A riqueza das nações e a desigualdade social

Atualizado em 14/05/2026 13:28

Caricatura de Adam Smith ao lado de trabalhadores carregando o peso da riqueza produzida. (Ilustração criada com auxílio de inteligência artificial)

A obra clássica da economia política Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, escrita pelo filósofo escocês Adam Smith, completou, em março de 2026, 250 anos desde sua primeira edição. Ocorreram homenagens e celebrações em todo o mundo. Tanto na academia quanto na esfera política foram destacados os erros e acertos de suas ideias originais sobre a dinâmica econômica que conduz à riqueza das nações. Para muitos, o “sucesso do capitalismo” nesses 250 anos seria prova definitiva da validade teórica de Adam Smith.

Contudo, especialmente nos círculos políticos conservadores em que o filósofo moral, como gostava de se autodescrever Adam Smith, é apresentado como símbolo do livre mercado, um aspecto incômodo para os neoliberais costuma permanecer oculto.

Trata-se de sua reflexão sobre a remuneração dos trabalhadores, apresentada no capítulo VIII do Livro I, no qual o professor da Universidade de Glasgow sintetiza sua visão sobre o que é a economia política:

Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis [grifo nosso]. Além disso, manda a justiça que aqueles que alimentam, vestem e dão alojamento ao corpo inteiro da nação tenham uma participação tal na produção de seu próprio trabalho que eles mesmos possam ter mais do que alimentação, roupa e moradia apenas sofrível. (Smith, [1776] 1988, p. 72)

Barack Obama, então presidente dos EUA, em 2013, referiu-se a essa passagem para explicar que “[…] para aqueles que não falam inglês arcaico… deixe-me traduzir. Significa que, se você trabalhar duro, deve ter uma vida decente. Se você trabalhar duro, deve ser capaz de sustentar a família.”

O capítulo VIII do Livro I da Riqueza das Nações é totalmente dedicado à análise da evolução histórica e distribuição dos salários como “recompensa natural do trabalho”. Descreve os efeitos da remuneração dos trabalhadores sobre a saúde e o crescimento da população. Explica como os salários se relacionam diretamente com o desenvolvimento e a riqueza de uma nação e deixa claro que a massa salarial precisa tornar-se uma proporção relevante na Riqueza das Nações para que essas se desenvolvam, pois, “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis”. Se bem interpretada a mensagem do pai do liberalismo econômico, a grande fonte da Riqueza das Nações são seus trabalhadores e trabalhadoras. Assim, quanto mais desenvolvida é uma nação e quanto mais riqueza produzem seus trabalhadores, melhores deveriam ser seus salários. A verdade incômoda para os neoliberais é que a renovação que propõem ao liberalismo clássico representa, na prática, um passo atrás no desenvolvimento e na riqueza das nações. Seu programa de reformas é, em essência, antiliberal, no sentido clássico formulado por Adam Smith. O neoliberalismo aposta apenas no acúmulo indefinido de riqueza na mão de uma única classe social: a dos proprietários dos meios de produção. Ocorre, como bem descreve o fundador da teoria do livre mercado, que manter os trabalhadores em condições sofríveis leva ao empobrecimento geral da nação com efeitos sobre a riqueza e a propriedade de todos, inclusive dos mais ricos.

O pai do liberalismo econômico jamais acreditou ou defendeu que uma nação pudesse se desenvolver à custa da miséria, da fome e da exclusão da maioria de sua população. Para Adam Smith, a economia política tem como objetivo o bem-estar da população, permitindo-lhe conquistar, passo a passo, mais conforto e dignidade. Essa é, inclusive, uma das razões centrais do encantamento exercido por sua teoria econômica: “Se você trabalhar duro, deve ser capaz de sustentar a família”.

Essa é também uma questão decisiva na leitura de A Riqueza das Nações. O filósofo e economista escocês explica, de diferentes maneiras, que é impossível prosperar sem trabalhadores saudáveis, bem instruídos e capazes de consumir, produzir e inovar. Para Smith, o desenvolvimento das nações não brota de uma terra infértil; ele exige instituições bem administradas, confiança social no progresso e condições materiais básicas para toda a população. Dito de modo direto: exige que todos que participam do esforço de acumular riqueza se beneficiem dela.

É nesse aspecto que a situação atual do capitalismo dos países ricos e em desenvolvimento desmascara o neoliberalismo como teoria econômica e modo de vida autêntico. Onde reformas neoliberais foram implementadas prometendo corrigir as distorções do liberalismo primitivo o que se verificou, na prática, foi o aumento da concentração de renda, a precarização do trabalho e a expansão da fome e da miséria. A fragilização e, em alguns casos, a extinção da seguridade social lançou milhões de trabalhadores no desespero e na angústia diante do futuro. As políticas neoliberais resultaram em sociedades mais desiguais, mais inseguras e impotentes para gerar oportunidades reais de novos negócios capazes de impulsionar o desenvolvimento. Trabalhadores e trabalhadoras, como regra geral, perderam direitos históricos já conquistados.

Certamente, o economista que descreveu as leis de mercado como uma “mão invisível”, capaz de conduzir os interesses privados à realização do bem comum, não apoiaria um modelo de desenvolvimento que naturaliza a pobreza extrema e aceita que milhões sejam excluídos do progresso como preço para o enriquecimento de uma minoria. Quando os neoliberais invocam a autoridade de Smith para defender a redução do Estado e a liberdade de mercado, fazem uma apropriação seletiva e distorcida de sua obra.

Embora o professor da Universidade de Glasgow tenha sido um fervoroso defensor do livre mercado, jamais sustentou que o mercado fosse a solução para todos os males sociais. Se desejamos fazer justiça ao legado do fundador do liberalismo, precisamos, com ele, imaginar e implementar uma ordem social em que a riqueza gerada pelo trabalho de todos seja repartida de forma mais proporcional e justa, garantindo seguridade social e dignidade para todos.

Para entender o contexto leia também:

VENTURA, Dalia. ‘A Riqueza das Nações’: como livro escrito há 250 anos ainda influencia nossas vidas. BBC News Brasil, 16 de abril de 2026. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cew7d0gr50wo

OBAMA, Barack. Remarks by the President on Economic Mobility. White House, 04 dez. 2013. Disponível em https://obamawhitehouse.archives.gov/the-press-office/2013/12/04/remarks-president-economic-mobility

SMITH, Adam. Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. [os economistas].3ed.; Trad.: Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

Francisco Xarão é professor associado de Filosofia do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Doutor em Filosofia. É líder do grupo de pesquisa Filosofia, História e Teoria Social. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Política, Ética e Filosofia da Ciência. Atua principalmente nos seguintes temas: política, educação, direitos humanos e metodologia das ciências. Temas de interesse: Democracia; Fake News, reformas educacionais, filosofia

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