“VÉSPERA”: os momentos que nos conduzem ao descontrole

Reprodução da imagem de capa do livro “VÉSPERA”, de Carla Madeira

“O puçá da vida, com sua rede inescapável, baila à espreita…
Entre gestos, olhares, palavras, vazios,
intensidades e, súbito, como se fossem borboletas,
recolhe a véspera de uma dor, o desamparo sem
palavras, a sutil alegria, a faísca cadente, o assombro
fugidio e o desejo… E, assim, aprisiona o tempo e o faz
corpo marcado.” (p.226)

Em Gênesis 4, aprendemos a história de Caim e Abel; coincidentemente, em Véspera também. Com uma discussão religiosa, Carla Madeira traz o primeiro assassinato da humanidade como metáfora para os erros, desejos e descontroles mais profundos que um ser humano é capaz de sentir.

A história tem início com Vedina, a mãe que deixa seu filho Augusto, de 5 anos, em uma via de mão única, sozinho. Minutos depois ela se arrepende, mas já é tarde, pois a criança desapareceu. Contada de forma não linear, a narrativa se alterna entre o presente (com Vedina e seu filho) e um passado que busca entender todas as vésperas que levaram a personagem ao abandono do próprio filho.

Carla Madeira arrebata o leitor com uma teia de verdades cruéis em Véspera (2021), seu terceiro romance, sem deixar de lado uma escrita puramente poética que nos faz refletir a cada parágrafo. Utilizando-se de um humor ousado para tratar da religiosidade, a autora vai além e descreve seus personagens com perspicácia, permitindo que nos identifiquemos em seus momentos mais desprezíveis, revelando cada imperfeição que buscamos jogar debaixo do tapete.

Como já mencionado, a história do passado permeia a vida dos irmãos Caim e Abel, nomeados pelo pai em um momento de raiva por sua mulher religiosa, mas assombrado durante o resto dos dias com profundo arrependimento. Ao longo de sua infância, os meninos foram chamados de Abel e Abelzinho, pois sua mãe se recusou a nomear um de Caim, até o momento em que são obrigados a ir à escola. Não há saída: um deles deve se tornar Caim. A partir deste momento, Caim se torna um menino alegre e prodígio em todas as matérias, com um ânimo invejável para os estudos, enquanto Abel se retrai em amargura, vivenciando pequenas mortes a cada dia…

Eventualmente nos são apresentadas as personagens Vedina e Veneza, ambas, alvo de grandes emoções pelos irmãos. Entretanto, Veneza torna-se amada pelos dois, mas apenas Caim conquista seu amor. Ao longo do tempo, Abel reprime seus sentimentos e se casa com Vedina, dando origem ao filho, Augusto. Mas quem disse que a vida mata amores de um dia para o outro estava errado; com Veneza cada vez mais próxima da família, Abel sofre ao tentar esconder seu desejo pela menina, deixando escapar, aos poucos, todas as vontades e impulsos mais impuros, muitas vezes cruéis, que permeiam a caixa de Pandora desta família.

Ao retomar a passagem bíblica de Caim e Abel, a autora retrata uma mensagem passada na história. Estariam os irmãos predestinados a tal fardo? Caim deveria matar para cumprir um propósito, de mostrar aos outros que a ira poderia levar à destruição, porém mais do que isso, mostrar o quanto pode ser brutal e possuir consequências arrasadoras quando um pai não aceita que seus filhos possam ser diferentes. O livro gira em torno da importância do papel da criação materna e paterna no desenvolvimento de uma criança: quais as repercussões que os atos de uma mãe podem causar?

Creio que não preciso explicitar em palavras o quanto este livro me arrancou de meu centro. A verossimilhança presente em cada palavra torna o texto vivo e aterrorizante, mas sem perder a poesia das reflexões formuladas pela autora. A obra é costurada de modo que a numerologia de capítulos decresce ao longo da narrativa, finalizando esta teia no primeiro capítulo, aquele que deverá responder a pergunta implícita instigada no início do livro: o que terá acontecido com Augusto?

Paratexto editorial Resenha Crítica, produzido no âmbito da disciplina “Introdução à Editoração”, ministrada pela professora Flaviane Faria Carvalho, em parceria com os projetos +Ciência (FAPEMIG/UNIFAL-MG) e Laboratório de Estudos Editoriais (PROEC/UNIFAL-MG).

Isadora Braun é estudante do 2° período de Bacharelado em Letras – Língua Portuguesa da UNIFAL-MG. Apaixonada por histórias e por seus diversos significados aos olhos de quem vê.

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