Pesquisa propõe protocolo inédito para atendimento móvel de urgência em saúde mental no SAMU do Sul de Minas

Fruto de doutorado em Enfermagem desenvolvido na UNIFAL-MG, proposta de padronização é baseada em evidências científicas e na realidade regional
Ambulâncias da frota do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Macrorregião do Sul de Minas (CISSUL) usadas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), em registro feito em 2023. (Foto: Marco Evangelista/Imprensa MG)

Diante do crescimento de ocorrências relacionadas à saúde mental no atendimento pré-hospitalar, uma pesquisa desenvolvida na UNIFAL-MG propõe uma resposta prática a um problema ainda pouco estruturado no sistema de urgência. Priscila Freire Pereira Santana, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF), está elaborando e validando um protocolo voltado ao atendimento móvel dessas situações na macrorregião Sul de Minas Gerais, sob orientação da professora Sueli de Carvalho Vilela.

Priscila Freire Pereira Santana – doutoranda em Enfermagem e autora da pesquisa. (Foto: Arquivo Pessoal)

A proposta parte de um diagnóstico claro: há alta demanda, mas pouca padronização. “A pesquisa surge de inquietações práticas diante da complexidade do atendimento em saúde mental, falta de padronização deste tipo de atendimento e despreparo por grande parte dos profissionais”, afirma a pesquisadora, que atua há mais de 11 anos como enfermeira assistencial no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Macrorregião do Sul de Minas (CISSUL).

Os números justificam a urgência do tema. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos mentais afetam cerca de uma em cada oito pessoas no mundo. No SAMU/CISSUL, os dados coletados entre 2015 e 2025 mostram uma tendência clara de crescimento nos atendimentos ligados à saúde mental ao longo de toda a década analisada.

Agitação psicomotora com comportamento agressivo, tentativas de suicídio e intoxicações por abuso de substâncias são alguns dos casos mais frequentes registrados. O perfil varia por sexo, faixa etária e microrregião, variáveis que o protocolo em construção pretende considerar para ser funcional na prática.

Conforme a pesquisadora, a revisão de escopo conduzida como parte da pesquisa identificou falta de padronização global, escassez de protocolos específicos e predomínio de práticas ainda centradas no modelo biomédico.

Priscila Santana aponta que os resultados parciais já permitem enxergar ganhos concretos para pacientes, profissionais e para o sistema de saúde como um todo, os quais vão desde a redução de erros à humanização do atendimento.

“Um protocolo baseado em evidências e adaptado à realidade do serviço proporciona maior segurança para pacientes e profissionais, melhora da qualidade assistencial, padronização das condutas e aplicabilidade direta ao SUS”, afirma, acrescentando que o material tem potencial de replicação entre outros consórcios do país.

Como o protocolo está sendo construído

Registro da qualificação da pesquisa de Priscila Santana, realizada em junho de 2025. À esquerda, a professora Sueli de Carvalho Vilela (orientadora), ao meio, a acadêmica, e à direita o professor Rogério Lima, membro da banca. (Foto: Arquivo/PPGENF)

Iniciada em 2023, a pesquisa é uma tese de doutorado que adota uma abordagem metodológica dividida em etapas.

Na primeira etapa, Priscila Santana combinou a revisão de escopo, baseada nas diretrizes do JBI Manual e no modelo PRISMA-ScR, com um estudo transversal a partir dos registros reais do SAMU/CISSUL. Tal embasamento permitiu identificar quatro categorias de manejo já documentadas na literatura: ambiental (segurança da cena), verbal e comportamental (como o desescalonamento verbal), físico e mecânico (contenção, indicada apenas como último recurso) e farmacológico, especialmente em casos de agitação psicomotora e intoxicações.

A segunda etapa, em andamento, é a construção do protocolo em si, o qual será baseado nas evidências mapeadas, em documentos de órgãos oficiais, guias, manuais e na expertise das pesquisadoras e de juízes especialistas convidados.

Segundo a pesquisadora, a terceira etapa prevê dois momentos de validação: primeiro interno, com uso do instrumento AGREE II, que é uma referência internacional para avaliação de diretrizes, e depois externo, com especialistas que analisarão aparência, pertinência e relevância do documento.

A quarta etapa prevê a publicação e a divulgação do protocolo diretamente às equipes do SAMU/CISSUL.

A conclusão da tese está prevista para dezembro de 2026.

Primeiros resultados já ganham espaço científico

Mesmo ainda em andamento, a pesquisa já tem produzido frutos acadêmicos, como a aceitação do artigo Práticas e intervenções no atendimento pré-hospitalar a urgências e emergências em saúde mental: revisão de escopo para publicação na Revista Latino-Americana de Enfermagem (RLAE) – um periódico da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP e do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, com DOI já registrado. Um segundo artigo, sobre o perfil dos atendimentos na macrorregião Sul de Minas entre 2015 e 2025, está em fase de escrita para submissão.

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