A valorização da memória indígena no Sul de Minas é o foco de um projeto desenvolvido por uma estudante do curso de Letras – Língua Portuguesa (Bacharelado) da UNIFAL-MG, que busca dar visibilidade ao Museu de Arqueologia Indígena Antônio Adauto Leite (MUARI), em Carmo do Rio Claro-MG.

Idealizada por Júlia Vitória Mendonça, a proposta foi desenvolvida como trabalho de seminário da disciplina “Estudos de Literatura e Cinema”, ministrada pelo professor Ítalo Oscar Riccardi León, e se insere na interface entre literatura, cinema documental e memória coletiva.
A partir da análise do documentário Histórias de Quando a Água Chegou, produção vinculada a um projeto de extensão da Universidade e de materiais relacionados, a estudante buscou compreender como narrativas orais e audiovisuais contribuem para preservar histórias locais, especialmente aquelas impactadas pela construção da Usina de Furnas.
Segundo Júlia Mendonça, o trabalho nasce de um vínculo direto com o território e com as memórias da comunidade. “A escolha deste tema partiu de um interesse pessoal e afetivo, pois trata-se de um projeto que pretendo continuar desenvolvendo, ligado diretamente à história das minhas terras e às memórias de pessoas da região. Registrar e analisar essas narrativas é uma forma de valorizar as vozes locais que muitas vezes são esquecidas ou silenciadas”, explica.
Para desenvolver o projeto, Júlia Mendonça coletou depoimentos, investigou a memória indígena na região e analisou o papel de espaços culturais, como o museu, na preservação dessas histórias.
Memória indígena e vestígios do território

Ao longo da pesquisa, a estudante se debruçou sobre a trajetória de Antônio Adauto Leite, responsável por reunir o acervo que deu origem ao museu. Considerado um guardião da memória local, ele dedicou mais de cinco décadas à coleta de vestígios arqueológicos encontrados, principalmente, nas margens da represa de Furnas.
“O acervo do museu foca na cultura dos índios Catu-auá/Cataguases e Tupi-guaranis da região, tendo sua origem diretamente ligada à trajetória de vida de seu fundador, Antônio Adauto Leite, cuja atuação foi fundamental para a preservação da memória indígena regional”, relata Júlia Mendonça na descrição do trabalho.
Entre as 3 mil peças que podem ser conferidas no museu estão potes cerâmicos, utensílios, ferramentas e outros objetos que evidenciam a presença de povos indígenas na região muito antes das transformações provocadas pela construção da usina.

Esses vestígios, segundo a análise do trabalho, funcionam como testemunhos materiais de comunidades que tiveram parte de sua história apagada pela inundação.
Além de informações históricas sobre o museu, Júlia Mendonça fez registros fotográficos do acervo e coletou depoimentos, como o de Suzana Araújo Leite Hervas, filha de Antônio Adauto Leite, responsável pela formação do espaço histórico.
“O legado do meu pai é de um valor imensurável”, afirma Suzana Leite. “Guardar memórias é ter conhecimento da nossa história, da nossa evolução. É algo essencial”, ressalta.

Para o professor Ítalo León, responsável pela disciplina que originou o projeto e coordenador do documentário de 2015, o trabalho de Júlia Mendonça se destaca por ir além da proposta acadêmica e se transformar em um reencontro com suas próprias raízes.
“Com espírito sensível, emotivo e de pesquisadora, a Júlia elaborou uma proposta de investigação que busca não apenas ressignificar o vídeo/documentário, mas também abordar questões relacionadas à memória e à sua preservação”, relata.
“O trabalho dá continuidade e amplia as narrativas originadas pela inundação da barragem de Furnas, incluindo aspectos ligados à presença indígena na região, muitas vezes pouco estudada ou até esquecida, e ao papel do Museu de Arqueologia Indígena Antônio Adauto Leite (MUARI) como espaço de resgate”, completa.
Acesse o material do projeto em Tributo e memória: O Museu de Arqueologia Indígena Antônio Adauto Leite (MUARI), localizado no Sul de Minas Gerais
(Fotos: Arquivo/Júlia Mendonça)


















