Luta de classes, ressentimento social e erosão democrática

Atualizado em 13/10/2026 12:03

Os resultados do primeiro turno eleitoral no Brasil, em 2026, expõem, sob a perspectiva do materialismo histórico, a continuidade da luta de classes entre ricos e pobres, ou seja, entre os proprietários dos meios de produção e aqueles que possuem apenas a própria força de trabalho como mercadoria. Embora outros fatores além da classe social interfiram na decisão do voto, os dados consolidados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) demonstram que a luta de classes estrutura o comportamento político eleitoral no Brasil. O mapa de apuração dos resultados das urnas confirma a tendência que as pesquisas de intenção de voto já apontavam antes do pleito. Há uma distribuição proporcional a renda e a escolaridade. Quanto mais baixa a renda e a escolaridade, maior o apoio à reeleição do presidente Lula. À medida que ambas sobem, os votos se dividem, com forte concentração do bolsonarismo nos estratos mais ricos. Para além do plano simbólico ou do confronto ideológico, os resultados revelam uma profunda fratura social, opondo a escassez de um lado e a concentração de renda do outro. Essa ruptura se expressa em dois projetos de desenvolvimento com compromissos distributivos antagônicos e repete, com nuances históricas distintas, a luta de classes desde a proclamação da república.

Na classe social de menor renda, expressivo entre eleitores com rendimento familiar de até dois salários mínimos, identifica-se uma simpatia massiva pelo projeto liderado por Luiz Inácio Lula da Silva. A preferência expressa a adesão a uma plataforma nacional-desenvolvimentista centrada no fortalecimento de um mercado interno de consumo de massa, a reindustrialização do país, a integração soberana em um mundo multipolar, a valorização real do salário mínimo e o fortalecimento do Estado de Bem-Estar Social, marcado pela expansão de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Pé de Meia, e pela defesa da Seguridade Social e do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em contraposição, o eleitorado de maior renda (acima de cinco salários mínimos) e a classe dos super-ricos, detentores do capital, concentraram majoritariamente seus votos na candidatura da família Bolsonaro. O programa desse bloco privilegia a austeridade fiscal à custa de cortes nas políticas assistenciais, a desidratação dos serviços públicos universais, a integração dependente da economia brasileira aos fluxos financeiros e geopolíticos do mercado norte-americano, a redução drástica da presença do estado em áreas estratégicas como água e energia, a flexibilização de leis ambientais para favorecer o agronegócio.

Esse conflito permanente entre esses dois projetos antagônicos de país, observado desde 1989, manifesta-se no campo das emoções políticas na forma de ressentimento social. Como apontam diversos estudos da sociologia crítica contemporânea, o comportamento eleitoral das elites e de frações da classe média alta é atravessado por uma repulsa à ascensão social, econômica e simbólica dos estratos mais vulneráveis. A redistribuição de renda e a ampliação de direitos essenciais, como previdência, saúde e ensino superior, são percebidas e interpretadas por essas classes não como avanços republicanos universais e desejáveis, mas como custos desnecessários com pessoas que “não se esforçaram” para merecer uma vida melhor. Embora o peso de mais de três séculos de escravização na formação dessa ideologia meritocrática ainda exija mais estudos, seu impacto nas urnas é um fato.

O ressentimento é uma das emoções mais poderosas do comportamento humano. Define-se por um estado duradouro de raiva e decepção associado à percepção de perda, traição ou injustiça. Embora por vezes se projete no cenário político sob a roupagem da indignação coletiva, tratam-se de emoções distintas. Enquanto a indignação opera como uma reação à violação de normas morais e sociais tidas como justas, o ressentimento é movido por sentimentos de inveja, amargura e apego à própria pequenez. O indivíduo ressentido projeta no ‘outro’ suas próprias vulnerabilidades e impulsos nocivos, construindo esse outro como um espelho negativo para, por contraste, autoafirmar sua pretensa virtude. Na arena política, essa dinâmica psíquica individual tende a calcificar antagonismos entre classes sociais, sobretudo quando manipulada por grupos políticos com tal objetivo.

Um exemplo emblemático desse ressentimento observa-se na chamada ‘nova classe média baixa’. Cerca de três milhões de eleitores com renda superior a três salários mínimos, beneficiados diretamente pelas políticas sociais dos governos Lula e Dilma, votaram majoritariamente contra o projeto lulista. Estudos qualitativos mostram que esse segmento atribui sua ascensão social unicamente ao mérito individual. Mesmo admitindo a importância de programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Prouni na sua escalada social da classe D para a Classe C, julgam que os demais beneficiários que permanecem onde ele estava ‘sugam’ os impostos da classe média. Nem mesmo a isenção do imposto de renda que fez da classe média baixa a maior beneficiaria mudou esse ressentimento.

Essa percepção de perda radicaliza-se até assumir contornos de ódio de classe à medida que a renda aumenta. Frente às propostas de progressividade na tributação sobre a renda durante a reforma tributária, os estratos mais abastados reagiram sob o slogan ‘o Brasil não aguenta mais impostos’. A falácia de tal discurso reside em disfarçar o interesse particular sob uma suposta causa coletiva. De fato, a sociedade brasileira sofre com a carga tributária justamente porque os super-ricos não são taxados na mesma proporção que os mais pobres. Contudo, como a população de menor renda sente de forma mais acentuada o peso dos tributos sobre o consumo, acaba por rejeitar até mesmo medidas de justiça fiscal que aliviariam seu próprio bolso, a exemplo da isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até cinco mil reais. Trata-se de um caso emblemático de ressentimento social, no qual o indivíduo aceita o próprio prejuízo desde que isso impeça o avanço de quem está abaixo dele na hierarquia socioeconômica.

O ressentimento social também aparece na divisão geográfica da apuração. A votação massiva em Lula no Nordeste contrasta com o predomínio do bolsonarismo no Sul e no Sudeste, reativando preconceitos históricos. Exemplo disso ocorreu quando o ex-governador de Minas Gerais, fragorosamente derrotado em sua candidatura à Presidência em 2026, afirmou, ainda no exercício do cargo de governador, que o Sul e o Sudeste “não podem ser penalizados por quem não quer trabalhar”, ao criticar a alocação de investimentos no Norte e Nordeste e ao fato de que em algumas cidades do nordeste, naquela época, haviam mais beneficiários do Bolsa Família que empregados com carteira assinada. Tais políticas regionais, iniciadas em 2003 e desaceleradas ou interrompidas nos governos Temer e Bolsonaro, visam reduzir a dependência histórica do norte e nordeste em relação às mercadorias e serviços do eixo Sudeste-Sul. Do mesmo modo que a classe média percebe a transferência de renda como subtração via impostos, lideranças políticas bolsonaristas do sul e sudeste interpretam o investimento produtivo no Norte e Nordeste como prejuízo para suas regiões e não o desenvolvimento integrado e equilibrado, desejável em todo território nacional. O ressentimento assume, assim, a forma de uma reação classista e regional contra a descentralização do poder econômico e a redução das desigualdades sociais e regionais.

Entretanto, o que torna o pleito de 2026 sui generis em relação aos pleitos anteriores é a interdição quase absoluta da deliberação pública balizada por fatos. A confrontação democrática entre projetos de país cedeu lugar à manipulação sistemática da verdade factual. Exercida como estratégia deliberada pelo bolsonarismo, essa tática baseia-se na produção massiva de desinformação para substituir fatos por emocionalidades virais nas redes sociais capaz de amplificar ressentimentos, produzir raiva e ódio ao oponente na disputa eleitoral. Diante da eficácia dessa estratégia no primeiro turno, o lado derrotado convenceu-se da necessidade de reagir na mesma moeda, adotando táticas semelhantes na guerrilha digital movida por rejeição, medo e ódio para tentar reverter a situação de primeiro turno.

No primeiro turno, o alvo central da ofensiva bolsonarista foi o Poder Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF). Ao converter a Corte em ‘inimigo do povo’, busca-se deslegitimar a arbitragem institucional e criar um estado de crise permanente. Ao provocar decisões parciais e monocráticas conflitantes entre ministros indicados por diferentes governos, o bolsonarismo atraiu o STF para a arena política da qual, como árbitro, ele deveria manter distância. Então, como tudo é uma questão de decisão política, o bolsonarismo oferece como solução da crise a ‘vontade popular’, apresentando votações expressivas como legitimação para atacar, intervir e instrumentalizar as instituições democráticas em favor de seu grupo político. Esse tipo de movimento, historicamente, funcionou como antessala para golpes de Estado ou ditaduras disfarçadas de normalidade democrática, como na Hungria de Viktor Orban e a Venezuela de Nicolas Maduro.

Quando o debate político é sequestrado pela desinformação, pela pauta moralista e emoções virais nas redes digitais os programas reais de governo com suas escolhas orçamentárias e compromissos distributivos ficam ocultos. O eleitor é privado da análise racional sobre o financiamento da saúde, o incentivo à ciência e as universidades públicas, o aumento real das aposentadorias vinculado a política de valorização do salário mínimo, o modelo de desenvolvimento para reduzir desigualdades, a inserção do Brasil na economia mundial e, mais importante, sobre qual classe social irá recair o financiamento de todas essas políticas ou como redistribuir a carga tributária de modo a elevar a renda e, ao mesmo tempo, facilitar a abertura de novos negócios?

Nas condições atuais da disputa eleitoral, subordinada à lógica de programação algorítmica e de emocionalidades virais das redes sociais, a democracia tem a sua substância esvaziada, permanecendo apenas uma casca oca, vazia de conteúdo racional sobre os problemas reais da população. Nesse cenário, seja qual for o resultado das urnas no segundo turno, é possível afirmar, com alto grau de probabilidade de acerto, que o esgarçamento do tecido social brasileiro, marcado pela indecente desigualdade social entre ricos e pobres, tende a se agravar.

Para entender o contexto leia também:

ALMEIDA, Lindijane Bento; BARROS, Terezinha Albuquerque; MACEDO, Jaylan Ferreira. O ressentimento do eleitor natalense nas eleições presidenciais de 2018. Cadernos Metropole, São Paulo, v. 23, n. 51, pp. 445-468, maio/ago 2021. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/2236-9996.2021-5101

BORGES, Joana. O ressentimento bateu em nossa porta? Brasil de Fato/CE. 23 iut. 2025. Disponível em https://www.brasildefato.com.br/2025/10/23/o-ressentimento-bateu-em-nossa-porta/

GAITÁN, Flávio; PÉREZ DE ZAYAS, Jorge Enmanuel. Derecha radical y erosión de la democracia en América del Sur: un análisis exploratorio a partir de las experiencias de Argentina y Brasil. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, v. 12, n. 1, 12 set.2026. Disponível em https://periodicos.claec.org/relacult/pt_BR/article/view/3348

LAVALLE, Adrian Gurza. Erosão da democracia no País teve início a partir das Jornadas de Junho em 2013. Jornal da USP. 29 mar. 2023. Disponível em https://jornal.usp.br/radio-usp/erosao-da-democracia-no-pais-comecou-com-as-manifestacoes-da-extrema-direita-em-2013/

LIMA, Rodrigo. Luta de classes e a dinâmica das representações políticas no Brasil. Le monde diplomatique/Brasil. 8 out. 2018. Disponível em https://diplomatique.org.br/luta-de-classes-e-a-dinamica-das-representacoes-politicas-no-brasil/

ROMANO, Roberto. Bolsonaro e o ressentimento. Jornal da Unicamp, 18 jun. 2019. Disponível em https://www2.unicamp.br/estatico-2023/ju/artigos/roberto-romano/bolsonaro-e-o-ressentimento/

TELES, Gabriel. A urna e a luta de classes. Passa Palavra. 06 out. 2026. Disponível em https://passapalavra.info/2026/10/160016/

XARÃO, Francisco. Indignação. Jornal da Unifal/Artigos. 19 abr. 2023. Disponível em https://jornal.unifal-mg.edu.br/indignacao/

Francisco Xarão é professor associado de Filosofia do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Doutor em Filosofia. É líder do grupo de pesquisa Filosofia, História e Teoria Social. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Política, Ética e Filosofia da Ciência. Atua principalmente nos seguintes temas: política, educação, direitos humanos e metodologia das ciências. Temas de interesse: Democracia; fake news, reformas educacionais, filosofia. Currículo lattes.  

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