Ian Curtis e Joy Division: uma jornada musical retratada em Control

Ian Curtis, vocalista do Joy Division. (Crédito: reprodução)

Alguns artistas passam pela vida como um furacão! Assim foi com a santíssima trindade do classic rock — Jimi, Janis e Jim — nos anos 70; com Cazuza, Kurt e Renato, na década de 90; e com Amy em 2011. Além da juventude, essa turma tinha o talento, a criatividade e a irreverência em comum. Mas outro artista, muito mais underground que os citados acima e não tão conhecido fora das cenas pós-punk e gótica, deixou uma marca permanente na cena musical britânica e influenciou uma geração de jovens. Quem? Ian Curtis, da banda Joy Division.

Um jovem poeta — fã de Bowie, Reed e Iggy — que, com a mesma rapidez, chegou e partiu. Mesmo dividindo o tempo com empregos desestimulantes e um casamento “infeliz”, Curtis encontrou no Joy Division, um escape para a sua inconstância. E, como aquilo que “marca” se transforma em arte, o filme Control, de Anton Corbijn, é a biografia da vida e morte de Ian Curtis. Lançado em 2007 e rodado em preto e branco — realçando a estética “dark” das músicas do Joy Division —, pode ser considerado um filme cult, assim como a banda. Afinal, não ouvimos Transmission, She’s Lost Control ou Love Will Tear Us Apart na ceia de Natal!

Joy Division lançou apenas dois álbuns: Unknown Pleasure e Closer. Still e Substance são coletâneas com, basicamente, singles e músicas ao vivo. (Crédito das Imagens: Factory Records)

A última, notadamente uma das músicas mais tristes da história, principalmente ao associarmos a letra à vida do seu autor. Os versos iniciais — “Quando a rotina corrói fortemente / E as ambições são reduzidas / O ressentimento aumenta / Mas as emoções não crescem / E vamos mudando nossos caminhos / Pegando estradas diferentes” —, mostram que, para Curtis, o amor era de dilacerar.

Em apenas dois discos, Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980) — sem considerar singles e coletâneas —, o Joy Division abraçou a melancolia e o existencialismo da juventude britânica do final dos anos 70. Para situar o grupo em um movimento musical, considera-o entre os precursores do gênero “pós-punk”, que, como o próprio nome sugere, representou um afastamento de elementos musicais e estéticos — ritmo, letras e atitude — do punk rock.

Diante da escassa obra da banda, um filme como Control é ainda mais interessante, pois transpõe, de forma imagética, a essência da música poética e dolorida que, na década seguinte, seria inspiração para um movimento que unia sonoridade, letras, visual sombrio e expressões tristonhas: o rock gótico.

No Brasil, a influência do Joy Division foi marcante no underground dos anos 80. Como referência, nos primórdios da Legião Urbana, o vocalista Renato Russo foi inspirado pela profundidade das letras e pela própria performance de Curtis. E há quem diga que a Legião bebeu muito mais na fonte do Joy Division. Eu mesmo, que tenho uma companheira fã da banda, já ouvi: “Nossa! Isso parece Legião Urbana”. Mas, nesse caso, a ordem dos fatores altera o produto.

Sam Riley viveu Ian Curtis em Control. (Foto: Reprodução)

Control soa como uma homenagem à vida e à obra do artista que se enforcou em 18 de maio de 1980. Mas, ao contrário de toda vida e obra, não há “altos e baixos” no filme. Isso se reflete tanto nas reproduções de performances ao vivo do Joy Division quanto no retrato das crises epilépticas e da rotina laboral e familiar de Ian Curtis. O filme foi premiado na Grã-Bretanha como melhor filme britânico independente, melhor diretor e melhor ator para Sam Riley, que incorporou a pele e a essência de Curtis. O roteirista Matthew Greenhalgh levou o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts), em 2008.

A direção de Anton Corbijn acertou na escolha do ator que reviveu Curtis. Riley foi vocalista da banda 10,000 Things e, se você reparar bem, o artista apresenta traços claros de inspiração no Joy Division. Control foi a primeira produção cinematográfica de Corbijn, mas ele, hoje com 70 anos, já era conhecidíssimo por suas fotografias em preto e branco de artistas como David Bowie, Miles Davis, Johnny Cash, Kurt Cobain e U2, entre outros. Além disso, assinou a direção de videoclipes como Enjoy the Silence (1989), do Depeche Mode; Headhunter (1988), do Front 242; e Electric Storm (2002), do U2. Portanto, as lentes do fotógrafo e cineasta neerlandês estavam mais o que habilitadas para registrar a breve vida e obra de Ian Curtis.

Após o suicídio de Curtis, seus companheiros de banda Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris não continuaram com o Joy Division e fundaram o New Order. No começo, a proposta musical se aproximava do trabalho anterior, porém, a nova banda deixou o lado “down”, e conquistaram as pistas com a emergente música eletrônica. Algumas músicas, como Blue Monday e Bizarre Love Triangle, tornaram-se hits, e o New Order alcançou sucesso mundial e entrou para história da música.

No próximo 18 de maio, a morte de Curtis completa 46 anos e o filme está quase chegando aos 19. A banda continua como referência de muitos artistas e é ouvida por muita gente. Para se ter uma base, no Spotify são cerca de 4,5 milhões de ouvintes mensais. Só a faixa Love Will Tears Us Apart foi reproduzida mais de 528 milhões de vezes. Para leitura, as opções são variadas, entre elas, Unknown Pleasures: Inside Joy Division, livro do baixista Peter Hook.

Muitas vezes, é possível separar o músico da banda  — fazer um recorte —, mas no caso do Joy Division, é impossível! Curtis é a alma do grupo. Control mostrou o nascimento de um ícone que queria ser como Jim Morrison e David Bowie. Ao final, como despedida, emociona com a imagem em preto e branco da chaminé do crematório expelindo fumaça ao som de  Atmosphere. É Curtis ganhando o infinito, como sua música…

Título: Control
Direção: Anton Corbijn.
Gênero: drama biográfico
Classificação: 14 anos
Ano: 2007.
Duração: 122 minutos.
Onde assistir: Mubi

 

Ivanei Salgado é  jornalista, produtor cultural, mestre em Gestão Pública e Sociedade; especialista em Comunicação Empresarial e Marketing e em Projetos Sociais; e graduado Comunicação Social – Jornalismo e  em Administração Pública. Atualmente está como Diretor de Comunicação Social da UNIFAL-MG.

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