“Trazer essa medalha de prata entre centenas de projetos do mundo todo mostra que a universidade pública é um ambiente onde se produz ciência e tecnologia do mais alto nível”, afirma professor da UNIFAL-MG premiado em competição na China 

Hélio Lemes é professor da UNIFAL-MG lotado no Instituto de Ciências Socias Aplicadas (Icsa) do Campus Varginha. (Fot: Arquivo Pessoal/Hélio Lemes)

O professor e pesquisador Hélio Lemes Costa Júnior, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da UNIFAL-MG, Campus Varginha, foi premiado com medalha de prata na 12th International Invention Exhibition & BRICS Skills Development and Technology Innovation Competition, realizada entre os dias 21 e 23 de agosto, em Guangzhou, na China. A premiação foi concedida pelo desenvolvimento do RGF-Agent, uma solução que aplica inteligência artificial generativa e agentes autônomos à gestão pública. 

Na entrevista a seguir, o professor fala sobre o projeto, sua participação na competição internacional, os desafios da inovação no setor público e o potencial da inteligência artificial para transformar a Administração Pública. 

Para começar, poderia se apresentar brevemente, falando sobre sua formação, trajetória profissional e atuação na UNIFAL-MG?

Hélio Lemes Costa Júnior: Sou professor, há quase 15 anos, no campus da UNIFAL-MG em Varginha, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas. Minha praia sempre foi a interseção entre gestão pública, inovação e tecnologia. Ao longo da minha carreira, tenho focado em como transformar as organizações por meio da inovação e tecnologia. Mais recentemente meu trabalho está em fazer transformação digital de forma prática, que ajude a destravar a administração pública e traga resultados reais para a sociedade.

“Vejo a IA como uma parceira para turbinar a capacidade humana, não para substituir pessoas.” Hélio Lemes

Poderia nos explicar, de forma mais detalhada, o que é o RGF-Agent, como ele funciona e qual foi sua principal motivação para o desenvolvimento do projeto?

Hélio Lemes Costa Júnior: O RGF (Radical Governance Framework) nasceu originalmente como um modelo e framework teórico voltado para implementar a governança radical em laboratórios de inovação, principalmente no setor público. Com o avanço acelerado da Inteligência Artificial, percebi que poderíamos dar um salto: transformar essa teoria em uma ferramenta prática de gestão de projetos e de laboratórios. Foi aí que criamos o RGF-Agent, uma plataforma de software que integra a IA diretamente à governança.

A principal motivação foi justamente encurtar o caminho entre o modelo teórico e a prática diária dos órgãos públicos. A plataforma usa a IA para automatizar análises, organizar a governança e dar tração para que as ideias testadas nos laboratórios consigam rodar com agilidade e virar soluções reais.

O projeto desenvolvido na UNIFAL-MG competiu com iniciativas de diversos países. (Foto: Arquivo Pessoal/Hélio Lemes)

Para quem não conhece a área, o que é exatamente um laboratório de inovação do setor público e como o RGF-Agent pode contribuir para o trabalho realizado nesses espaços?

Hélio Lemes Costa Júnior: Um laboratório de inovação pública é como uma “oficina de testes” dentro do governo para criar novas formas de atender o cidadão. O RGF-Agent entra como uma ferramenta que dá mais transparência e capacidade de gestão dos projetos de inovação. Também pode atuar como um acelerador nesse processo: ele cuida da parte “chata” de documentação e análise de dados, permitindo que a equipe foque em criar e implementar as soluções na prática.

Ao longo da sua trajetória como professor e pesquisador, quais foram os principais desafios e aprendizados que contribuíram para o desenvolvimento de um projeto como o RGF-Agent?

Hélio Lemes Costa Júnior: A principal motivação para criar o framework veio de encarar de frente um desafio gigante: aplicar governança à inovação, seja na gestão de projetos ou no dia a dia dos laboratórios. E quando trazemos isso para o setor público, a barra sobe ainda mais, porque estamos lidando com um ambiente cheio de regras rígidas, burocracia e um tempo próprio. O grande aprendizado dessa jornada foi perceber que não adianta criar uma estrutura ou tecnologia super complexa se ela não for fácil de usar no dia a dia. Para a inovação realmente colar na gestão pública, a governança precisa ser amigável e funcional para quem está lá na ponta trabalhando.

 “O RGF-Agent entra como uma ferramenta que dá mais transparência e capacidade de gestão dos projetos de inovação.” Hélio Lemes

Poderia nos explicar o que foi a 12th International Invention Exhibition & BRICS Skills Development and Technology Innovation Competition? Como você avalia essa experiência?

Hélio Lemes Costa Júnior: Foi uma feira gigante de inovação em Guangzhou, na China, reunindo projetos do mundo todo, principalmente dos países do BRICS. A experiência foi sensacional! Poder levar uma solução desenvolvida no interior de Minas e ver que ela vai ao encontro do que há de mais moderno no planeta foi algo muito gratificante. Além dos contatos feitos com pesquisadores de todo o mundo, o que cria pontes para a realização de projetos conjuntos no futuro.

o RGF-Agent competiu na categoria Smart Governance and Public Administration e ficou atrás apenas da China. (Fotos: Arquivo Pessoal/Hélio Lemes)

Como surgiu a oportunidade de participar da competição e o que o motivou a inscrever o projeto no evento?

Hélio Lemes Costa Júnior: A oportunidade veio por um convite do Prof. Dr. Ihab Elshora, do BRICS Academy e da Universidade de Nanjing, para submeter o meu projeto do RGF-Agent na competição realizada pela BRICS Academy. Fiz a inscrição porque queria colocar a minha ideia à prova no mais alto nível. Queria ver como especialistas internacionais avaliariam o projeto e se o que estou fazendo aqui tinha apelo global.

Na sua visão, quais são os principais desafios enfrentados atualmente pela Administração Pública que poderiam ser amenizados com o uso de tecnologias e da inteligência artificial?

Hélio Lemes Costa Júnior: A lentidão nos processos, a “papelada” e a dificuldade de cruzar dados rapidamente. A IA pode assumir esse trabalho pesado e repetitivo, liberando o servidor público para focar no que realmente importa: atender bem o cidadão e tomar decisões estratégicas.

Diante das preocupações que existem atualmente sobre o uso da inteligência artificial, como você enxerga o papel dela na sociedade? Quais cuidados considera essenciais para que seu uso seja responsável e seguro?

Hélio Lemes Costa Júnior: Vejo a IA como uma parceira para turbinar a capacidade humana, não para substituir pessoas. No setor público, os cuidados essenciais são garantir a segurança dos dados das pessoas, manter os algoritmos transparentes e garantir que a decisão final sempre passe por um ser humano.

“Não deixem as ideias guardadas na gaveta! Procurem entender se a ideia resolve um problema de verdade, aproveitem o apoio dos professores e dos ecossistemas de inovação da universidade, e coloquem o projeto no mundo.” Hélio Lemes

Que papel a UNIFAL-MG teve no desenvolvimento do projeto e o que a conquista da medalha de prata representa para a universidade?

Hélio Lemes Costa Júnior: Foi na UNIFAL-MG que, há 15 anos eu comecei a voltar meu olhar para o setor público. Durante os 35 anos em que atuo como professor e pesquisador, em mais da metade eu estava focado em gestão de tecnologia e inovação no setor privado, principalmente. No Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) eu comecei a entender as demandas e os desafios do setor público e, desde então, mudei meu foco de pesquisa. Trazer essa medalha de prata entre centenas de projetos do mundo todo mostra que a universidade pública e regional é um ambiente onde se produz ciência e tecnologia do mais alto nível. Minha medalha foi a única trazida por um projeto brasileiro, dentro de 500 concorrentes de todo o mundo.

Quais são os próximos passos para o RGF-Agent? Há planos de ampliar os testes ou estabelecer parcerias para que a ferramenta possa ser aplicada na prática?

Hélio Lemes Costa Júnior: Agora a ideia é evoluir a ferramenta e fechar parcerias com órgãos públicos e outros laboratórios de inovação para colocar o RGF-Agent para rodar no “mundo real” em maior escala.

Para finalizar, que conselho você daria para estudantes que têm uma ideia ou projeto, mas ainda não sabem como transformá-lo em uma pesquisa ou solução que possa chegar além da universidade?

Hélio Lemes Costa Júnior: Não deixem as ideias guardadas na gaveta! Procurem entender se a ideia resolve um problema de verdade, aproveitem o apoio dos professores e dos ecossistemas de inovação da universidade, e coloquem o projeto no mundo. Participem de feiras e editais — o “não” vocês já têm!

Há algo mais que você queira compartilhar?

Hélio Lemes Costa Júnior: Só reforçar o orgulho de representar o Brasil lá fora e dar o exemplo para quem acha que nós, pesquisadores do interior do país, temos condições de concorrer em nível internacional e mostrar nossas ideias inovadoras como propostas para o mundo todo. Isso prova que dá para fazer inovação de ponta de qualquer lugar, desde que haja dedicação e vontade de resolver problemas reais.

Ana Clara Oliveira é estagiária de Comunicação Social do Campus Varginha.

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