este povo rompe o silêncio milenar e vem afirmar sua voz na região do Sul de Minas, para consolidar a ancestralidade originária de todos nós brasileiros e eternizar a fartura, a abastança, de sua cultura, sua história, sua identidade.

Cabe destacar que a presença indígena em territórios do Sul de Minas Gerais não é devidamente registrada, em razão das múltiplas faces de extermínio e apagamento da identidade e memória dos povos originários que por aqui viveram. Entretanto, desde o início deste século, o território sul mineiro passou a conviver com a presença de duas etnias indígenas que aqui se estabeleceram: os Xucuru-Kariri, chegados nos anos 2000, originários de Alagoas; e os Kiriri, vindos da Bahia, em 2017. Cada qual com suas raízes e histórias, mas em circunstâncias semelhantes – a busca por território e sobrevivência coletiva – se estabeleceram em áreas até então devolutas, que com muita luta, acabaram por ser regulamentadas para fixação de suas aldeias.

Localização da Aldeia Kiriri do Acré, Rio Verde, Caldas. (Foto: Arquivo/Gérson Pereira Filho)

Estas comunidades têm procurado registrar por diferentes meios toda sua história de resistência, afirmação, resgate identitário, para assegurar sua legitimidade e autenticidade, numa região até então estranha; assim como, de certo modo, recebidos com estranhamento pela população regional, ora acolhedora, ora hostil, a esta convivência inusitada. Mas é principalmente com a preocupação de educar e transmitir sua milenar história originária às novas gerações – grande parte das crianças e jovens destas aldeias  nasceram e crescem nestes territórios sul-mineiros – que as gerações adultas, lideranças e educadores nativos tem procurado manter vivas suas culturas, ensinamentos e registros em livros, documentários, audiovisuais que possam contribuir para tal permanência, vivência e convivência, inclusive como campo de estudos, pesquisas e projetos acadêmicos.

Imagem da capa da obra Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré – Volume I – 2021. (Foto: Arquivo/Gérson Pereira Filho)

O primeiro volume da série, intitulado “Livro dos Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré”, foi lançado pela Editora Uka em 2021, sob a organização das educadoras e lideranças indígenas Carliusa Francisca Ramos, Roseni Ramos Pankaru e a pesquisadora da UNICAMP Alik Wunder, e apoio editorial de várias instituições, inclusive da PROEC – Pró Reitoria de Extensão e Cultura da UNIFAL-MG. Neste primeiro volume há oito capítulos que narram sobre a história, espiritualidade, ritos, território, ambiente, artes, tradições, linguagem, sobrevivência deste povo, desde suas raízes originárias ao estado de vida atual na região de Rio Verde em Caldas-MG.

Posteriormente, neste contexto que a comunidade Kiriri do Acré editou mais um livro, com o intuito de afirmação e preservação identitária, territorial e cultural, intitulado “Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré” (2026), com o subtítulo transliterado para a língua originária Marã Cadoró Sará Muneté Mbya Arãndú Kiriri do Acré. Trata-se de uma produção disponível no formato de livro impresso ou audiolivro, destinado ao leitor interessado na temática indígena, assim como aos estudantes indígenas da escola situada na aldeia e seu currículo diferenciado, que mescla as disciplinas regulares convencionais com aquelas específicas às suas tradições, “Escola Indígena Ibiramã Kiriri do Acré”, no município de Caldas-MG, na área rural que margeia o Rio Verde, daí também serem conhecidos como “Kiriri do Rio Verde”.

(Fotos: Arquivo/Gérson Pereira Filho)

Na verdade, o livro foi lançado oficialmente nos “festejos dos povos indígenas” realizados na aldeia em abril de 2026, sendo o segundo volume de uma produção coletiva, narrada e escrita a muitas mãos e vozes, que envolve educadores, estudantes, lideranças e membros da própria aldeia, com apoios institucionais acadêmicos e de incentivo cultural; neste caso, especificamente, de programas de extensão e educação da UNICAMP, Lei Aldir Blanc, Secretaria Estadual de Cultura, CNPq, e equipe de voluntários na edição textual, técnica, artística. A organização editorial foi da responsabilidade de Agenilton Ramos Santos, o “Pagé Ajuanã”, e os pesquisadores da UNICAMP: Rafael Caetano do Nascimento, Alik Wunder, dentre outros.

(Foto: Arquivo/Gérson Pereira Filho)

Este segundo volume, ora lançado, está distribuído em seis capítulos, subdivididos em tópicos, cuja temática gira em torno das crenças e expressões simbólicas e de vida, a partir dos ritos de cantos, curas, danças e práticas diversas vivenciadas e transmitidas na comunidade. Nos dois primeiros capítulos, denominados “Chamamentos”, o pagé Ajuanã relata a tradição da pajelança e seus fundamentos entre os Kiriri, assim como a narrativa de sua própria trajetória pessoal, a partir da ancestralidade, para hoje ocupar tal missão na aldeia.

(Foto: Arquivo/Gérson Pereira Filho)

O terceiro capítulo “Saberes de Cantos – Toantes”, é dedicado à descrição e interpretação dos profundos significados simbólicos de alguns dos principais cantos entoados e dançados nos ritos diversos. O quarto capítulo – “Saberes das Águas, Saberes de Rios” apresenta a relação mística e identitária com os territórios e ambientes da comunidade, suas origens na Bahia, às margens do Rio São Francisco, e os tempos atuais, às margens do Rio Verde. O quinto capítulo é dedicado aos “Saberes da Jurema”, planta e fruto sagrado para esta tradição, suas potencialidades, cuidados, representações, eixo central na espiritualidade e saúde física e da alma. O sexto e último capítulo recolhe depoimentos e experiências de vida, sobretudo de “curas”, pelo relato de personagens da aldeia, com destaque para a anciã, Dona Alzira, que também está sendo homenageada em um outro livro, lançado simultaneamente, “Mulher Guerreira e Vencedora – Alzira Pankaru” (UKA, 2026).

Título: Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré (Volume I – 2021)
Autores: Carliusa Francisca Ramos, Roseni Ramos Pankaru e Alik Wunder (Orgs.)
Gênero: Narrativa indígena mítico-histórica; prosa literária
Selo: UKA EDITORIAL (Lorena -SP). Especializada em literatura indígena
Ano da edição: 2021
Páginas: 112
Edição impressa: Disponível em breve em livrarias especializadas em literatura indígena: https://www.livrariamaraca.com.br/
Instagram: @kiriri_de_caldas | @editora Uka
Disponível em audiolivro: You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=QrdqcNFp4GQ

Título: Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré (Volume II – 2026)
(subtítulo transliterado para a língua originária: Marã Cadoró Sará Muneté Mbya Arãndú Kiriri do Acré)
Autores: Agenilton Ramos Santos (Pagé Ajuanã), Rafael Caetano do Nascimento, Alik Wunder, (Orgs.)
Gênero: Narrativa indígena mítico-histórica; prosa literária.
Selo: UKA EDITORIAL (Lorena -SP). Especializada em literatura indígena.
Edição impressa: Disponível em breve em livrarias especializadas em literatura indígena: https://www.livrariamaraca.com.br/
Instagram: @kiriri_de_caldas | @editora Uka
Ano da edição: 2021 e 2026.
Páginas: 110
Disponível em audiolivro: You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=QrdqcNFp4GQ          

Gérson Pereira Filho é professor visitante extensionista na UNIFAL-MG. Possui graduação em Filosofia e História, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia pela Unicamp. Dentre outras ações, desenvolve projeto de extensão junto à comunidade indígena Kiriri do Acré, às margens do Rio Verde, área rural de Caldas-MG.

* Esta resenha foi selecionada em chamada para publicação nesta coluna ‘Literatura pelas Bordas’ durante o Abril Indígena. O texto passou pela supervisão da curadoria, presidida pelo professor Ítalo Oscar Riccardi León, do curso de Letras, coordenador da coluna literária e integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o NEABI.

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