As náuseas que surgem antes mesmo de uma sessão de quimioterapia podem ter encontrado uma possibilidade complementar de manejo. Em ensaio clínico com 100 pacientes, pesquisa desenvolvida na UNIFAL-MG identificou efeito favorável da acupuntura auricular com sementes de Vaccaria sobre esse tipo de sintoma, chamado de náusea antecipatória.



O estudo integra a tese de doutorado de Eliza Mara das Chagas Paiva, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da UNIFAL-MG, sob orientação da professora Ana Cláudia Mesquita Garcia, da UNIFAL-MG, e coorientação da professora Caroline de Castro Moura, da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Na pesquisa, foi analisado o efeito da acupuntura auricular com sementes de Vaccaria. A técnica utiliza pequenas sementes fixadas com fita adesiva em pontos específicos da orelha, sem perfurar a pele. O estímulo ocorre por meio da pressão sobre as sementes, que também pode ser feita pelo próprio paciente ao longo do dia. A pesquisadora comparou a técnica com uma intervenção simulada, denominada sham.
O resultado favorável foi observado especificamente nas náuseas antecipatórias. Para as náuseas e os vômitos ocorridos após a quimioterapia e para os vômitos antecipatórios, a análise principal não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Segundo Eliza Paiva, as náuseas antecipatórias podem estar relacionadas, entre outros fatores, a experiências negativas vivenciadas em ciclos anteriores de tratamento. Cheiros, imagens, sons ou até a aproximação do ambiente hospitalar podem desencadear esse tipo de resposta.
“Trata-se de uma manifestação complexa, subjetiva e de difícil manejo, que tende a responder menos satisfatoriamente ao tratamento farmacológico”, explica.
Para a pesquisadora, encontrar um possível benefício de uma intervenção não farmacológica, pouco invasiva e de baixo custo é relevante porque as náuseas e os vômitos antecipatórios são pouco explorados nos ensaios clínicos da área, que costumam se concentrar nos sintomas ocorridos após a administração da quimioterapia.
Como a pesquisa foi realizada
Participaram do estudo 100 adultos com câncer em tratamento quimioterápico no Centro de Oncologia da Santa Casa de Alfenas que apresentavam náuseas e/ou vômitos. Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos, com 50 participantes em cada um: um recebeu a acupuntura auricular com sementes de Vaccaria e o outro, a intervenção simulada. Os participantes não sabiam a qual grupo haviam sido destinados.
“A acupuntura auricular foi estudada como uma intervenção complementar, e não como substituta do tratamento convencional”, ressalta Eliza Paiva.
No grupo de acupuntura auricular, foram realizadas cinco sessões, uma por semana. As sementes permaneciam fixadas na orelha por até sete dias, e os participantes eram orientados a pressioná-las durante cerca de 30 segundos, três vezes ao dia, e também quando apresentassem náuseas ou vômitos.
No grupo simulado, foram utilizados pequenos dispositivos semelhantes às sementes, aplicados em pontos da orelha não relacionados, pelo protocolo da pesquisa, ao tratamento de náuseas e vômitos.
Os participantes foram avaliados antes do início das intervenções, sete dias após a quinta sessão e novamente 15 dias depois. Na primeira avaliação após o término das aplicações, a evolução das náuseas antecipatórias foi diferente entre os grupos, com resultado favorável à acupuntura auricular. Na avaliação realizada 15 dias após a última sessão, essa diferença já não permaneceu estatisticamente significativa.
Análises complementares realizadas em cada momento de avaliação também apontaram menor ocorrência de náuseas antecipatórias entre os participantes que receberam a acupuntura auricular. A pesquisadora ressalta, porém, que esses resultados devem ser interpretados como complementares à análise principal do estudo.
Quanto à segurança, não foram identificados eventos adversos graves. A dor no local de aplicação foi o único desconforto relatado e apresentou baixa intensidade.
Protocolo pode contribuir para novos estudos

Estudos anteriores já sugeriam possíveis benefícios da acupuntura auricular para o controle de náuseas e vômitos relacionados à quimioterapia. Segundo a pesquisadora, havia, no entanto, grande variação na forma como a técnica era aplicada, além de limitações metodológicas e poucos ensaios clínicos desenvolvidos no contexto brasileiro.
Uma das contribuições do trabalho foi justamente utilizar um protocolo construído a partir de uma revisão sistemática, posteriormente validado por especialistas, testado clinicamente e avaliado em estudo piloto antes da realização do ensaio. “Aumenta a possibilidade de reprodução do protocolo em novas pesquisas e contribui para reduzir a heterogeneidade existente na literatura”, explica.
Outro aspecto destacado por Eliza Paiva é que o resultado favorável foi encontrado para um sintoma ainda pouco estudado nesse tipo de intervenção. “O grupo para o qual há evidência mais favorável é o de pacientes adultos em tratamento quimioterápico que apresentam náuseas antecipatórias”, afirma.
Apesar do achado, a pesquisadora ressalta que os resultados não devem ser generalizados e que são necessários novos ensaios clínicos antes de uma recomendação mais ampla da técnica. O próximo passo, conforme a autora, é repetir o protocolo em um estudo multicêntrico, envolvendo diferentes serviços de oncologia e outras populações. A partir dessa confirmação, seria possível avançar na avaliação da incorporação da prática aos serviços e na capacitação de profissionais.
A tese, intitulada Eficácia da acupuntura auricular com sementes de Vaccaria em comparação à intervenção sham para náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia em adultos com câncer: ensaio clínico randomizado, foi aprovada em novembro de 2025. O estudo foi registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC).
A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), por meio de bolsa de doutorado, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Para mais informações, clique aqui para acessar a tese completa no Repositório Institucional

















