
No mês de maio de 2026, comemoramos o centenário de nascimento de Milton Santos, grande pensador brasileiro, geógrafo de formação, e provocador de uma verdadeira reviravolta no pensamento sobre o espaço geográfico. Sua produção permanece mais atual do que nunca e influencia profundamente a concepção de políticas públicas de saúde baseadas na análise do território dos municípios.
Para Milton Santos, o território é composto de objetos e ações.[1] Quando objetos e ações se articulam, forma-se uma rede viva. Quando se dissociam, o território permanece rico em potencial e pobre em prática.
Desenvolvendo uma pesquisa-ação em escolas públicas de Alfenas,[2] temos percebido como pode ser valioso retomar os preceitos teóricos básicos de Milton Santos para pensar a saúde pública do município, sua intersetorialidade com a educação e a atuação de enfermeiros e enfermeiras como protagonistas.
A intersetorialidade na gestão pública refere-se à união de diferentes setores, como a Educação e a Saúde, por exemplo, para resolver problemas complexos de forma mais eficaz. Por isso, a parceria entre a escola e a Atenção Primária à Saúde, representada no nosso estudo pelas unidades de Estratégia de Saúde da Família (ESFs), é uma articulação poderosa para proteção de jovens e para a construção e disseminação de hábitos de vida saudável capaz de impactar positivamente os indicadores de saúde de um município.
O Programa Saúde na Escola (PSE), instituído em 2007 no âmbito dos Ministérios da Educação e da Saúde, com finalidade de contribuir para a formação integral dos estudantes da rede pública de educação básica por meio de ações de prevenção, promoção e atenção à saúde, busca induzir ações intersetoriais entre saúde e educação.[3] A parceria entre as equipes de saúde da família e da educação básica permite, dentre outros desdobramentos, o aumento da cobertura vacinal, a redução da gravidez na adolescência e a melhoria da saúde bucal e mental de adolescentes.
Na fase de diagnóstico do nosso estudo, articulamos territorialização georreferenciada, entrevistas semiestruturadas com gestores e profissionais das escolas públicas e análise documental. O referencial teórico para análise dos achados está fundamentado no pensamento de Milton Santos e, dentre outras coisas, estamos analisando associações entre a densidade de equipamentos de saúde, cultura e educação no território e parcerias intersetoriais efetivas.
Nas áreas mapeadas ao redor das escolas do município encontramos dispositivos de saúde, culturais e esportivos relevantes. Por meio de entrevistas e análise de documentos, constatamos a quase ausência de ações sistemáticas de parceria entre as equipes das escolas e de saúde da família. Além disso, o cruzamento do mapeamento do território escolar com a delimitação da área de abrangência territorial das ESFs disponibilizada pela prefeitura em documentos públicos, demonstrou que algumas escolas não estão localizadas nas áreas de cobertura das unidades.
O resultado é que a equipe de saúde da família da ESF mais próxima da escola frequentemente não se reconhece responsável pelo território escolar, comprometendo a intersetorialidade. Adicionalmente, as entrevistas revelam um desconhecimento mútuo entre os setores escolar e de saúde.
A partir da perspectiva de horizontalidades de Milton Santos, podemos dizer que há uma fragmentação territorial das ações de prevenção e promoção em saúde de adolescentes do município pela ausência dos laços horizontais que deveriam conectar quem vive, estuda e trabalha no mesmo espaço.
À primeira vista, tal constatação poderia ser compreendida apenas como uma questão administrativa relacionada à delimitação das áreas de cobertura da Atenção Primária à Saúde ou desafios relacionados à operacionalização do Programa Saúde na Escola. Entretanto, ao analisar os dados empíricos à luz da concepção de território proposta por Milton Santos, a situação revela contradições mais profundas sobre a organização dos serviços de saúde e sobre a própria produção do cuidado no território.
Para Santos, o território não se reduz a uma superfície delimitada por fronteiras institucionais. Trata-se do território usado, o que poderíamos chamar, em outras palavras, de um território vivo, constituído pela interação permanente entre objetos e ações. Os objetos correspondem às escolas, unidades de saúde, vias de circulação e demais infraestruturas presentes no espaço. As ações, por sua vez, referem-se às práticas e relações estabelecidas pelos sujeitos que usam esse espaço todos os dias.
A escola estar cercada por equipamentos sociais e de saúde permitiria que se constituísse o que estamos chamando de território vivo, em que esses dispositivos se tornam elementos fundamentais da rede de apoio à comunidade escolar. Contudo, a partir da análise dos nossos resultados, emerge uma contradição significativa: embora próximas fisicamente, as unidades de saúde e as escolas não se relacionam, perdendo a oportunidade de promover saúde entre os jovens estudantes e impactar de forma positiva, no médio e longo prazo, os indicadores de saúde do município.
Como compreender que uma escola pública, espaço estratégico para a promoção da saúde e para o desenvolvimento humano de adolescentes, não esteja inserida na área de abrangência de nenhuma equipe de saúde da família? Como pensar a integralidade do cuidado quando as delimitações administrativas parecem se sobrepor às necessidades concretas do território vivido? E, sobretudo, como promover a articulação entre saúde e educação em um contexto no qual os próprios arranjos institucionais parecem dificultar a construção dessa aproximação e as políticas públicas, como o Programa Saúde na Escola, mostram-se insuficientes?
Nossa pesquisa tem mostrado que a existência de objetos no território não garante, por si só, a produção de ações compartilhadas. A proximidade entre escola e unidade de saúde não assegura a construção de vínculos institucionais. Para que o território se constitua como territórios vivos, é necessário que os atores sociais reconheçam sua corresponsabilidade e se disponham a construir relações de cooperação.
Milton Santos nos lembra que territórios ganham vida quando dois tipos de laços se combinam:[4] os laços do cotidiano, construídos na convivência entre estudantes, professores, famílias e profissionais de saúde, e os laços institucionais, forjados por políticas públicas que reconhecem e formalizam essas conexões. Nossa pesquisa revela fragilidades em ambos.
Encontramos na figura do enfermeiro o potencial para superar essas fragilidades. O enfermeiro, por sua formação orientada tanto para o cuidado individual quanto para a promoção da saúde coletiva, reúne as competências técnicas e relacionais para atuar como elo entre a escola, a família e a rede de saúde. Atuando com seus conhecimentos e habilidades nas relações cotidianas, como parte do território escolar e, por que não, inserido como membro da equipe escolar, esse profissional pode promover o laço social necessário para efetivar a intersetorialidade que debatemos.
Milton Santos ao nos lembrar que o território não é apenas aquilo que está desenhado nos mapas institucionais, mas aquilo que ganha vida nas relações, nos usos, nas práticas e nas possibilidades de ação construídas coletivamente pelos sujeitos que o habitam, permite-nos a pensar na figura do enfermeiro como protagonista, como agente estratégico e como articulador intersetorial.
O que nossa pesquisa sugere pelos achados até agora, é que o enfermeiro deve estar cada vez mais presente na escola, e que uma política pública que integre esse profissional na equipe da educação básica, trabalhando dentro das escolas, é um caminho promissor para promovermos saúde com mais efetividade entre os adolescentes e melhorar indicadores de saúde no longo prazo.
Finalmente, reverenciamos Milton Santos pelo seu centenário de nascimento e esperamos honrar sua memória mantendo seu pensamento vivo por meio de conexões necessárias com o desenvolvimento científico da Enfermagem.
Referências
Brasil. (2007). Decreto n.º 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Institui o Programa Saúde na Escola – PSE e dá outras providências. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6286.htm
Santos, M. (2006). A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção (4. ed.). Edusp. (Original publicado em 1996).
Santos, M. (2003). Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal (10. ed.). Record. (Original publicado em 2000).
[1]Santos, M. (2006). A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção (4. ed.). Edusp. (Original publicado em 1996).
[2]Dados provenientes de pesquisa em andamento: Pesquisa-Ação: Atuação do Enfermeiro na Promoção da Saúde de Estudantes do Ensino Médio em Escolas Públicas de Alfenas – MG, Tese de Doutorado em desenvolvimento por Tatiana Corrêa da Silva, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Maria Regina Martinez, no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG). Os resultados apresentados são parciais e referem-se à fase de diagnóstico situacional.
[3]Brasil. (2007). Decreto n.º 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Institui o Programa Saúde na Escola – PSE. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6286.htm
[4]Santos, M. (2003). Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal (10. ed.). Record. (Original publicado em 2000).

Tatiana Corrêa da Silva é enfermeira, docente e pesquisadora com trajetória consolidada nas áreas de assistência, ensino e pesquisa em saúde. Doutoranda e mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), desenvolve pesquisas voltadas à promoção da saúde, territorialização, desenvolvimento humano e intersetorialidade entre os setores da saúde e da educação, com ênfase na inserção do enfermeiro no contexto escolar. É bolsista de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Graduada em Enfermagem pela Universidade José do Rosário Vellano (UNIFENAS) e especialista em Programa Saúde da Família pela UNIFAL-MG, possui ampla experiência na Atenção Primária à Saúde, tendo atuado como enfermeira responsável em equipes da Estratégia Saúde da Família nos municípios de Perdões e Alfenas, MG. Também exerceu a função de enfermeira responsável técnica nas Santas Casas de Misericórdia de Alfenas e Lavras- MG. Na área acadêmica, atuou como supervisora de estágio da UNIFENAS e docente da Unidade de Ensino Técnico (UNETEC), em Perdões-MG. Atualmente é docente da UNIFENAS, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão na formação de profissionais da área da saúde. Currículo Lattes.

Maria Regina Martinez é professora Titular da Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL/MG, vinculada aos cursos de Enfermagem e de Medicina, ministrando disciplinas voltadas para a área de Gestão de Pessoas e de Serviços de Saúde na Graduação e Pós-graduação. Realizou seu mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, tendo se graduado na mesma universidade, no curso de Enfermagem. Graduada, também, em Psicologia com Especialização em Psicodrama. Atualmente sua produção acadêmica está voltada para a área de Gestão de Pessoas e Serviços de Saúde, atuando no mestrado e doutorado acadêmicos de Enfermagem. Currículo Lattes.
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