Os campi de Alfenas, Poços de Caldas e Varginha da UNIFAL-MG ganharam nos últimos dias uma intervenção simbólica na paisagem cotidiana universitária: um banco vermelho, que passa a ocupar espaços estratégicos da Universidade como marcos de memória, alerta e enfrentamento à violência contra a mulher. A iniciativa integra a campanha nacional do Instituto Banco Vermelho (IBV) pelo feminicídio zero, em parceria com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

A instalação do banco vermelho na UNIFAL-MG fez parte de uma programação com início no dia 13 de março, no campus Poços de Caldas. No dia 16, a ação ocorreu em Alfenas, com cerimônias realizadas na Sede e na Unidade Santa Clara. O ciclo foi concluído nesta terça-feira, dia 17, no campus Varginha. Em todos os espaços, o banco vermelho passou a ocupar lugar visível e permanente, como forma de convocar a comunidade a “Sentar e Refletir, Levantar e Agir” – lema que atravessou todos os pronunciamentos das cerimônias realizadas na Universidade.
Números que não podem ser ignorados
Em 2025, segundo dados oficiais, aproximadamente 1.500 mulheres foram vítimas de feminicídio, o que representa uma morte a cada poucas horas, todo dia, em todo o país. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial de países que mais matam mulheres.

Números como esse foram repetidos em cada uma das cerimônias realizadas na Universidade não como retórica, mas como um esforço coletivo de não permitir que a brutalidade cotidiana se torne banal. O reitor, professor Sandro Amadeu Cerveira, foi enfático ao trazer essa realidade para dentro da Universidade, como um dos últimos gestos de seu mandato de oito anos.
“Ao final do dia de hoje, quatro mulheres terão sido assassinadas neste país. É muito provável que, a essa hora, algumas dessas mulheres já estejam mortas. Enquanto estamos nessa cerimônia, quatro mulheres já foram estupradas, uma a cada seis minutos”, destacou.

No campus Poços de Caldas, o vice-diretor, professor Marlus Pinheiro Rolemberg, lembrou nomes e histórias para humanizar os dados. Citou Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, bombeira civil e mãe de um menino de 10 anos, assassinada em janeiro de 2026 pelo ex-companheiro em Guaíba-RS; Vanessa Lara de Oliveira Silva, estudante de 23 anos que sonhava trabalhar com recursos humanos, morta em fevereiro em Juatuba-MG; e Mariana Camila de Oliveira Santos, mãe de três filhos, assassinada a facadas no próprio Dia Internacional da Mulher, 8 de março, em Santa Luzia-MG, enquanto o filho mais velho, de dez anos, precisou ligar para a polícia.
“É difícil desejar uma boa tarde com notícias como essas. Esse vermelho é um sinal de alerta, é a cor do sangue derramado que não pode mais ser aceito como normal”, enfatizou.
Também a representante dos técnicos administrativos do campus, Carolina de Cássia Araújo, destacou a importância da mobilização coletiva no enfrentamento à violência de gênero, ressaltando a relevância de reunir diferentes setores em torno da pauta.

Ao relacionar o tema à sua experiência pessoal, a servidora afirmou que como mãe, espera que no futuro a Universidade seja um espaço livre da violência e da misoginia, onde seja possível cuidar das meninas e educar os meninos para relações baseadas no respeito e na igualdade.

Em Varginha, a diretora do campus, professora Gislene Araújo Pereira, sintetizou os três pilares simbólicos do banco.
“Esse banco tem a representação de três ideias fundamentais: memória das mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pela violência; alerta para uma realidade que ainda exige reflexão e responsabilidade; e compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, mais segura e mais respeitosa para as mulheres.”
Compromisso institucional
A adesão da UNIFAL-MG à campanha do Instituto Banco Vermelho e da Andifes não é um gesto isolado. Segundo informações apresentadas durante as cerimônias, universidades federais de todas as regiões do país aderiram ao projeto, que integra a Lei Federal 14.942/24. Juntas, as instituições federais de ensino superior formam, por ano, cerca de 130 mil profissionais que retornam à sociedade.

A pró-reitora adjunta de Graduação, professora Roberta Seron Sanches, destacou o caráter simbólico da iniciativa, tanto em sua dimensão pessoal quanto institucional. Segundo ela, a permanência da cor vermelha no banco evidencia que a violência contra a mulher ainda é uma realidade, mas também reforça o compromisso da UNIFAL-MG, em diálogo com outras universidades, no enfrentamento dessa causa.

Para a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação e vice-reitora eleita da Universidade, professora Vanessa Bergamin Boralli Marques, esse dado dimensiona a responsabilidade da Universidade no combate à violência de gênero. “Era bom que nós não precisássemos de banco nenhum e de ação nenhuma, mas essa não é a realidade. Se não for a educação, nada vai melhorar. Nós precisamos formar pessoas que entendam isso”, afirmou, durante a cerimônia em Alfenas.
Renata Piacentini Rodriguez, professora do Instituto de Ciência e Tecnologia do campus Poços de Caldas e presidente do Grupo de Enfrentamento e Mobilização contra o Assédio (GEMA), contextualizou a instalação dentro da política institucional de combate ao assédio, implantada na UNIFAL-MG desde 2004.

“O banco vem simbolizar o posicionamento da UNIFAL-MG contra o assédio e mostrar para nós que, sim, é preciso falar que mulheres morrem. É preciso falar que 95% das vítimas de assédio são mulheres. Porque nós precisamos que essa luta não seja só nossa, de mulheres, mas de todo mundo. É um problema social, é um problema criminal e nós precisamos mudar isso”, pontuou.

A professora do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) do campus Varginha e pesquisadora do Grupo de Pesquisa de Gênero pela Não Intolerância (GENI), Fernanda Mitsue Soares Onuma, apresentou uma perspectiva que combina análise acadêmica com apelo político. Segundo ela, o feminicídio não começa com a violência física, mas escala a partir de violências “ditas triviais”, como a psicológica e moral, o que é um crime sistematicamente evitável.
“A vergonha precisa mudar de lado. Precisamos que esse banco vermelho seja um incômodo, um incômodo para toda a sociedade, porque nenhum de nós pode dormir bem vendo que mulheres são mortas por aquelas pessoas que deveriam amá-las”, alertou.
Símbolo, memória e mudança cultural
Durante as solenidades, representantes estudantis, docentes, técnicas e técnicos administrativos, integrantes da rede de proteção dos municípios e gestores da Universidade reiteraram que o feminicídio é a expressão mais extrema de uma cadeia de violências que frequentemente começa de forma silenciosa, por meio do controle, da humilhação, do assédio, da violência psicológica e da desigualdade naturalizada nas relações sociais.
Em Poços de Caldas, a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Laís Jardim Cassaro Couto, destacou que o símbolo só ganha sentido quando mobiliza conversas e ações concretas, e que a ação de instalar o banco dentro de uma universidade fortalece sua potência como instrumento de formação e debate, alcançando pessoas em um espaço de escuta e aprendizado.
A articulação entre Universidade e município na luta contra a violência à mulher também também foi reforçada pela assistente social Leila Aparecida dos Santos, representante da Secretaria Municipal de Assistência Social.
Na cerimônia em Alfenas, a representante da Comissão de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do município, Helaine Faria Pinto, relacionou a questão a construções sociais de gênero e relações de poder. Para ela, o enfrentamento exige denúncia, responsabilização, mas também revisão profunda dos modos como homens e mulheres são socializados.
A cabo Marcela Carvalho, da Polícia Militar de Alfenas, que atua há mais de cinco anos na proteção a vítimas de violência doméstica, reforçou a importância da rede de proteção local.
Em Varginha, a representante do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Francine Soares de Paula Pedruzi, e a vereadora Mônica Cardoso, também falaram da importância do ato simbólico de instalação do banco vermelho na UNIFAL-MG e da parceria da Universidade com o município.
Integrantes da rede de proteção dos municípios de Poços de Caldas, Alfenas e Varginha participaram das cerimônias
“Um homem não acorda de manhã como feminicida”

Uma das marcas das cerimônias foi a disposição de homens que ocupam posições de liderança na Universidade para falar de um lugar de responsabilidade e autocrítica. O reitor, professor Sandro Cerveira, e o professor Manoel Vitor de Souza Veloso, diretor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas do campus Varginha, foram enfáticos em seus pronunciamentos.
Sandro Cerveira salientou que nenhum assassino nasce pronto, uma vez que é construído por códigos afetivos, culturais e sociais que ensinam meninos a não aceitar o não, a não lidar com a frustração, a sentir que têm direito sobre o corpo das mulheres.
“O homem não acorda de manhã odiando as mulheres. Isso tem a ver com uma cultura intrinsecamente relacionada à nossa formação como homens. E este lugar aqui – a Universidade – é o lugar privilegiado para contribuir nessa direção”, comentou.

O professor Manoel Veloso foi direto ao convocar os homens da Universidade para a linha de frente.
“O combate à violência contra a mulher não é uma pauta feminina, é uma pauta humana. Não basta não ser violento: é preciso educar, é preciso intervir e, acima de tudo, é preciso ouvir as mulheres”, afirmou.
O GEMA e a rede de proteção dentro da UNIFAL-MG
Em todos os campi, o Grupo de Enfrentamento e Mobilização contra o Assédio teve presença central. Vinculado à Ouvidoria e deliberado pelo Conselho Universitário da UNIFAL-MG, o GEMA atua na prevenção de práticas abusivas dentro da comunidade acadêmica, oferecendo acolhimento, orientamento e encaminhamento para processos de cura e de responsabilização.

A técnica em educação Carla Cristina Esteves, integrante do grupo, falou com emoção sobre o que representa inaugurar um banco vermelho sendo mulher e o que representa lutar pelo feminicídio zero.
“Para mim não é um prazer inaugurar esse banco. Por eu ser mulher, com direito à liberdade, de ser feliz, de viver plenamente. Porém, com um propósito dedicado à luta pelo feminicídio zero no Brasil, tenho um olhar de luta e esperança de vitória. Eu espero que um dia esse banco esteja pintado de flores, de alegria, não mais vermelho”, salientou.

A assistente social Raquel Ferreira de Figueiredo, integrante do GEMA no campus Varginha, reforçou que o banco é também um convite permanente à reflexão para todos que circulam pelo campus.
“O banco vermelho representa as mulheres que foram silenciadas pela violência, que não puderam continuar sonhando e existindo em nossa sociedade. Ele é um convite à reflexão e à conscientização. Todas as pessoas que nele se sentar poderão lembrar o que ele significa e e refletir sobre o enfrentamento da violência contra a mulher.”
Permanência, segurança e transformação
Os representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) marcaram presença em todos os campi e trouxeram perspectivas que conectam o simbólico ao cotidiano. Em Poços de Caldas, a força simbólica da intervenção foi destacada pelo discente José Lúcio Zancan Júnior. Segundo ele, embora a iniciativa possa, à primeira vista, gerar dúvidas sobre sua efetividade, o próprio símbolo se encarrega de provocar a discussão.

Como relatou, desde a chegada do banco ao campus, o que mais chamou atenção foi justamente a curiosidade das pessoas e os questionamentos que surgiram. “O que mais me marcou foi uma pergunta: ‘o que um banco vai ajudar a combater a violência contra as mulheres?’”, compartilhou. Ao observar a reação da comunidade, no entanto, percebeu que o banco já respondia por si só: “As pessoas que passavam por ali ficavam curiosas, iam pesquisar, liam, comentavam. O banco virava o assunto central das conversas”.
Para o estudante, esse movimento espontâneo revela a potência da ação. “Esse banco representa muito mais do que uma intervenção visual. Ele é a oportunidade de chamar a atenção, de forma natural e eficaz, para um problema tão grave quanto o feminicídio”, destacou.

Na avaliação da representante estudantil Gabriela Haide, de Alfenas, o banco carrega esse peso simbólico justamente por tornar visível o que muitas vezes permanece silenciado. “Esse banco vermelho vem para significar muita coisa, mas sobretudo as vítimas que a nossa sociedade vem perdendo por causa do machismo e do feminicídio”, afirmou. Para ela, a Universidade é lugar estratégico para esse enfrentamento e a presença do banco amplia o alcance da mensagem por ocupar um espaço de formação e transformação social.
Em Varginha, Lara Basílio Coutinho falou sobre a relação entre segurança e permanência das mulheres na Universidade.

“Um lugar seguro para as mulheres permite que as mulheres permaneçam na Universidade. A violência é institucional, ela é hierárquica, ela tem cor, ela tem gênero. Hoje, como mulher aqui sentada e como representante dos alunos, além de agradecer a visibilidade e movimentos como esse do banco vermelho, eu peço também para que cada um aqui seja vigilante junto com a gente, mulheres, não só as mulheres, mas todos os alunos do campus.”
Presente na solenidade em Varginha, a professora Santiane Arias, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, destacou que a ação mobiliza tanto sua atuação acadêmica quanto sua experiência pessoal. Pesquisadora do GENI, mãe de duas adolescentes e docente de Ciência Política, ela afirmou que o tema a atravessa de forma profunda.

“É um gesto triste porque lembra muitas mortes, mas também é esperançoso, confortante ter pessoas assim, e ter a Instituição em que você trabalha acolhendo essa questão, dando a devida importância para um tema tão tocante e tão revoltante ao mesmo tempo”, compartilhou.
Já o estudante Renan Carlos Ferreira Cruz, do 3º período do curso de Ciências Econômicas, avaliou que marcos como esse são importantes para ampliar a conscientização no meio universitário.

Ao observar que piadas e comportamentos machistas seguem presentes em diferentes ciclos sociais, defendeu que os homens precisam ser chamados a refletir e a se posicionar desde cedo.
“É uma luta necessária, em todas as escalas da sociedade, e também no meio estudantil, para que os alunos se conscientizem desde muito cedo. Cada vez é mais importante introduzir essa luta em todos os ciclos sociais para que as pessoas, principalmente os homens, se conscientizem sobre isso.”
Canais para denúncia de assédio:
Plataforma Fala BR: https://falabr.cgu.gov.br/web/home
Disque 180: Central de atendimento à mulher
DEAM: Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher
Delegacia de Polícia Civil
Ministério Público
Acesse também:
Grupo de Enfrentamento e Mobilização contra o Assédio (GEMA)
Grupo de Pesquisa de Gênero pela Não Intolerância (GENI)
Campanha Feminício Zero do Instituto Banco Vermelho
Cerimônia no campus Poços de Caldas – 13 de março
Cerimônia no campus sede em Alfenas – 16 de março
Cerimônia na Unidade Santa Clara – 16 de março
Cerimônia no campus Varginha – 17 de março
(Fotos: Vitória Alves e Ana Carolina Araújo/Dicom/UNIFAL-MG)



























































