“O verdadeiro sábio é aquele que escuta calado” (Pagé Ajuanã)
A literatura também é produzida por autores dos povos originários entre cujos assuntos ou temas abordam-se questões que envolvem a ancestralidade, a valorização da identidade, a memória e a luta pela terra. Assim, a literatura indígena se caracteriza por transformar a tradição oral em escrita, dando a conhecer cosmovisões, tradições, mitos e a relação do indígena com a natureza. Foi neste contexto que surgiu o interesse por dar a conhecer as narrativas da comunidade indígena dos Kiriri através de duas de suas publicações que serão abordadas aqui: o “Livro dos Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré”, lançado em 2021, e a obra “Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré”, lançada, recentemente, em abril de 2026, ambos livros publicados pela Uka, um selo editorial e produção cultural especializado na temática indígena no Brasil.
Significativo apontar que Kiriri corresponde ao nome étnico deste povo que, na etimologia tupi, significa “povo calado”, “povo do silêncio”; os termos incorporados pela aldeia “Ibirimã” e “Acré”, significam, respectivamente, “terra da fartura” e “Rio Verde”. Por meio de seus registros, seus livros, suas presenças múltiplas, este povo rompe o silêncio milenar e vem afirmar sua voz na região do Sul de Minas, para consolidar a ancestralidade originária de todos nós brasileiros e eternizar a fartura, a abastança, de sua cultura, sua história, sua identidade.
Cabe destacar que a presença indígena em territórios do Sul de Minas Gerais não é devidamente registrada, em razão das múltiplas faces de extermínio e apagamento da identidade e memória dos povos originários que por aqui viveram. Entretanto, desde o início deste século, o território sul mineiro passou a conviver com a presença de duas etnias indígenas que aqui se estabeleceram: os Xucuru-Kariri, chegados nos anos 2000, originários de Alagoas; e os Kiriri, vindos da Bahia, em 2017. Cada qual com suas raízes e histórias, mas em circunstâncias semelhantes – a busca por território e sobrevivência coletiva – se estabeleceram em áreas até então devolutas, que com muita luta, acabaram por ser regulamentadas para fixação de suas aldeias.

Estas comunidades têm procurado registrar por diferentes meios toda sua história de resistência, afirmação, resgate identitário, para assegurar sua legitimidade e autenticidade, numa região até então estranha; assim como, de certo modo, recebidos com estranhamento pela população regional, ora acolhedora, ora hostil, a esta convivência inusitada. Mas é principalmente com a preocupação de educar e transmitir sua milenar história originária às novas gerações – grande parte das crianças e jovens destas aldeias nasceram e crescem nestes territórios sul-mineiros – que as gerações adultas, lideranças e educadores nativos tem procurado manter vivas suas culturas, ensinamentos e registros em livros, documentários, audiovisuais que possam contribuir para tal permanência, vivência e convivência, inclusive como campo de estudos, pesquisas e projetos acadêmicos.

O primeiro volume da série, intitulado “Livro dos Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré”, foi lançado pela Editora Uka em 2021, sob a organização das educadoras e lideranças indígenas Carliusa Francisca Ramos, Roseni Ramos Pankaru e a pesquisadora da UNICAMP Alik Wunder, e apoio editorial de várias instituições, inclusive da PROEC – Pró Reitoria de Extensão e Cultura da UNIFAL-MG. Neste primeiro volume há oito capítulos que narram sobre a história, espiritualidade, ritos, território, ambiente, artes, tradições, linguagem, sobrevivência deste povo, desde suas raízes originárias ao estado de vida atual na região de Rio Verde em Caldas-MG.
Posteriormente, neste contexto que a comunidade Kiriri do Acré editou mais um livro, com o intuito de afirmação e preservação identitária, territorial e cultural, intitulado “Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré” (2026), com o subtítulo transliterado para a língua originária Marã Cadoró Sará Muneté Mbya Arãndú Kiriri do Acré. Trata-se de uma produção disponível no formato de livro impresso ou audiolivro, destinado ao leitor interessado na temática indígena, assim como aos estudantes indígenas da escola situada na aldeia e seu currículo diferenciado, que mescla as disciplinas regulares convencionais com aquelas específicas às suas tradições, “Escola Indígena Ibiramã Kiriri do Acré”, no município de Caldas-MG, na área rural que margeia o Rio Verde, daí também serem conhecidos como “Kiriri do Rio Verde”.
(Fotos: Arquivo/Gérson Pereira Filho)
Na verdade, o livro foi lançado oficialmente nos “festejos dos povos indígenas” realizados na aldeia em abril de 2026, sendo o segundo volume de uma produção coletiva, narrada e escrita a muitas mãos e vozes, que envolve educadores, estudantes, lideranças e membros da própria aldeia, com apoios institucionais acadêmicos e de incentivo cultural; neste caso, especificamente, de programas de extensão e educação da UNICAMP, Lei Aldir Blanc, Secretaria Estadual de Cultura, CNPq, e equipe de voluntários na edição textual, técnica, artística. A organização editorial foi da responsabilidade de Agenilton Ramos Santos, o “Pagé Ajuanã”, e os pesquisadores da UNICAMP: Rafael Caetano do Nascimento, Alik Wunder, dentre outros.

Este segundo volume, ora lançado, está distribuído em seis capítulos, subdivididos em tópicos, cuja temática gira em torno das crenças e expressões simbólicas e de vida, a partir dos ritos de cantos, curas, danças e práticas diversas vivenciadas e transmitidas na comunidade. Nos dois primeiros capítulos, denominados “Chamamentos”, o pagé Ajuanã relata a tradição da pajelança e seus fundamentos entre os Kiriri, assim como a narrativa de sua própria trajetória pessoal, a partir da ancestralidade, para hoje ocupar tal missão na aldeia.

O terceiro capítulo “Saberes de Cantos – Toantes”, é dedicado à descrição e interpretação dos profundos significados simbólicos de alguns dos principais cantos entoados e dançados nos ritos diversos. O quarto capítulo – “Saberes das Águas, Saberes de Rios” apresenta a relação mística e identitária com os territórios e ambientes da comunidade, suas origens na Bahia, às margens do Rio São Francisco, e os tempos atuais, às margens do Rio Verde. O quinto capítulo é dedicado aos “Saberes da Jurema”, planta e fruto sagrado para esta tradição, suas potencialidades, cuidados, representações, eixo central na espiritualidade e saúde física e da alma. O sexto e último capítulo recolhe depoimentos e experiências de vida, sobretudo de “curas”, pelo relato de personagens da aldeia, com destaque para a anciã, Dona Alzira, que também está sendo homenageada em um outro livro, lançado simultaneamente, “Mulher Guerreira e Vencedora – Alzira Pankaru” (UKA, 2026).

Título: Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Acré (Volume I – 2021)
Autores: Carliusa Francisca Ramos, Roseni Ramos Pankaru e Alik Wunder (Orgs.)
Gênero: Narrativa indígena mítico-histórica; prosa literária
Selo: UKA EDITORIAL (Lorena -SP). Especializada em literatura indígena
Ano da edição: 2021
Páginas: 112
Edição impressa: Disponível em breve em livrarias especializadas em literatura indígena: https://www.livrariamaraca.com.br/
Instagram: @kiriri_de_caldas | @editora Uka
Disponível em audiolivro: You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=QrdqcNFp4GQ

Título: Cantos e Encantos de Cura e de Conhecimentos Kiriri do Acré (Volume II – 2026)
(subtítulo transliterado para a língua originária: Marã Cadoró Sará Muneté Mbya Arãndú Kiriri do Acré)
Autores: Agenilton Ramos Santos (Pagé Ajuanã), Rafael Caetano do Nascimento, Alik Wunder, (Orgs.)
Gênero: Narrativa indígena mítico-histórica; prosa literária.
Selo: UKA EDITORIAL (Lorena -SP). Especializada em literatura indígena.
Edição impressa: Disponível em breve em livrarias especializadas em literatura indígena: https://www.livrariamaraca.com.br/
Instagram: @kiriri_de_caldas | @editora Uka
Ano da edição: 2021 e 2026.
Páginas: 110
Disponível em audiolivro: You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=QrdqcNFp4GQ

Gérson Pereira Filho é professor visitante extensionista na UNIFAL-MG. Possui graduação em Filosofia e História, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia pela Unicamp. Dentre outras ações, desenvolve projeto de extensão junto à comunidade indígena Kiriri do Acré, às margens do Rio Verde, área rural de Caldas-MG.
* Esta resenha foi selecionada em chamada para publicação nesta coluna ‘Literatura pelas Bordas’ durante o Abril Indígena. O texto passou pela supervisão da curadoria, presidida pelo professor Ítalo Oscar Riccardi León, do curso de Letras, coordenador da coluna literária e integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o NEABI.
















