Não é apenas um livro: Sob a indissociabilidade do ensino-pesquisa-extensão, Geni resiste!

Atualizado em 29/04/2026 14:20

No último domingo à tarde, enquanto saboreava uma xícara de café, despretensiosamente, comecei a folhear O Livro Invisível: estudos de gênero, organizado por Fernanda Onuma, Aline Oliveira e Cilene Pereira. Não era minha pretensão ler com acuidade naquele momento, apenas reconhecer a tarefa que lisonjeiramente assumi no dia em que o recebi das mãos das organizadoras: comentá-lo.

(Imagem: Divulgação)

Porém, o que estava ainda para mim invisível, logo se apresentou em sua crueza e não consegui parar a leitura enquanto não o desfrutei por completo já sem o acompanhamento do café. O que era para ser aperitivo, tornou-se refeição completa.

Mérito de cada uma das autoras que colaboraram com o livro, mas não somente, pois no final da leitura eu tive a certeza: O Livro Invisível não é, de modo algum, apenas um livro acadêmico, ainda que o seja na melhor das concepções que se pode atribuir ao termo.

Fernanda, Aline, Cilene e todas as autoras nos revelam em suas escritas científicas, que o livro é, antes de tudo, denúncia, crítica, história de resistências e ação. E não me refiro  somente aos fenômenos concretos tratados nas análises das autoras, mas às próprias práticas de resistência de cada uma delas que se constituem junto às ações de organização e de luta das mulheres com as quais elas estudam e produzem o conhecimento pela não intolerância.

Elas denunciam, em números, a situação de pauperização das mulheres, as práticas de violências tanto as cometidas pelas pessoas próximas quanto as levadas a cabo pelo Estado. Elas denunciam a sobrecarga de ser mulher, mãe e arrimo de família. As denúncias trazidas por elas, com rigor científico, tiram da invisibilidade o sofrimento de mulheres cis e trans. Cabe, antes de dar sequência, frisar que a invisibilidade da qual elas falam, não emana dos fatos analisados, mas da cegueira de uma sociedade que vê, mas não olha e muito menos enxerga.

Elas enxergaram! E por isso, o texto é uma crítica a nossa sociedade, e, especialmente, a nossa academia, mais especificamente, ao campo dos Estudos Organizacionais. As críticas estão assentadas na intenção de ser um conhecimento que se expressa no que chamamos de feminismo marxista, ou seja, que trata as questões de gênero como questão de classe e não como um fator a ser ou não relacionado com a classe segundo o desejo subjetivo da cientista insatisfeita, mas resignada, com uma suposta incompletude cognitiva.

Integrantes do grupo de pesquisa GENI. (Foto: Arquivo/Fernanda Onuma)

Nessa busca por assentar a leitura da realidade no marxismo conforme a realidade do século XXI em países cujo capitalismo é um modo de produção resultante de um processo de implantação violenta e não de um processo gestado; as organizadoras abriram possibilidade para discutir colonialidade, interseccionalidade e outros conceitos que transitoriamente estão povoando os gabinetes de cientistas do campo de estudos organizacionais. Belas provocações, as quais não cabem aqui desenvolver respostas; mas que com certeza estreitou as possibilidades de laços entre os grupos de pesquisa Geni e TraMa. Laços que nada mais são do que uma expressão da solidariedade de classe na academia, visando potencializar ainda mais um conhecimento que seja com, para e a partir da classe trabalhadora. Prática que o grupo Geni realiza muito antes de ser o Grupo de Pesquisa (contém ironia). Sim, e nisso reside o que há de mais belo em ser um grupo de pesquisa marxista: ser prática, não formalidade.

O Livro Invisível: estudo de gênero congrega trabalhos desenvolvidos nos últimos dez anos e, por isso, inclusive, é um livro comemorativo. Ele foi feito para celebrar dez anos de um grupo que tem – aos olhos dos acadêmicos “capesianos” ou “cenpquistas”, nomeiem como quiserem – apenas um ano.

Geni, é, em si, história de resistências e ação, O Livro Invisível, seu testemunho.

Da esquerda para direita: Aline Lourenço (UNIFAL-MG), Deise Ferraz (UFMG) e Fernanda Onuma (UNIFAL-MG). (Foto: Arquivo/Fernanda Onuma)

O que consolida o grupo são, antes de qualquer coisa, suas ações pautadas pela indissociabilidade da pesquisa, ensino e extensão, não a formalidade do registro no CNPq. No contexto atual da academia, isso já é uma forma de resistência, que se soma à famosa indissociabilidade. Mas não se trata de qualquer indissociabilidade, se trata de estar com, por meio deste tripé. Estar com as mulheres cis e trans, estar com as mulheres da classe trabalhadora.

Mulheres que trabalham fora da universidade e na universidade, pois somos docentes, técnicas e estudantes e constituímos também a diversidade da nossa classe. Diversidade que, aos olhos do capital, só determina as que são preferíveis a receber o cuspe, a pedra ou a bosta. Diversidade que, para a classe trabalhadora é unidade que potencializa resistências. Nessa unidade do diverso, é um desafio construir um conhecimento de forma compartilhada, mas as mulheres e homens – cis e trans – que compõem o Geni não se furtaram e o assumiram, tendo com objetivo resistir para avançar rumo à produção de uma sociedade em que Genis não existam mais e pedras sejam apenas para se jogar em lagos, feito brincadeira de criança (que também não serão mais violentadas). Eis porque, não pude apenas degustar O Livro Invisível, mas devorá-lo com a ânsia de quem almeja viver em uma sociedade em que sejamos realmente livres.

Natal, 18 de outubro de 2024

Título: O Livro Invisível: estudos de gênero
Organização: Fernanda Mitsue Soares Onuma, Aline Lourenço de Oliveira e Cilene Margarete Pereira
Gênero: Sociedade e Cultura | Ciências Sociais
Ano da edição: 2024
Páginas: 373
Editora: Cajuína
Onde encontrar: site da Editora Cajuína e em lojas online

Deise Luiza Ferraz é professora do Departamento de Ciências Administrativas e do Centro de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Cepead) da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Doutora, mestra e bacharela em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS), trabalha com as seguintes áreas científicas: Estudos Críticos em Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho, Subjetividade Coletiva dos Trabalhadores, Gestão e Controle do Processo de Trabalho, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas. Currículo lattes

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