Juan Montaño Escobar: uma das vozes representativas da literatura afro-hispânica-equatoriana contemporânea

Atualizado em 24/08/2026 11:11

Awòn tó mò iyánù òrìsà yío fórò sábè ahán sò
(Aqueles que conhecem os mistérios dos orixás falam com a língua pesada)

(Provérbio Yorùbá)

Juan Montaño Escobar, escritor e colunista, nasceu na cidade de Esmeraldas, uma província litorânea localizada no noroeste do Equador, banhada pelas águas do Pacífico, que faz fronteira com a Colômbia e que se destaca por possuir uma forte presença da cultura afro-equatoriana, além de ser famosa por suas praias e manguezais. Montaño, representa uma das vozes mais proeminentes da literatura afro-hispânica-equatoriana contemporânea, cuja obra, entre os diversos aspectos que se podem levantar, se destaca pelo vigor do seu texto e a forma poderosa de abordar a identidade, a memória e a resistência de seu povo, representando uma voz que ressoa, discursivamente, perante a auto enunciação negra do ontem, hoje e do amanhã, e que se insere nas margens acadêmicas dos estudos e discursos literários afro-hispânicos.

Contar, recontar, lembrar, relembrar, escrever, reescrever, são palavras que descrevem a rotina e maneira que o escritor afro-equatoriano tece as palavras em seus textos literários. E ainda mais quando se trata de “buscar a sabedoria ancestral para construir um futuro melhor” (Krenak, 2022), uma ideia de que o futuro é enraizado no passado e que dialoga também com muitos significados da representação do ideograma africano: o sankofa. Este símbolo gráfico-visual denota um conceito filosófico-cultural proveniente do povo Akan, grupo etnolinguístico da África Ocidental, localizado em Gana e na Costa do Marfim, cuja singularidade é a representação de um pássaro de cabeça voltada para trás (conferir imagem abaixo) e, em seu vértice, se pode afirmar que Juan Montaño alude e convida para conhecer a história equatoriana…

Adinkra africano: Sankofa. (Imagem: Reprodução/Wikipedia)

Juan Montaño é conhecido como “el jazzman” por sua capacidade de sonorizar tambores ancestrais com beats contemporâneos e assim compor um novo som, ou melhor, tecer uma nova literatura. A escrita de Montaño é um compromisso de resistência étnica e também de memória negra vinculada à literatura afro-hispano-americana. Seus escritos ressoam com aquilo que Shirley Campbell, ativista e poetisa afro-costarriquenha, chama o “canto da liberdade” (1998) ou a “canção da dignidade e da identidade”, que a crítica literária associa ao seu famoso poema “Rotundamente negra” (1994), e às suas obras publicadas no final da década de 90. Na abordagem desta perspectiva, considera-se a recusa em rejeitar a própria voz ou o próprio corpo que envolve a ancestralidade e o enfrentamento de uma sociedade racista, assim como de transformar traços físicos marginalizados (como boca grande ou cabelo crespo) em sinônimos de beleza e orgulho, e também a quebra do silêncio no sentido de rejeitar a posição histórica de submissão no mundo. Portanto, a obra de Montaño, se vincula à visão precedente enquanto modo implícito que contempla um enunciado de libertação das narrativas coloniais postas na construção do Equador.

Por conseguinte, esse é o som que paira nos seus contos: abordar a liberdade do povo afro-equatoriano. O próprio autor, por exemplo, ao se referir à marimba, instrumento musical parecido com o xilofone, num artigo intitulado “Al Ritmo de Marimba” (2002), diz que se trata de um som alegre que está presente em todas as celebrações da cultura afro-esmeraldina, e acrecenta:

A primeira vez que uma marimba ressoou nestas terras — que mais
tarde viriam a ser o Equador — deve ter sido em um remoto
‘palenque’
[*sítio escondido ou povoado] na selva, na calada da
noite, durante uma vigília dedicada aos espíritos mais musicais.
Celebrava-se a liberdade; os africanos desfrutavam daquela
apresentação inicial da marimba, tingida de nostalgia, antes de
darem início a um encontro ritual. Eles perceberam que seus
escravizadores haviam fracassado em matar o continente de música
reprimido em seus corpos. Aqueles sons davam forma tangível à
emancipação do intelecto do ‘cimarrón’
[*nome dado ao
afrodescendente escravizado que tinha escapado do cativeiro colonial].

O livro “Así se compone un son, Volume II: cuentos” (2008), que abordaremos,  publicado pelo Ministério da Cultura do Equador (2008), se caracteriza por uma narrativa contemporânea do Equador, explorando a cultura, a identidade e as vivências afrodescendentes com um forte vínculo rítmico e popular que explora a cultura, ancestralidade e o cotidiano afro-latino-americano, incorporando referências musicais como o bolero e o jazz para retratar a identidade e as vivências das comunidades afrodescendentes, mas também aborda temas ligados à negritude e de releitura de discursos históricos.

Sendo todos os contos muito instigantes, há um chamou nossa atenção intitulado: El último carajo del general (“O último caralho do general”). O conto narra a história de Silverio Macondes, um negro liberto e sua empreitada na chamada Revolução Liberal do Equador (1895-1912). A história conta a entrada forçada de Silverio Macondes na guerra liberal, assim como sua relação com o General Eloy Alfaro personagem factual ; também a participação da população negra nas revoluções da independência e pós-independências; a negação dos direitos sociais básicos à população negra; a enganação política dos liberais equatorianos com a população marginal (negros e indígenas); a desumanização que os soldados negros sofreram ao longo da narrativa historiográfica oficial e o apagamento da partipação negra na Revolução Liberal, aspectos vistos como sendo os grandes eixos temáticos do conto.

Ao longo do conto, fica em evidência a reconstrução da humanidade do sujeito negro, a resistência negra e a recomposição da história nacional do Equador. Assim, Montaño recompõe o compasso narrativo e o conto põe em destaque a ancestralidade afro-diaspórica:

Silverio Macondes, filho do liberto Melquíades Macondes,
construtor de nações e povos, guerreiro malinke segundo sei e não
esquecerei — mostrou a reverência combativa de suas credenciais
ancestrais

E mais adiante, denuncia o racismo estrutural em um diálogo com o Coronel Eloy Alfaro:

Quer que eu lhe diga um segredo, coronel? Somos os únicos que
compramos as coisas nesta República. Temos comprado a liberdade,
a terra, os nossos filhos e as armas para defendermo-nos também
temos comprado
.

Em outro trecho do conto, o autor realça que a resistência negra foi apagada da narrativa histórica nacional, e diz:

Eles eram a guerrilha mandinga que um historiador descreveu em
seus escritos, porém logo arrependido apagou-os para não lhe
endossar glória há uns negros vindos de onde não se sabia.

Esses são alguns momentos que “el jazzman” recompõe a letra, o ritmo, o compasso, a harmonia da narrativa histórica hegemônica do Equador. Segundo Montaño, em entrevista pessoal ao autor desta resenha, o nome da coletânea de contos é inspirado na música Así se compone un son do grupo Orquesta Revelación (Colômbia – 1973) do álbum de mesmo nome. A canção afirma que “para compor um som/ Necessita-se de um motivo/ E um tema construtivo/ E também inspiração”, ou seja, a criação de um bom som requer um motivo, um tema construtivo e inspiração criativa, se transformando em um alicerce significativo para o autor escreve sua literatura. O motivo? Recontar a história do Equador com o povo negro em evidência. Qual tema construtivo? Evidenciar as culturas afro-equatorianas. E a inspiração? Lutar e resistir, como o expressa o provérbio afro-equatoriano do Avô Zenón: “Lutamos para voltar a ser, de onde não havíamos sido”. No conto, a figura do avô Zenón simboliza a memória coletiva, a resistência e os saberes ancestrais das comunidades afrodescendentes. Ele atua como uma figura de autoridade moral e pedagógica — um velho ‘cimarrón’ — que transmite a história não oficial, a identidade e a consciência coletiva do povo negro diante do esquecimento estatal e das promessas revolucionárias não cumpridas.

Sobre Juan Montaño Escobar
(Imagem retirada do arquivo pessoal do escritor em seu perfil do facebook. https://web.facebook.com/juan.montanoescobar/photos)

Nascido em 8 de maio de 1955, Juan Montaño é engenheiro, jornalista, cronista, contista e participa do Movimento Negro do Equador.

Formado em Engenharia, Montaño é jornalista desde os anos 70 e dedica-se à literatura desde os anos 90. Seus trabalhos literários começaram a ser escritos por meio de um pseudônimo em um jornal local de Esmeraldas, sua cidade natal.

Ao final dos anos 90, lança seu primeiro livro de contos Así se compone un son, I e depois a segunda coletânea de contos Así se compone un son, Volume II (2008). Como escritor de romances, publicou El bisnieto cimarrón de F. Dzerzhinsky (2019) e Currulao de amores cimarrones (2025).

Título: Así se compone un son
Nome do autor (a): Juan Montaño
Gênero: Conto
Editora: Abya-Yala (Ministério da Cultura do Equador)
Ano: 2008 (1ª edição)
Páginas: 232
Onde encontrar: https://biblioteca.culturaypatrimonio.gob.ec/cgi-bin/koha/opac-imageviewer.pl?biblionumber=242375

Rafael da Silva Mendes é licenciando em Letras – Espanhol e Literaturas da Língua Espanhola na UNIFAL-MG. Foi bolsista CAPES do Programa de Intercâmbio Caminhos Americanos – Edição: Cabo Verde na Universidade de Cabo Verde (UniCV), em 2024. Possui pesquisas nas áreas de Literatura e Educação, com foco nas Literaturas Afro-Hispano-Americanas, Afro-Brasileiras e Literaturas Africanas de língua portuguesa e espanhola. Também é integrante desde 2022 do projeto de extensão “Leitura de imagens cinematográficas no contexto cultural étnico-racial”, tendo sido bolsista do PROBEXT- UNIFAL-MG. 

*O texto passou pela supervisão da curadoria, presidida pelo professor Ítalo Oscar Riccardi León, do curso de Letras. 

Participe do Jornal UNIFAL-MG!

Você tem uma ideia de pauta ou gostaria de ver uma matéria publicada? Contribua para a construção do nosso jornal enviando sugestões ou pedidos de publicação. Seja você estudante, professor, técnico ou membro da comunidade, sua voz é essencial para ampliarmos o alcance e a diversidade de temas abordados.

LEIA TAMBÉM