Pesquisa sobre percepção ambiental apresentada no campus Varginha aponta alta preocupação com o meio ambiente, mas engajamento coletivo ainda é limitado

Estudo desenvolvido pelo grupo OIKOS em Poços de Caldas e Varginha identificou diferenças por idade, gênero e hábitos cotidianos

Atualizado em 09/04/2026 14:08

O professor José Roberto Porto de Andrade Jr., coordenador do estudo, junto às orientandas Ana Beatriz Figueiredo Barbosa, Ariane Rodrigues de Andrade e Raíssa Aline Pereira - integrantes do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) e do grupo OIKOS. (Foto: Arquivo/Grupo OIKOS)

Dados do estudo Atitudes e ações pró-ambientais em Poços de Caldas e Varginha, pesquisa de opinião realizada pelo grupo OIKOS da UNIFAL-MG e apresentados no campus Varginha no dia 31 de março, revelam um cenário em que a preocupação com questões ambientais é generalizada, mas o engajamento efetivo é desigual – e as diferenças se tornam mais nítidas quando analisadas de acordo com geração, gênero e tipo de comportamento investigado.

No evento, as pesquisadoras Ariane Rodrigues de Andrade, Raíssa Aline Pereira e Ana Beatriz Figueiredo Barbosa – integrantes do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da UNIFAL-MG e do grupo OIKOS – contextualizaram os dados do estudo, que alimentam seus respectivos projetos de pesquisa de pós-graduação.

Preocupação ambiental cresce com a idade, mas ações variam

Ariane Rodrigues de Andrade – doutoranda em Ciências Ambientais e integrante do grupo OIKOS durante a apresentação dos dados. (Foto: Arquivo/Grupo OIKOS)

Ariane Andrade, pedagoga e doutoranda em Ciências Ambientais, conduziu a análise focada nos respondentes idosos. Os dados indicam que a preocupação com o meio ambiente aumenta conforme a idade. Entre pessoas com 60 anos ou mais, 56% se declaram “muito preocupadas”, percentual superior ao de faixas mais jovens.

Conforme a pesquisadora, essa preocupação não se reflete de forma homogênea nas ações, uma vez que percepção, atitude e comportamento são dimensões distintas do engajamento ambiental.

“Existe um nível elevado de preocupação, mas as atitudes e os comportamentos não seguem um padrão equivalente”, analisa.

“O desafio está em viabilizar essas ações e em possibilitar que o público idoso reconheça sua inserção nos espaços públicos”, afirma Ariane Andrade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para a pesquisadora, esse padrão está relacionado às formas de envelhecimento descritas pela literatura, que aponta uma reorganização das formas de participação social na velhice, com maior centralidade em práticas próximas do cotidiano.

Além disso, fatores estruturais como renda, escolaridade e acesso à informação também condicionam as possibilidades de engajamento.

É a partir desse diagnóstico que se estrutura a segunda fase da pesquisa de doutorado de Ariane, relacionado ao desenvolvimento de estratégias de educação ambiental voltadas especificamente para a população idosa, com foco na ampliação da participação pró-ambiental na esfera pública.

“O desafio está em viabilizar essas ações e em possibilitar que o público idoso reconheça sua inserção nos espaços públicos, compreendendo que essa participação também se constitui como um direito”, argumenta.

Mulheres lideram ações pró-ambientais, mas seguem sub-representadas na política formal

Raíssa Aline Pereira – mestranda em Ciências Ambientais e integrante do grupo OIKOS durante a apresentação dos dados. (Foto: Arquivo/Grupo OIKOS)

A engenheira ambiental Raíssa Pereira, mestranda em Ciências Ambientais com pesquisa sobre dinâmicas socioambientais e mudanças climáticas, apresentou o recorte de gênero da pesquisa. Os dados apontam que as mulheres estão entre os respondentes com maior nível de preocupação ambiental. Também são elas que relatam, em maior proporção, ter sido afetadas por eventos climáticos extremos nos últimos 12 meses.

Na esfera privada, as mulheres lideram em praticamente todas as ações investigadas: separação de lixo para reciclagem (84,8% contra 81,5% dos homens), consumo consciente (56,8% contra 47,5%), economia de água na residência (95,6% contra 92,4%), consumo de carne por motivação ambiental (27,4% contra 18,2%) e consumo de alimentos orgânicos (66,7% contra 65,5%). Os homens ficam à frente apenas em ações ligadas ao uso do automóvel.
Na esfera pública, a diferença também favorece as mulheres: elas apresentam maiores percentuais em participação em manifestações ambientais, grupos de proteção, petições, voto ambiental e compartilhamento de informações sobre o tema.

As mulheres serem mais engajadas nas ações pró-ambientais, tanto da esfera pública quanto da esfera privada, não é uma novidade porque a gente consegue analisar esse mesmo padrão em outras pesquisas, inclusive internacionais”, observa Raíssa Pereira.

As mulheres serem mais engajadas nas ações pró-ambientais, tanto da esfera pública quanto da esfera privada, não é uma novidade”, observa Raíssa Pereira. (Foto: Arquivo Pessoal)

A pesquisadora, no entanto, alerta para uma leitura crítica desse padrão. Parte do maior engajamento feminino na esfera privada pode estar associada à divisão sexual do trabalho doméstico. Segundo ela, ao serem as principais responsáveis pelo preparo de alimentos, pela compra de produtos e pela gestão dos resíduos, as mulheres incorporam práticas pró-ambientais como extensão dessas tarefas cotidianas.

“Talvez pelo fato das mulheres desenvolverem mais atividades que estão relacionadas ao uso da água, isso faça com que elas economizem mais água. Talvez por serem responsáveis, muitas vezes, pelo preparo dos alimentos, isso se relacione também com a gestão dos resíduos da residência, pela compra de produtos para o mercado, farmácia, até mesmo utensílio eletrodoméstico”, comenta.

Esse aspecto, sublinha a pesquisadora, precisa ser analisado com cuidado, pois está enraizado em processos culturais e de socialização de gênero e não em uma suposta predisposição natural feminina para o cuidado ambiental.

Conforme Raíssa Pereira, o contraste se torna mais evidente quando a análise se volta para os espaços da política formal. Apesar do maior engajamento nas ações coletivas não institucionais, como movimentos sociais e organizações da sociedade civil, as mulheres continuam sendo minoria nos parlamentos, prefeituras, ministérios e em especial nas áreas diretamente ligadas à exploração de recursos naturais, como energia, mineração e agronegócio.

Cultivo doméstico fortalece consciência ambiental

Ana Beatriz Figueiredo Barbosa – mestranda em Ciências Ambientais e integrante do grupo OIKOS durante a apresentação dos dados. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Beatriz Figueiredo Barbosa, também mestranda em Ciências Ambientais, apresentou os resultados relacionados ao cultivo residencial de plantas. A pesquisa mostrou que 77% dos entrevistados afirmaram cultivar algum tipo de planta em casa, dado que evidencia a relevância dos espaços residenciais como os quintais na manutenção de práticas ligadas à segurança alimentar e aos saberes tradicionais.

Entre os que cultivam, as plantas ornamentais lideram com 85% de adesão, seguidas pelas medicinais (67%), hortaliças (56%), frutíferas (55%) e aromáticas (51%). As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) aparecem em 36% das respostas. A diversidade de espécies cultivadas, conforme avalia a pesquisadora, evidencia a multifuncionalidade dos quintais, que atendem a necessidades de alimentação, saúde e cultura.

A análise cruzada dos dados revelou uma associação entre o cultivo de plantas e a consciência ambiental. Quem cultiva tende a apresentar maior preocupação com o meio ambiente e com os impactos das mudanças climáticas, embora o cultivo não seja, por si só, o fator determinante dessa conscientização.

Na relação entre cultivo e consumo de alimentos orgânicos, o estudo encontrou uma assimetria significativa: entre os que cultivam plantas, 71% também consomem alimentos orgânicos ou agroecológicos; entre os que não cultivam, esse percentual cai para 49%. Para Ana Beatriz, esse dado reforça que o cultivo doméstico não é uma prática isolada, mas integra um conjunto mais amplo de hábitos sustentáveis.

“O cultivo doméstico está inserido em um conjunto maior de hábitos sustentáveis e não é uma prática isolada”, afirma Ana Beatriz Barbosa. (Foto: Arquivo Pessoal)

“O cultivo doméstico está inserido em um conjunto maior de hábitos sustentáveis e não é uma prática isolada”, afirma Ana Beatriz Barbosa.

A pesquisa também mapeou as dificuldades para o consumo de orgânicos. De acordo com o levantamento, 79% dos respondentes apontaram a disponibilidade como principal barreira, seguida pelo preço (72%). A qualidade dos produtos apareceu como obstáculo apenas para 11%, dado que, segundo a pesquisadora, reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao acesso e à distribuição desses alimentos.

Apesar das barreiras, 66% afirmaram consumir alimentos orgânicos ou agroecológicos, e 79% dos que não consomem gostariam de ampliar esse consumo.

“A pesquisa reforça que o cultivo doméstico vai além da produção de alimentos. Ele é uma prática que contribui para a conscientização ambiental, para a autonomia das famílias e para a construção de hábitos mais sustentáveis”, ressalta Ana Beatriz Barbosa.

Sobre a pesquisa

Financiado pela FAPEMIG, o estudo Atitudes e ações pró-ambientais em Poços de Caldas-MG e Varginha-MG (2025) é coordenado pelo professor José Roberto Porto de Andrade Jr., do Instituto de Ciências Aplicadas (ICSA), em parceria com os professores Tom Rodrigues e Fernando Batista, também do ICSA, do professor Francisco José Cardoso, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), e do professor Leandro Amorim Rosa, da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Os trabalhos são desenvolvidos pelos grupos de pesquisa OIKOS da UNIFAL-MG e Núcleo de Estudos, Extensão e Pesquisa Psicossocial Euclides Fernandes Távora (NEPSE) da Ufac.  Ao todo, foram realizadas 800 entrevistas entre agosto e dezembro de 2025: 400 em cada município, com foco na população urbana acima de 16 anos. O grau de confiança é de 95% e margem de erro de 4,9%.

Acesse o Sumário Executivo do levantamento.

Os microdados estão disponíveis para consulta pública e podem ser solicitados ao coordenador, pelo e-mail jose.junior@unifal-mg.edu.br.

Leia também: Consciência ambiental cresce na região, mas mobilização coletiva ainda é limitada, aponta pesquisa de opinião pública realizada pela UNIFAL-MG

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