Pintura do sempre inacabado

Atualizado em 26/08/2026 08:28

Armadilhas é o novo livro de contos de Luiz Ruffato, escritor mineiro nascido em Cataguases, mundialmente famoso e – disso poucos sabem – trabalhou como jornalista em Alfenas no ano de 1984. O título aparece pela primeira vez na epígrafe, extraída de um poema de Ferreira Gullar: “No mundo há muitas armadilhas/ e o que é armadilha pode ser refúgio/ e o que é refúgio pode ser armadilha”.

São dois os mundos evocados nos contos: o Brasil da ditadura militar (1964–1985), espaço e tempo em que se passa a primeira parte do livro, intitulada “O assombro dos dias”; e o itinerário de Dório Finetto, parte que recebe o título “Um buquê de flores artificiais”, em referência a Flores Artificiais, livro de Ruffato que contém as histórias narradas pelo mesmo personagem.

Os contos amarram-se justamente nesta armadilha/refúgio mencionada por Gullar. Na primeira parte, ambientada no Brasil, experiências de operários, famílias comuns, um ex-jogador de futebol etc. Na segunda, Dório Finetto relata algumas andanças pelo planeta. Sempre meio desajustadas, um pouco fora do lugar, as personagens. Ora refúgio, ora armadilha. Nos dois casos, Ruffato consegue ser comovente de um modo que só a boa literatura proporciona — aos moldes da máxima de Décio Pignatari: a poesia não diz ser, a poesia simplesmente é.

Assim, quando Sarah, a protagonista do conto “O presente de Sarah”, oferece a Dório um presente após o jantar, somos sublimemente transportados para dentro da história. Basta que fechemos os olhos e sintamos a Suíte nº1 para Cello Solo, de Bach. Refúgio. Ou quando deparamos com a encruzilhada em que se meteu o jovem guerrilheiro — tudo indica que ele será pego — do conto “A missão”. Os pensamentos patéticos do desespero de Abel, diante da possibilidade de não mais falar com os pais ou de não poder se desculpar pela ausência de resposta à menina que certa vez lhe disse gostar dele, são realmente marcantes e nada forçados. Para se condoer do jovem, é preciso apenas ter humanidade e, como disse certa vez o autor do Poema Sujo, a capacidade de se compadecer de quem está tomando porrada. Armadilha.

É notável a jocosidade com que Rufatto consegue tematizar aspectos da ditadura, como no conto “Sausalito”, nome do estádio no Chile em que o Brasil jogou quatro partidas na campanha do bicampeonato mundial (1962), incluindo uma contra a Inglaterra, que gerou o nome do cachorrinho a que se refere o título. Ele tinha uma “[…] birra incompreensível contra fardas”. O que se segue é de uma verossimilhança assustadora quando recordamos fatos daquele período histórico, em que muitas vezes a estupidez foi a ordem do dia:

Certa feita, Sausalito chegou a dispersar uma marcha de recrutas do tiro-de-guerra que
desfilava pela nossa rua. Sem que percebêssemos, Sausalito avançou entre os soldados tentando
morder suas pernas. Ainda que protegidos por coturnos, alguns se assustaram e saíram de
formação, causando enorme rebuliço. O pai conseguiu atraílo de volta para casa e colocou-o de
castigo. Isso, no entanto, não impediu que fosse chamado ao quartel, onde levou uma
descompostura — o tenente acusava Sausalito de tentar desmoralizar as Forças Armadas, dizem
que seus gritos podiam ser ouvidos da calçada em frente. O pai suou para convencê-lo de que
nosso cachorro não era um vil subversivo, mas apenas um cidadão inconsciente de seus deveres
para com a pátria. Desmoralizar as Forças Armadas. Um cachorro. Com mordidinhas por sobre os
coturnos.

As inferências são deixadas ao leitor. Apesar de as histórias pertencerem a um tempo passado, a sensibilidade delas se faz atemporal, mesmo nas narrativas ambientadas em tempos mais próximos. Em “O perdedor profissional”, Mrs. Tenley, uma inglesa, está em processo de separação, pois seu marido, Gerald, é viciado em apostar. Ela se encontra com Dório Finetto dentro da balsa quando retorna a Hong Kong, depois de ter viajado a Macau, e sente-se à vontade para narrar seu drama em decorrência de uma tênue — ou inexistente — semelhança do narrador cosmopolita com seu filho. Em resumo, a inglesa conta que, apesar de evangélicos fervorosos, haviam entrado, durante umas férias, num cassino em Lisboa. O marido jogara dez libras, convertidas em euros, no blackjack,  acumulando muitas fichas; pouco antes de encerrar a noite, resolvera perder aquele dinheiro que “não lhe pertencia” — segundo os ditames da religião – apostando tudo no número 15, dia do aniversário de Mrs. Tenley; por “azar”, multiplicou seu dinheiro. Continuou jogando e ganhando. Aquela noite seria a desculpa para todas as suas próximas derrotas, que Mrs. Tenley narra em detalhe a Dório Finetto, até o desfecho em que o vício do jogo, nascido de modo inocente e casual, destruía seu casamento. Gerald, de família metodista, vivera uma vida inteira de privações; seu “primeiro contato com a malícia” causara sua perdição.

Luiz Ruffato chama sua prõpria ficção de “realismo capitalista”, fazendo uma brincadeira séria com a política jdanovista do realismo socialista, da época de Stálin, doutrina que preconizava uma literatura promotora do heroísmo operário e camponês, preponderando uma narrativa do coletivo em detrimento da história individual de personagens marcadamente burguesas – ou puramente humanas. Em outras palavras, uma literatura panfletária. No Brasil, para compreendermos as proporções que essa doutrina tomou, o núcleo do PCB do qual Graciliano Ramos participava, após ler o capítulo de Vidas Secas em que Fabiano se reencontra com o “soldado amarelo”, pediu que o escritor alagoano mudasse a passagem: em vez de Fabiano apresentar o caminho da cidade ao soldado, que surrasse o representante da ordem burguesa corrupta. É claro que  o Velho Graça jamais aceitaria que mexessem na sua história; recusou a sugestão, assim como recusou que alterassem, no roteiro de uma adaptação de São Bernardo, o suicídio de Madalena – também para se adequar à doutrina do Partido.

A escrita de Ruffato é “realista capitalista” no sentido de ter um foco precípuo nas personagens, que, por sua vez, são afetadas pelo mundo. Sem deixar de lado a linguagem bem lapidada, Ruffato faz em Armadilhas uma passagem pelo real por meio desses indivíduos que trazem consigo uma história muito mais carregada de sentido do que teria uma narrativa “objetiva” do coletivo. Como disse o escritor em entrevista ao jornal Rascunho, seu trabalho busca: “[…] ampliar o sedutor jogo entre narrador e leitor. Assim, a ficção consegue ser mais real que o real da realidade externa”. Quão mais real é a nossa Mrs. Tenley quando passa de mera abstração de um mundo em descompasso para a pena — figura de linguagem, pois Ruffato escreve sempre ao computador — desse cataguasense mundialmente conhecido.

Formalista convicto e coerente, Ruffato cumpre em Armadilhas seu objetivo de aproximar o leitor do Outro, mimetizando ficcionalmente a complexidade do espaço em que vivemos e subjetivando os acontecimentos históricos, sejam do passado brasileiro ou do mundo lá fora. Cada personagem do livro é uma pincelada a mais dessa pintura inacabada que é a humanidade.

Título original: Armadilhas
Autor: Luiz Ruffato
Gênero: Contos
Ano da edição: 2026
Páginas: 168
Editora: Companhia das Letras
Onde encontrar: site da Editora Companhia das Letras e em lojas online

João Malbec Franco Lacaz Ruiz é discente do curso de História da UNIFAL-MG. Ilustrou recentemente o livro de poemas Deus e o espantalho do professor titular da UNIFAL-MG, Eloésio Paulo. Além disso, desenvolve pesquisa das relações entre História e Literatura.

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