A pele, o tempo e a palavra: o infinito de Beatriz Nascimento

Após a leitura de diversas biografias de uma variedade de autores negros considerados não canônicos, surgiu o interesse por conhecer a coletânea póstuma de Beatriz Nascimento (1942–1995), intitulada Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento (2015), organizada por Alex Ratts e Bethânia Gomes, que reúne textos, poemas e pensamentos de Beatriz Nascimento (1942–1995), historiadora, professora, escritora, roteirista e ativista brasileira, reconhecida como uma das principais intelectuais do feminismo negro, militante antirracista e da resistência cultural negra, e que sofreu femicídio em 1995, aos 52 anos, no Rio de Janeiro, após tentar proteger uma amiga de violência doméstica.

Não entanto, inicialmente, a escolha não foi simples e deu-se de um encontro quase acidental ao ter acesso à sua obra, considerando que o desejo prévio era uma aproximação e compreensão sobre o pensamento da autora, sem grandes pretensões, porém fui surpreendido por sua escrita poética, que une delicadeza e contundência em igual medida entre seus versos, aforismos e ensaios, assim como de uma intelectual que fala de si para falar de todos, e que transforma a dor coletiva em linguagem de resistência e cura. Cabe destacar que seu pensamento, construído entre os anos 1970 e 1990, atravessa a escrita acadêmica e a produção artística, propondo interpretações inéditas sobre a formação do Brasil, com foco na experiência negra.

 Numa entrevista à Alma Preta (2025), agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial no Brasil, o historiador Rodrigo Ferreira dos Reis, pesquisador do pensamento de Beatriz Nascimento, afirma que sua obra parte de uma crítica à historiografia tradicional, e ele acrescenta: “ela cria o que chama de uma história feita por mãos negras. A historiografia oficial é feita por mãos brancas. A feita por mãos negras está por vir, está por ser feita”. Assim, pode-se dizer que, em seus escritos, Beatriz Nascimento utilizou, uma vertente interpretativa da história negra no Brasil, não a partir de uma perspectiva colonial, mas da experiência e da memória de africanos e seus descendentes.

Sua produção ultrapassa o campo acadêmico e toca o humano: ela pensa o corpo, o tempo e a história como lugares de pertencimento. Esclareço que nosso interesse em abordá-la, provém do desejo de contribuir para a visibilidade de escritoras negras que, por muito tempo, foram silenciadas ou esquecidas nos espaços literários formais. Deste modo, a poesia pós-moderna de Beatriz Nascimento é de uma singularidade quase intangível, se não fossem retratadas suas dores e sua consciência do que foi o passado aos olhos dos negros. Sua escrita parece nos atravessar mental e involuntariamente, traçando a devida linha do tempo para o existencialismo da autora. E a partir deste olhar interior, a seção de quarenta e oito poesias da obra é organizada em três partes, além dos seus aforismos e ensaios.

A seção de suas poesias, se inicia com o desejo de Beatriz de se desvincular ao passado cruel que foi herdado em sua pele, assim como manifesta em “Próxima, Primordial” (Parte I):

Abertura I
Quero.
Extrair qualquer síndrome
Qualquer aparência do que não sou
Qualquer vínculo com o passado odiado que restou. […]

Também é a parte dedicada à família e à infância, porém nem sempre com vislumbre de transbordar os olhos, como acontece em “Paciência”, poema dedicado ao seu pai em 1986:

Pensava em mim como
Um lamento
Ruminando todo o tormento
Que à vida foi atribuído
Pensava em mim
Como elemento
Exacerbado (por) rudimentos
De antiga matéria
Apodrecida

A consciência de Beatriz transmite, no poema, um sentido de reminiscência dolorosa por parte de, supostamente, a figura masculina de grande marco em sua história, história que fica ainda mais evidente quando a descriminação parte da família. Mesmo nessa situação, a autora clama para si — ou para nós, leitores — a paciência que nos debatemos ao entrar em contato com esse texto.

Em “Mítica, histórica” (Parte II), nos encontramos envoltos por pura fantasia e evocação, uma delas principiada por Zumbi dos Palmares, no poema “Urgência (Zumbi)”, que, em sua leitura, parece descrever a forma do líder quilombola a partir da organização das palavras:

Sendas abertas à força pesada
Movimento oscilante do conhecido em veias rasgadas
[…] E eis que surge na arena
Dançarino flamejante de intenções

 Já em “Ilha de Vera Cruz” (“Primeiro Nome”) , uma representação e preservação da história surgem no ar, fazendo alusões e personificações ao país onde Beatriz se faz parte e que essa parte permanecerá. Nota-se com clareza que o trecho perpassa pelos tempos atuais colidindo com questões não só sociais, mas um tanto quanto políticas:

Eu tenho esperança nele porque conheço sua história,
que em meus anseios será eterna

 Em “Existencial, Cósmica” (Parte III), encerra a seção de poesias com uma dedicada, porém curta, viagem interestelar, e julgo dizer que, talvez, seja a melhor escrita de Beatriz. “Femme Erecta” é mais do que Beatriz do encarne: é o seu contestar de ser só o quanto é enquanto marcada por cronologias em seu corpo. Assim como a Beatriz de “Argonauta”, que vem antes de tudo e do universo que se originou.

Femme Erecta

Há quanto ao tempo pertenço?
Só esses anos? Impossível
Quantas cronologias marcam meu corpo.
Infinitas…
Senão porque tanta expressão
Sensação imprevisível. Átomos em explosão
Decerto não saberia, como sei identificar
Foram precisos muito sentir
Armas a adquirir, para pôr-se de pé.

Seus aforismos foram organizados como manuscritos e datilografias encontrados, não fazendo parte das poesias, mas sem deixarem de ser poéticos. “(Até ontem e amanhã)” mostra força de pertencimento e consentimento de lugar como mulher negra, ao mesmo tempo que poetas e místicos demandam a existência de tudo.

(Até ontem e amanhã)

Nunca serei mulher, eu mesma, nunca serei pessoa,
senão minha própria pessoa.
Ninguém me igualará a nada, nenhum ser vivo parece comigo mesma.
Sou e sou, e assim sou, eu menina mulher, eu fruta-flor, eu sêmen e realização,
eu retumbante paixão, eu nesta hora de mim.

Quem me comparará a quê?
Quem me substituirá em quê?
Tola pretensão! Nem eu em mim, nem eu em mim mesma.
E se não houvesse poetas e místicos, o que seriam de nós e da
Natureza?

Já em seus ensaios, Beatriz se revela como pensadora que entrelaça poesia, história e uma dose de militância, refletindo sobre a construção da identidade negra e a necessidade de reescrever o passado sob uma própria ótica. “Meu negro interno” e “Acerca da consciência racial” evidenciam — mais uma vez — seu olhar crítico sobre a herança colonial e a urgência de reconhecer o corpo negro como território de resistência e saber.

Tomando inescrupulosamente como cobaia eu mesma, isto é, partindo da minha experiência, e da dos negros mais ligados a mim — minha família, amigos, companheiros de ônibus, nas ruas, nos estabelecimentos — tento chegar, o mais de como subjetivamente reagimos diante de uma realidade tão opressora; de como resolvemos as questões que nos fustigam, hoje, nossas mentes, ontem nossos corpos. Quando pretendo explicar o que se produziu em quatro séculos de repressão, de ausência de ser, vejo somente uma imensa amnésia coletiva que nos faz sofrer brutalmente. Esta amnésia coletiva começou a surgir a partir de um porão de um navio negreiro qualquer, e ao nível social, sabemos ou intuímos o que ela produziu. Mas, e interiormente? Como, por exemplo, ela se apresenta em nível individual numa cidade como o Rio de Janeiro, onde a desagregação secular, junta-se àquela provocada pelo fenômeno urbano na grande cidade?
(Fragmento do ensaio “Meu negro interno”)

Sua escrita é atravessada por uma profunda consciência de si e do coletivo, onde o ato de pensar torna-se também o de existir… E existir, para Beatriz, é afirmar-se enquanto mulher negra em um mundo que insiste em silenciar sua voz. É agradável notar que em momento algum, em texto algum ela ocupa um lugar de desistência de quem é ou de onde está, fazendo com que o sentido da obra seja de uma compreensão mais acessível, afinal poetas existem a fim de não serem compreendidos. A obra representou uma travessia, ou seja, um reencontro com aquilo que a literatura pode provocar quando nasce das margens e chega ao centro por meio da força da palavra. Ler Beatriz é compreender que toda escrita é um gesto político e, ao mesmo tempo, profundamente sensível: é escrever para existir e existir para lembrar… E reconheço que fui surpreendido por reconhecer nela uma das vozes mais autênticas e corajosas da literatura e do pensamento negro brasileiro.

Um retrato

Um retrato,
Um espelho.
Um rosto
Um outro rosto.
Quantas faces de si em si mesma?

 

Sobre Beatriz Nascimento

Beatriz Nascimento (1942–1995) foi uma influente historiadora, professora, escritora, roteirista e ativista brasileira, reconhecida como uma das principais intelectuais do feminismo negro, militante antirracista e da resistência cultural negra. Estudou a formação dos quilombos como sistemas sociais alternativos e de resistência. Foi fundamental na criação do Grupo de Trabalho André Rebouças na UFF. Produziu ensaios, poemas e colaborou no documentário Ôri (1989), dirigido por Raquel Gerber, que foi narrado e protagonizado pela própria Beatriz. Ôri é um termo iorubá que significa “cabeça” ou “consciência”, simbolizando o despertar da identidade. O filme explora a identidade negra, a diáspora e a resistência cultural, tendo o quilombo como metáfora central de libertação. Foi assassinada em 1995, aos 52 anos, no Rio de Janeiro, após tentar proteger uma amiga de violência doméstica. Em 2021, recebeu o título de doutora honoris causa in memoriam pela UFRJ. Em 2023, foi incluída no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Seu legado continua a inspirar pesquisadores, sendo homenageada em 2024 pela Festa Literária da Periferia (FLUP).

Título: Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento.
Autora: Beatriz Nascimento.
Gênero: Poesia, aforismo, ensaio.
Organizadores: Alex Ratts e Bethania Gomes.
Editora: Ogum’s Toques Negros.
Ano: 2015.
Páginas: 157.
Onde encontrar: https://editoraogums.com/somos-ogums/

*Observação: A obra se encontra disponível para baixar em: https://criola.org.br/wp-content/uploads/2020/01/Alex-Ratts-Bethania-Gomes-Beatriz-Nascimento-2015-Todas-as-dista%CC%82ncias.pdf

 

Vinicius de Souza Gonçalves é discente do oitavo período do curso de Letras Português e Literaturas da Língua Portuguesa na UNIFAL-MG, e atualmente é bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID/CAPES (2024-2026). Tem interesse pelo ensino de português, leitura, literatura e cinema. No entanto, gosta muito análises de obras literárias e a literatura significa um espaço de reencontro e descoberta quando nasce das margens e chega ao centro por meio da força da palavra.

 

*O texto passou pela supervisão da curadoria, presidida pelo professor Ítalo Oscar Riccardi León, do curso de Letras. 

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