Estudo aponta que trabalho doméstico é associado a dever, sobrevivência e reconhecimento por mulheres em vulnerabilidade em Varginha

Investigação desenvolvida no âmbito da iniciação científica da UNIFAL-MG integra o projeto “Escrevivências Femininas” e ouviu mulheres atendidas por uma unidade do CRAS do município
Registro de roda de conversa com as mulheres atendidas pelo CRAS de Varginha. (Foto: Arquivo/GENI)

Como mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, atendidas por uma unidade do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Varginha-MG, constroem os sentidos do trabalho doméstico e de cuidado, foi objeto de estudo de um projeto de iniciação científica desenvolvido na UNIFAL-MG. O estudo revela que esse trabalho é percebido como necessário à sobrevivência, mas também como uma obrigação naturalizada no cotidiano das mulheres.

Amanda Marques Brito de Souza – acadêmica/autora do estudo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Fernanda Onuma – professora/orientadora da pesquisa. (Foto: Arquivo Pessoal)

A pesquisa é de autoria de Amanda Marques Brito de Souza, mestranda em Gestão Pública e Sociedade, na área de concentração “Sociedade, trabalho e lutas sociais”, e integra o projeto Escrevivências Femininas: traçando linhas em educação, direitos humanos e políticas públicas em Varginha, do Grupo de Pesquisa Gênero pela Não Intolerância (GENI/UNIFAL-MG).

O trabalho foi desenvolvido sob orientação da professora Fernanda Onuma, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), do campus Varginha.

Segundo Amanda Souza, os sentidos do trabalho doméstico e de cuidado são conhecidos na literatura como trabalho reprodutivo, o qual inclui atividades como limpar, cozinhar e cuidar de crianças e idosos. “A Teoria da Reprodução Social aponta que o capitalismo só se mantém porque existe uma vasta quantidade de trabalho reprodutivo realizado de maneira gratuita dentro dos lares, principalmente por mulheres”, explica, acrescentando que o trabalho reprodutivo é essencial para a manutenção da vida cotidiana, mas segue invisibilizado socialmente.

Para a realização da pesquisa, a equipe promoveu rodas de conversa com mulheres atendidas por uma unidade do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Varginha. Em seguida, as participantes foram convidadas a conceder entrevistas em profundidade. Ao todo, quinze mulheres receberam o convite e nove aceitaram participar do estudo.

Para a realização da pesquisa, a equipe promoveu rodas de conversa com mulheres atendidas por uma unidade do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Varginha. (Fotos: Arquivo/GENI)

Como resultado, o estudo revelou que os primeiros sentidos atribuídos ao trabalho surgem ainda na infância e estão ligados à necessidade de sobrevivência e ao apoio familiar. “Com 14 anos eu já tinha que trabalhar para sobrevivência”, compartilhou uma das participantes. Outra relatou: “Eu comecei a trabalhar pequena, eu devia ter uns 8 ou 9 anos.”

Esses depoimentos, na visão da pesquisadora, mostram como tarefas de cuidado e serviço são naturalizadas desde cedo como parte do papel feminino. “Muitas vezes, tais tarefas são percebidas como ‘atos de serviço’ esperados das meninas, o que reforça uma divisão sexual do trabalho desde a infância”, analisa Amanda Souza.

O estudo também identificou que os sentidos do trabalho são transmitidos no ambiente familiar, por meio da observação da rotina dos pais e responsáveis. “Com 7 anos, naquela época todo mundo trabalhava. Tinha que buscar lenha, buscar água, tudo tinha que fazer”, relatou uma das entrevistadas. O relato foi confirmado por outra participante: “Eu, com idade de 8/9 anos, comecei a ajudar minha mãe arrumar cozinha, lavar roupa, ajudar o pai a plantar.”

De acordo com a pesquisa, essas vivências contribuem para que o trabalho seja associado a pertencimento, responsabilidade e reconhecimento dentro da família, além da necessidade de contribuir financeiramente com o lar.

A análise também aponta que quando o trabalho doméstico e de cuidado passa a ser remunerado, como no caso de faxinas, serviços de limpeza e babá, ele continua sendo atravessado pela lógica da sobrevivência, mas ganha também um sentido de valorização simbólica. “Era o dinheiro que eu ganhava, mais nada”, afirmou uma participante. Já outra destacou: “Não depender de ninguém é ter sua independência.”

Além da renda, o reconhecimento aparece como elemento importante. “Minha satisfação era ouvir: ‘nossa, você limpou tão bem a casa’”, relatou uma entrevistada. Outra contou que gosta do trabalho quando percebe que as pessoas valorizam o resultado final. “As pessoas elogiam, gostam… então eu gosto”, afirmou.

Outro dado levantado nas entrevistas é que no trabalho reprodutivo não remunerado, realizado dentro do próprio lar, predominam sentidos associados ao amor, à responsabilidade e ao dever materno. “Eu tinha que cuidar dos meus filhos, não podia largar eles”, disse uma das mulheres. “Era obrigação da gente, como mãe”, comentou outra. Já uma terceira resumiu: “Só ficava dentro de casa, era trabalhar, costurar e cuidar.”

Para Amanda Souza, esses relatos mostram como o trabalho doméstico se torna parte da identidade das mulheres. “O trabalho reprodutivo não remunerado é vivido como algo natural, mesmo sendo invisibilizado e não reconhecido economicamente”, afirma.

O estudo conclui que, embora seja indispensável para a sobrevivência das famílias e para o funcionamento da sociedade, o trabalho reprodutivo continua mascarado por discursos de amor, vocação e obrigação feminina.

“Reconhecer os sentidos do trabalho reprodutivo é também reconhecer a urgência de trazê-lo para o centro do debate, tirando-o do lugar de invisibilidade”, destaca Amanda. Para ela, a Teoria da Reprodução Social é fundamental para compreender como esses labores estruturam as relações de gênero e classe na sociedade.

A pesquisa integra um conjunto de estudos desenvolvidos pelo Grupo GENI e busca ampliar as discussões sobre gênero, trabalho e políticas públicas. “Este estudo buscou contribuir para ampliar as discussões sobre o trabalho reprodutivo, evidenciando a importância da Teoria da Reprodução Social para compreender como esses labores estruturam a vida cotidiana, remunerados ou não, e como suas marcações históricas exigem aprofundamento teórico e político”, conclui.

O trabalho contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e com o apoio das integrantes do Grupo de Pesquisa GENI/UNIFAL-MG.

Para ler o resumo do trabalho na íntegra, acesse aqui

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