O Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da UNIFAL-MG campus Poços de Caldas, recebeu uma cerimônia que misturou ciência, afeto e memória, na tarde de 10/04. Reunida no Prédio G, a comunidade acadêmica acompanhou o descerramento da placa que passa a nomear o Laboratório de Ciências das Engenharias “Prof. Dr. Fabiano Cabañas Navarro” — homenagem ao geólogo, professor e orientador que integrou o quadro docente do ICT por 15 anos e faleceu em janeiro deste ano, aos 49 anos de idade.

A iniciativa de nomear o espaço em memória do Prof. Fabiano partiu da Profa. Carolina Del Roveri, do curso de Engenharia de Minas, colega do homenageado desde os tempos de graduação na UNESP — Rio Claro, em 2001. “Tive a ideia de nomear o Laboratório em homenagem ao Fabiano porque ele passou muito tempo lá trabalhando, principalmente colocando em funcionamento a Câmara Climática, que é um equipamento pioneiro na avaliação de alterabilidade em rochas e materiais diversos”, relata. A solicitação tramitou junto às direções do campus Poços de Caldas e do ICT e foi formalmente aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) em sua 393ª reunião, realizada em 30 de janeiro de 2026.
O Laboratório de Ciências das Engenharias atende a aulas do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT) e dos cursos de segundo ciclo do campus Poços de Caldas. A escolha do espaço, segundo a Profa. Carolina, deve-se ao trabalho cotidiano que o Prof. Fabiano ali desenvolveu — particularmente na implantação e operação da Câmara Climática, equipamento que ampliou a capacidade de pesquisa do ICT em ensaios sobre durabilidade e comportamento de rochas e outros materiais.
Trajetória dedicada à geologia e à formação de engenheiros
Graduado em Geologia pela UNESP — Rio Claro em 1999, com mestrado e doutorado em Geologia Regional pela mesma instituição (este último concluído em 2006), Fabiano Cabañas Navarro atuou entre 2005 e 2010 no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), onde se especializou em tecnologia e mecânica de rochas. Ingressou na UNIFAL-MG em 2 de fevereiro de 2011, vinculado ao ICT, no campus Poços de Caldas, onde ministrava as disciplinas de Mineralogia, Petrologia e Rochas Ornamentais.

Sua atuação como pesquisador concentrou-se em mecânica e tecnologia de rochas, petrografia, análise de imagens, rochas ornamentais e prospecção e pesquisa mineral de minerais industriais — linhas de trabalho com forte aplicação ao contexto regional, como mostram, por exemplo, sua pesquisa sobre a caracterização tecnológica de nefelina sienitos da região de Poços de Caldas para uso na indústria cerâmica e os estudos sobre o sienito ornamental de Caldas e Santa Rita de Caldas, conduzidos no âmbito de orientações de Trabalho de Conclusão de Curso na Engenharia de Minas. Foi consultor ad hoc das revistas científicas Environmental Earth Science (Springer) e Geociências (UNESP) e, entre 2012 e 2014, vice-presidente para a América do Sul do grupo de trabalho Global Heritage Stone Project (IUGS/IAEG). Na UNIFAL-MG, integrou o Núcleo Docente Estruturante (NDE) do Curso de Engenharia de Minas, a Comissão de Atividades Complementares e a Comissão de Elaboração, Acompanhamento e Avaliação do Projeto Pedagógico do Curso.
Para a Profa. Carolina, que conviveu com o Prof. Fabiano nos laboratórios da Geologia da UNESP, em aulas de campo, na pós-graduação, no mercado de trabalho e, finalmente, como colega na UNIFAL-MG, há um traço que melhor resume o homenageado: “Na minha avaliação pessoal, o que melhor define o Fabiano, em todos os aspectos, seria o otimismo. Sempre ele via o melhor lado das coisas”.
Para além das salas de aula, a docente destaca a contribuição do Prof. Fabiano à implantação da Engenharia de Minas, especialmente por meio do Programa Tutorial Acadêmico, em que oferecia atenção extraclasse aos estudantes — “ajudou pessoas com dificuldades de aprendizagem, deu orientação quanto à postura em estágio, quanto a problemas familiares, sendo um alicerce importante para o corpo discente”. Ao mesmo tempo, atuou junto a empresas na construção de conhecimento sobre a geologia da região: “Este legado é importante até hoje”, afirma.

“Ele esteve presente na vida”
O momento de falas reuniu testemunhos de colegas, ex-orientandos, estudantes e familiares. O Prof. Luiz Felipe Ramos Turci, que dividiu sala com Fabiano por anos no ICT, propôs uma reflexão sobre o sentido da homenagem:
“Muitos de nós passam, talvez, por duas mortes — não uma só. […] A segunda é a morte da lembrança, é a morte da existência. Morre, em definitivo, aquele que é esquecido. E o Fabiano não vai ser esquecido.”

A fala ecoou em outros depoimentos, como o do egresso da UNIFAL-MG campus Poços de Caldas, o engenheiro José Miguel Vilela de Figueiredo, que foi orientando, aluno e amigo do homenageado. Em meio a memórias da convivência iniciada em trabalhos de campo numa pedreira inativada de Caldas, José Miguel destacou o que considera definidor do professor: “O Fabiano não passou pela vida — o Fabiano esteve presente na vida, em tudo, se entregando por inteiro com todos”.
Para encerrar sua fala, o ex-orientando recorreu a uma metáfora que dialoga diretamente com o sentido da homenagem ao laboratório:
“Existem duas formas de iluminar o mundo. A primeira é a vela — aquela que tem um combustível, que gera a luz, que ilumina, que irradia a luz para todos os cantos. E a segunda forma é o espelho: aquele que pega a luz da vela, reflete, e a direciona para lugares aos quais a vela, às vezes, não conseguiria ir sozinha.”
E concluiu: “Todas as pessoas que passarem por aqui, consciente ou inconscientemente, vão ser influenciadas e receber um pouco dessa luz que ele dedicou a vida para refletir”.
A palavra da família
Em nome da família, falou Juan Navarro, filho do Prof. Fabiano. Em depoimento que recordou a intensidade marcante dos 49 anos de vida do pai, agradeceu inicialmente a todos os que prepararam a homenagem e aos que acompanharam a família nos momentos finais. Ao caracterizar a personalidade do pai, sintetizou em uma única frase aquilo que, segundo ele, melhor o caracterizava: “Energia ilimitada — era isso que o definia”.

Juan retomou, em seguida, valores que o pai cultivava como docente, resgatando um princípio pedagógico que, segundo ele, atravessou sua atuação na Universidade: “A gente explica o que a gente sabe, mas a gente só ensina o que a gente é. E era isso que ele fazia”. E lembrou que, em casa ou no trabalho, com a família, com colegas ou com alunos, o pai estava ao mesmo tempo sempre pronto para aprender — “de qualquer pessoa, não importasse quem fosse”.
Citando palavras do próprio Prof. Fabiano, registrou ainda o objetivo de vida que ele se propusera a cumprir: “Meu objetivo é eliminar o egoísmo do mundo, nem que seja do meu mundo.” Para Juan, o pai cumpriu esse propósito até o último momento: “Na última semana, especialmente, ele viveu 100% para os outros: 100% amor, 100% palavras de incentivo, de paz — não só para a família, não só para amigos, mas para aquelas pessoas que estavam ali cuidando dele dia a dia, com quem ele sequer tinha contato anterior”. Encerrou sua fala com uma reflexão que dialoga, à sua maneira, com a metáfora da luz trazida por José Miguel: “O que fazemos em vida certamente ecoa pela eternidade”.
Mara Galvão, a companheira do Prof. Fabiano nos últimos 18 anos, em depoimento enviado ao Jornal UNIFAL-MG, traduziu o significado da homenagem para a família e a essência do trabalho do professor:
“A homenagem prestada por professores e alunos da UNIFAL-MG foi uma belíssima manifestação de amor e respeito à trajetória de Fabiano. Para ele, ensinar era um processo holístico. Fabiano acreditava que o conhecimento técnico, por si só, não transforma realidades. Ele compreendia que apenas o saber compartilhado com o coração é capaz de, verdadeiramente, transformar vidas. E fez isso com maestria.”
Patronato do CAMinas, descerramento e confraternização

A cerimônia teve ainda um desdobramento institucional anunciado pelos próprios estudantes. Em fala emocionada, Marcos Leandro dos Santos Boldrin, representante do Centro Acadêmico de Engenharia de Minas (CAMinas), comunicou a homenagem aprovada pela atual gestão do CA: tornar o Prof. Fabiano patrono do Centro Acadêmico. “Nós, do Centro Acadêmico, propusemos como uma das ações da nossa nova gestão tornar o Prof. Fabiano o patrono do Centro Acadêmico de Engenharia de Minas. Porque ele sempre contribuiu com a gente, foi uma pessoa honrada, um professor maravilhoso, uma pessoa alegre.”
Durante a solenidade, foi realizado o descerramento oficial da placa, emoldurada por rochas — referência simbólica ao campo de atuação do homenageado. O ato foi acompanhado de apresentação musical.
A cerimônia se encerrou com café e rodas de conversa entre os presentes, momento em que foram distribuídas, como lembrança da homenagem, sementes de girassol e mudas oriundas do Jardim Botânico da UNIFAL-MG — um gesto que, simbolicamente, devolve à terra parte do trabalho que o geólogo dedicou, ao longo da vida, a compreendê-la. A organização do evento esteve a cargo dos professores Carolina Del Roveri e Luiz Felipe Ramos Turci, com a colaboração do egresso José Miguel Vilela de Figueiredo.
A placa que agora batiza o Laboratório de Ciências das Engenharias traz inscrita uma frase que resume o sentido coletivo da homenagem: “Pessoa extraordinária, com a qual tivemos o privilégio de conviver e que deixou um grande legado em nossa universidade.”
A seguir, confira registros da trajetória do professor Fabiano ao lado de colegas e estudantes do ICT:
Fotos da homenagem: Luciana Resende e José Lúcio Zancan Junior

























































