Um fundador do Sul de Minas

Atualizado em 02/03/2026 11:39

A cidade de Campanha, fundada em 1737 como Arraial de São Cipriano, tem uma rua e um monumento em homenagem ao seu criador, Cipriano José da Rocha. Na época, esse português nascido no final do século XVII num lugarejo minhoto chamado Barral estava empenhado, entre outras atividades, na descoberta de ouro na região ao sul da capitania de Minas Gerais – território então ainda disputado pela limítrofe capitania de São Paulo. Cipriano exercia o cargo de ouvidor do Rio das Mortes, sediado em São João del Rey, por cuja nomeação muito havia esperado, tendo servido à Coroa portuguesa, antes disso, em Salvador e em Sergipe.

O livro que leva o nome de Cipriano é a tentativa de seu descendente António Andresen Guimarães de ampliar a merecida homenagem campanhense, uma vez que esse fundador do Sul de Minas ainda não contava com uma biografia, apesar de ser citado em muitos documentos do século XVIII, quando a região ainda se desenhava como parte de Minas, sendo povoada em consequência das últimas descobertas de jazidas auríferas, já no fim do Ciclo do Ouro. O autor da obra explica, de saída, que seu antepassado não foi, pelos “critérios de uma história tradicional”, “nem estadista célebre ou militar “que mereça ser recordado pelos seus feitos heroicos”, não escreveu nenhuma obra literária nem logrou “descoberta científica que preserve seu nome”.

(Reprodução)

Cypriano Joseph da Rocha – Relato de uma vida entre Portugal e o Brasil na “Idade do Ouro” (2024), publicado pela editora Krauss, de Poços de Caldas, é um valioso testemunho de que tal homem sem “qualidades excepcionais” conhecidas viveu uma existência digna de ser iluminada pela perspectiva histórica. No caso da região sul-mineira, por serem suas cartas – principal matéria-prima do relato historiográfico – documentos importantes sobre a constituição de aglomerados urbanos surgidos na última fase do Ciclo do Ouro, como Lavras, São Gonçalo do Sapucaí e a própria Campanha. No caso da grande História brasileira, pela oportunidade de observar as questões políticas e econômicas do ângulo particular das agruras vividas por um reinol cuja posição inicialmente modesta o fazia preocupar-se com o preço da farinha e as parcas possibilidades de educação, na colônia, dos filhos que havia trazido consigo. Isso além das saúdes achacadas pelo ambiente inóspito da Colônia – do qual bem menos se queixaria (aliás, pelo contrário…) uma vez chegado a Minas Gerais.

As cartas também permitirão, talvez, refletir sobre o que era o casamento naquele tempo, instituição capaz de sobreviver (posto que malferida, mesmo pela infidelidade do homem, da qual o autor passa um pouco ao largo) a 16 anos de separação entre os cônjuges. Devido aos extravios de mensagens e à própria intermitência do correio transatlântico, chega a passar-se quase um ano sem que Cipriano receba notícias de sua família deixada em Ponte da Barca, cidadezinha na região do rio Minho. Nesse tempo, por sinal, morreu-lhe um dos filhos.

Ao lançar luz sobre a vida de seu antepassado, António Andresen Guimarães nos faz saber, por exemplo, que naquela época um escravo podia custar menos que uma cadeira, que a Bahia tinha alçada administrativa sobre Angola e São Tomé, colônias portuguesas na África, e que um navio, logo ao partir da Ribeira das Naus, na cidade do Porto, podia ser atacado por embarcações mouriscas cheias de homens armados. Olhares atentos poderão, ainda, observar em passagens do livro a lamentável atualidade de velhas mazelas brasileiras – como a bandidagem refugiada em lugares pouco acessíveis aos responsáveis pela aplicação da lei:

O sertão era território que dava refúgio a ladrões e outros criminosos, onde a lei
e a justiça só lentamente chegavam (…) Era refúgio de quem vivia à margem da
lei, que controlava quem entrava e quem saía, mas também e quem partia à
descoberta de novas minas de ouro e, se tinha a felicidade de as encontrar,
guardava para si as riquezas e o segredo da sua descoberta. (p. 185)

Ou a disseminação de mentiras como arma política:

Mas as notícias da partida para breve do comissário régio e governador interino
não passariam de boatos, inseridos na campanha contra Martinho de Mendonça,
alimentada por seus opositores, de entre os quais ocupavam especial papel os
que o identificavam como o principal responsável pela introdução e aplicação
do regime de tributação por capitação. (p. 200)

Numa chave mais otimista, este trecho de uma carta ao governador interino da capitania em 1737 quase replica o famoso ufanismo por procuração da mensagem de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel:

Estão estas Minas em uns bem dilatados campos, que os fendem vários corgos
e ribeiros, com muitos matos, proveitosa agricultura, e ainda que tarde, se
plantou quase trezentos alqueires de milho, em várias roças; em todos os corgos
e ribeiros se acha ouro que entra para a terra […] pelo que prometem duração
(…) compreende o descoberto em circuito mais de 20 léguas. (p. 212)

Na mesma carta, dando notícia da fundação de Campanha, Cipriano se atribui a descoberta do rio Sapucaí:

Tem o dito arraial comodidade de 4 rios abundantíssimos de peixe,
grosso e miúdo, que são Palmela, Lambari, Sapocahi (que eu descobri)
e Rio Verde, que leva ouro em conta, pela experiência que se tem feito;
foram quase sete mil negros a que se repartiram terras; serão as ditas
minas uma dilatada povoação, tanto pela extensão que todos os dias
cresce, como pela comodidade do país, a terra produtiva de
mantimentos e os ares benévolos. (p. 213)

Cipriano viera para a colônia como juiz de órfãos da cidade da Bahia, como então se chamava Salvador. O ano era 1728, ele contava 43 anos. A mulher e alguns filhos ficaram por lá, só revendo o chefe da família no retorno deste a Portugal. As cartas dele a Dona Maria Luísa são o fio condutor da maior parte desse “ensaio de biografia”.

Quando, depois de muita espera e de Cipriano haver provado reiteradamente seu empenho na causa da colonização, D. João V finalmente o nomeou para ouvidor da comarca do Rio das Mortes, ele passou a ocupar funções ligadas à administração pública e à distribuição da justiça. Havia então quatro comarcas em Minas: Ouro Preto, Sabará, Rio das Mortes e Serro do Frio, esta na região de Diamantina. Mais uma vez, segundo demonstram as cartas e outros documentos da época citados pelo autor, Cipriano esmerou-se no cumprimento de suas atribuições. Tendo surgido, porém, a oportunidade de melhorar seus ganhos, acabou adiando por alguns anos o retorno a Portugal – e o acrescentamento da “Casa” de pouco lhe valeu, pois ele morreu logo depois do regresso. Tinha 60 anos, e não chegou a tomar posse do cargo de juiz na cidade do Porto, por que tanto ansiara no final da vida.

Andresen Guimarães lançou seu livro na mais recente Bienal do Livro de São Paulo e também na Bienal Mineira do Livro. Ele é advogado e vive em Portugal, tendo já publicado outros ensaios historiográficos e crônicas. Na introdução do volume, explica que resolveu manter, no título, a grafia com que Cipriano assinava o próprio nome. O volume, muito bem cuidado graficamente, traz um apêndice com mapas, desenhos, pinturas e fac-símiles de documentos ilustrativos de fatos mencionados nas cartas e de aspectos da natureza e da sociedade do Brasil no século XVIII.

Título original: Cypriano Joseph da Rocha: Relato de uma vida entre Portugal e o Brasil na “Idade do ouro”
Gênero: História | Biografia
Autor: António Andresen Guimarães
Editora: Krauss Editora
Ano da edição: 2024
Páginas: 288

Eloésio Paulo é professor titular de Literatura nos cursos de Letras da UNIFAL-MG e autor de vários livros, sendo 201 romances brasileiros em 5 minutos cada (2024) e Deus e o espantalho (2025) os mais recentes.

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