Por que o ser humano pergunta?

Atualizado em 15/07/2026 10:59

Representação do ato de perguntar como caminho para a reflexão e para a aprendizagem. (Imagem gerada por IA a partir de descrição jornalística, com revisão e supervisão da Dicom/UNIFAL-MG)

Esta é, sem dúvida, uma boa pergunta: por que fazemos perguntas? Os seres humanos utilizam as interrogações para interagir, compreender e descobrir a realidade em diferentes dimensões de mundo, favorecendo a aprendizagem e o senso investigativo, ampliando seu conhecimento. Essa habilidade de questionar, indagar, se desenvolve já na infância, pois é inata. Perguntar é a forma que o cérebro tem de responder a uma demanda cognitiva natural do ser humano. O não-saber nos incomoda e até causa distúrbios fisiológicos, como aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, mau humor, ansiedade e desconforto geral. A maneira que o cérebro tem de lidar com isso é perguntar. Além disso, perguntar estabelece relações com o ambiente em que vivemos. Logo, interrogar não é apenas um recurso gramatical, mas é uma forma de construir relações sociais, possibilitando diálogo e troca de experiências. Sob essa perspectiva, a interrogação acaba contribuindo para a formação do pensamento reflexivo e para a capacidade de analisar criticamente a realidade. Questionar é um dos principais caminhos para a construção da nossa cognição e das inteligências geral e específicas em suas muitas formas, tornando a pergunta um instrumento indispensável para o desenvolvimento humano.

Portanto, a interrogação desempenha um papel essencial na nossa vida, uma vez que é por meio das perguntas que desenvolvemos o pensamento, ampliamos o conhecimento, solidificamos nossa visão do mundo e fortalecemos nossas relações com os outros. Por isso, é importante compreender não apenas o conceito e a estrutura da interrogação enquanto ato linguístico, mas também sua função como “ato de fala” e como prática social. Ato de fala é um termo técnico da Linguística para denominar as coisas que fazemos com a linguagem, como prometer, mentir e perguntar, entre tantas outras.

Conceitualmente, a interrogação pode ser compreendida como um enunciado linguístico ou não linguístico utilizado principalmente para obter informações, esclarecer dúvidas, estimular a reflexão de quem participa da comunicação e até para “puxar conversa”. Normalmente, ela se apresenta na forma de frase interrogativa e é identificada por características próprias da linguagem, como a entonação específica de interrogação, no caso da fala, ou o emprego do ponto de interrogação, na escrita. E a resposta que se espera será associada aos sentidos definidos na realidade. Porém, há outras formas de perguntar.

A pergunta direta é identificada por características próprias da linguagem, como uma entonação ascendente em algum ponto da fala. Mas, a interrogação não se limita somente à linguagem verbal e pode manifestar-se por meio dos sentidos das palavras (Preciso descobrir quem fez isso…), como a visão (o jeito como olhamos para nosso interlocutor pode indicar que queremos alguma informação), o olfato (sabe quando chegamos em casa na hora do almoço e ficamos cheirando o ar, tentando descobrir o que está na panela?), o tato (quando tocamos em algo buscando compreender sua textura ou mesmo do que se trata) e a audição (quando deixamos claro que estamos prestando atenção em algum barulho para descobrir sua origem), são, todas essas, formas que agir que despertam nas outras pessoas a sensação de que estamos perguntando algo. Logo, um cheiro desconhecido, um som incomum, uma textura diferente ou uma imagem inesperada podem despertar questionamentos mesmo que não venham a ser expressos em palavras. Dessa forma, o ato de interrogar ultrapassa a comunicação verbal e a escrita, constituindo-se como uma forma de interação com o mundo e de construção contínua do conhecimento.

Claro que as perguntas exercem um papel fundamental, muito mais amplo do que simplesmente obter respostas. Elas fazem parte das interações sociais e influenciam a maneira como as pessoas se comunicam, aprendem e constroem suas  relações. Questionar pode favorecer o diálogo, incentivar a reflexão e contribuir para o desenvolvimento do pensamento. Além disso, por si sós, a curiosidade e a busca por respostas são fundamentais no processo de aprendizagem, pois estimulam a busca pelo conhecimento e tornam os indivíduos mais participativos, conscientes e preparados para enfrentar os desafios da sociedade.

Felizmente, o ato de interrogar nem sempre resulta em respostas definitivas, o que é ótimo, uma vez que a compreensão do tema pelo indivíduo não se encerrará com a primeira explicação recebida. Ao contrário, cada resposta tende a despertar novos questionamentos, tornando o conhecimento um processo contínuo e infinito de construção. É uma pena que aquele famoso fenômeno que pode ser observado nas crianças, a fase dos “por quês?”, acaba passando… Adultos tendem a perguntar menos e a se contentar mais facilmente com respostas parciais e, até mesmo, erradas sobre algo. Parar de perguntar é indicativo de diminuição na atividade cognitiva e no interesse pelo mundo e suas explicações. Assim, adultos tendem a se ligar menos no que é novo, ao passo que as crianças, por meio de suas perguntas, vão adquirindo cultura, compreendendo valores e costumes, ampliando sua visão do mundo e aprendendo em uma velocidade inacredtitável.

Então, mesmo que você ache que sua pergunta será considerada “simples” ou “boba”, saiba que, se ela é fruto de um interesse genuíno em aprender, ela representa uma tentativa genuína de compreender a realidade, já que o conhecimento é construído gradualmente e ninguém nasce sabendo tudo – aliás, nascemos sabendo quase nada além de chorar, comer e fazer nossas necessidades… Dessa forma, toda pergunta que não seja feita como uma afronta ética possui importância no processo de aprendizagem, pois revela dúvidas, interesses e necessidades genuínas de compreensão. Ou seja, não tenha vergonha de perguntar, desde que sua pergunta seja um ato real de busca de saber. E isso porque sim: o ato de perguntar contempla uma ética social. Há coisas que são de nossa conta e outras que não nos cabe perguntar; há perguntas adequadas e perguntas inconvenientes, assim como horas e locais mais adequados para perguntar. Mas, aprender essa ética nos mostra que ainda há muito espaço para fazer boas perguntas, nos momentos e lugares adequados para isso – e, portanto, há muito espaço para aprender.

Enfim, o ato de perguntar conduz o indivíduo a um território ainda inexplorado, marcado pela incerteza, mas também pela descoberta. Cada pergunta representa um passo em direção ao desconhecido, enquanto as boas respostas iluminam esse percurso, transformando aquilo que era obscuro em um caminho contínuo e prazeroso de construção pessoal e coletiva.

*Este texto é uma síntese do trabalho de conclusão da disciplina de TCC do curso de bacharelado em Letras – Língua Portuguesa, intitulado “A pergunta e a aquisição de conhecimento: por que o ser humano pergunta”, desenvolvido por Cecília Maria Oliveira, sob a orientação do professor Celso Ferrarezi Junior. O trabalho completo pode ser acessado no Repositório Institucional, neste link

Cecília Maria de Oliveira é estudante do curso de Letras – Bacharelado, dedicando-se ao estudo da linguagem, da literatura e dos processos de construção textual. Seu interesse abrange desde a análise crítica de obras clássicas e contemporâneas até das relações entre discurso, estética e sociedade. Ao longo de sua trajetória acadêmica, tem buscado aprofundar-se em teorias literárias, práticas de leitura e escrita, além de desenvolver reflexões sobre os elementos que compõem a narrativa e suas múltiplas interpretações.

Celso Ferrarezi Junior é professor titular de Semântica do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG.

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