Pesquisa mapeia negócios, capelas e desafios no trecho do Caminho da Fé em Paraisópolis-MG

Estudo desenvolvido no curso de Geografia (Licenciatura) mostra como a rota se relaciona com o comércio e a paisagem do município
Estudo envolveu análise de dados econômicos, visita a bairros rurais que integram a rota e entrevistas. (Foto: Arquivo/Lucas Andrade)

Pousadas instaladas em antigas casas de família, pontos de apoio criados em chácaras e capelas construídas ao longo do trajeto são algumas das marcas deixadas pelo Caminho da Fé na cidade de Paraisópolis, no Sul de Minas. Essas mudanças foram documentadas em uma pesquisa da UNIFAL-MG, que também reuniu relatos sobre dificuldades nas estradas e na sinalização. O estudo ganha relevância neste mês de outubro, quando as peregrinações da tradição católica rumo a Aparecida se intensificam em função do dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida, celebrado pelos fiéis em 12 de outubro.

Lucas Daniel Santos Andrade – autor do estudo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Flamarion Dutra Alves – professor/orientador do trabalho. (Foto: Arquivo Pessoal)

A pesquisa foi desenvolvida por Lucas Daniel Santos Andrade como trabalho de conclusão do curso de Geografia (Licenciatura), sob orientação do professor Flamarion Dutra Alves (Instituto de Ciências da Natureza).

Iniciada em 2024 como pesquisa de iniciação científica, a investigação se tornou tema do TCC: Análise da dimensão socioespacial e econômica do turismo religioso: o caminho da fé em Paraisópolis-MG.

“O tema é tão abrangente que só o relatório da IC não foi suficiente e levei como tema de TCC da minha graduação”, conta Lucas Andrade.

O acadêmico nasceu em Paraisópolis e relata que passou a conviver de perto com os viajantes quando sua família se mudou, em 2020, para uma chácara no bairro rural Áreas, por onde passa o Caminho da Fé. Mais tarde, seus pais abriram um ponto de apoio no local.

Uma fala da professora Ana Rute do Vale, durante a abertura de um ano letivo do curso o incentivou a pesquisar Geografia a partir das próprias vivências. “A professora falou que a pesquisa em Geografia deve ser inspirada nas vivências do nosso cotidiano. Assim, tive a ideia de fazer uma pesquisa sobre o impacto econômico, turístico e cultural do turismo religioso em minha cidade já que não há dados disponíveis até mesmo da Associação de Amigos do Caminho da Fé”, compartilha.

Para entender a dinâmica da peregrinação no município, Lucas Andrade analisou dados econômicos, percorreu bairros rurais que integram a rota, entrevistou representante da Associação dos Amigos do Caminho da Fé e responsáveis por 14 empreendimentos. Também coletou respostas de 100 peregrinos por meio de um formulário disponibilizado em quatro pousadas urbanas e um ponto de apoio rural, entre julho e outubro de 2025.

Negócios em torno da peregrinação

“Os empresários locais viram a necessidade de abrir o negócio justamente pela grande demanda de peregrinos”, afirma Lucas Andrade. (Foto: Arquivo/Lucas Andrade)

Nas entrevistas, os responsáveis pelos estabelecimentos relataram como organizaram hospedagem e alimentação para quem atravessa o município. Segundo Lucas Andrade, com exceção de um hotel, os negócios ouvidos surgiram ou foram adaptados em resposta à procura ligada ao Caminho da Fé.

“Os empresários locais viram a necessidade de abrir o negócio justamente pela grande demanda de peregrinos”, afirma. Em parte das pousadas, os viajantes são recebidos em espaços que antes eram casas dos proprietários ou chácaras usadas nos fins de semana. Lucas Andrade chama atenção para as “chácaras de veraneio que acabaram virando pousadas” e para o caráter familiar desses empreendimentos.

A estadia curta também influencia os serviços oferecidos. “O peregrino é um turista de passagem curta com necessidades específicas”, observa o pesquisador. Além de um lugar para dormir, ele precisa se alimentar antes de seguir viagem. Nas entrevistas, proprietários mencionaram a oferta limitada de locais para jantar na cidade, especialmente para quem chega cansado ao fim do dia.

Para o autor do estudo, reunir informações sobre os estabelecimentos e os viajantes é uma das contribuições do trabalho. “Creio que o principal resultado foi o levantamento de dados dos empreendimentos e do perfil dos peregrinos que podem ser usados para futuras pesquisas ou pelo poder público.” O TCC mostra experiências de negócios vinculados à rota, mas não calcula quanto ela movimenta na economia de Paraisópolis nem quantos empregos criou.

Entre as pessoas que responderam ao formulário, 65% eram homens e 69% tinham ensino superior. Algumas também relataram dificuldades com o custo da viagem. Lucas considera que esses dados levantam uma questão sobre quem tem condições de realizar a peregrinação. Como a participação no questionário foi voluntária e ocorreu em cinco locais, os resultados descrevem os 100 respondentes, sem representar necessariamente todos os peregrinos do Caminho da Fé.

Marcas da fé na paisagem rural

Para o pesquisador, a mudança mais visível não está apenas nos estabelecimentos, mas também no trajeto. “A principal transformação sem dúvidas é da zona rural, principalmente com a construção de capelas ao longo do caminho”, afirma. De acordo com Lucas Andrade, moradores e peregrinos participam da criação desses espaços, em alguns casos por devoção ou para cumprir uma promessa.

“Tem também várias placas motivacionais e fitinhas de Senhor do Bonfim colocadas nas cercas”, acrescenta. Esses elementos ajudam a mostrar como a experiência religiosa passa a fazer parte dos lugares percorridos. “Percebemos que há uma apropriação desse espaço que antes era voltado para o rural mais tradicional e agora divide o espaço com a manifestação da fé dos peregrinos”, analisa.

(Fotos: Arquivo/Lucas Andrade)

Boas avaliações e dificuldades na caminhada

Os participantes do questionário avaliaram positivamente a passagem pelo município: em uma escala de 1 a 5, as pousadas e os hotéis receberam nota média de 4,58, e a receptividade de Paraisópolis, 4,68. As respostas também trouxeram críticas às condições do percurso.

Lucas Andrade destaca os trechos da MG-295 entre Consolação e Paraisópolis e entre a cidade e o bairro Áreas. Segundo ele, a ausência de acostamento faz com que pedestres e ciclistas sigam pela margem da rodovia. Nas vias rurais, as chuvas dificultam a passagem de peregrinos e moradores. “Os peregrinos em grande parte reclamaram da falta de sinalização, pontos para descanso e bebedouros”, relata.

O pesquisador observa que houve mudanças desde a coleta de dados. Segundo ele, o município padronizou placas indicativas e realizou calçamento em alguns trechos rurais. A Associação dos Amigos do Caminho da Fé também atua na sinalização da rota com as setas amarelas que orientam os peregrinos. Para Lucas Andrade, as melhorias já feitas não encerram as demandas registradas no estudo, especialmente quanto à manutenção das estradas e à segurança nos trechos rodoviários.

(Fotos: Arquivo/Lucas Andrade)

Para conhecer detalhes da pesquisa, acesse o TCC na íntegra no Repositório Institucional

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