Conhecer conceitos como inflação, juros compostos e relação entre risco e retorno não significa necessariamente tomar decisões financeiras consideradas plenamente racionais. Essa diferença entre saber e agir foi identificada em um estudo desenvolvido no curso de Ciências Econômicas da UNIFAL-MG, que analisou o letramento financeiro e comportamentos econômicos de 100 participantes.


O resultado integra o trabalho Educação financeira sob a perspectiva da economia comportamental: um estudo sobre letramento financeiro e vieses comportamentais, de Leonardo Fabreti Magalhães Leme, orientado pelo professor Fernando Batista Pereira, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) no campus Varginha.
A pesquisa buscou analisar o nível de letramento financeiro dos participantes e identificar como fatores comportamentais aparecem em decisões relacionadas a consumo, planejamento e investimento.
Para Leonardo Leme, o principal resultado está justamente na distância observada entre conhecer conceitos financeiros e agir de acordo com eles. “O mais importante foi que, apesar de a amostra apresentar um nível satisfatório de letramento financeiro, os resultados indicam que o conhecimento técnico não garante decisões plenamente racionais”, afirma.
O interesse pelo assunto surgiu antes da definição do trabalho de conclusão. Segundo Leonardo Leme, a influência familiar e o contato com a economia comportamental contribuíram para a escolha do tema.
“O interesse pelo tema veio por influência da minha mãe, que trabalhou com pautas como essa pelo Banco do Brasil, e me presenteou com o livro ‘Rápido e Devagar’, de Daniel Kahneman”, conta. A partir daí, ele procurou o professor Fernando Pereira, que lecionava a disciplina de Economia Comportamental, para orientar o estudo.
Questionário avaliou conhecimento e comportamento financeiro
O levantamento foi realizado por meio de um formulário aplicado entre os discentes e docentes da UNIFAL-MG e também pelas plataformas digitais, como Whatsapp e LinkedIn, ao público externo. A pesquisa foi feita entre agosto e setembro de 2025. Dos 100 participantes do estudo, 54% afirmaram ter algum grau de tendência a deixar para depois decisões de investimento para a aposentadoria.
“Foram identificados comportamentos como procrastinação na aposentadoria, preferência pelo consumo imediato e decisões sem pesquisa prévia”, conta Leonardo Leme. Segundo ele, o resultado condiz com a teoria da economia comportamental e se configura como um contraponto à teoria convencional de Economia segundo a qual seríamos como ‘homo economicus’, que detemos todas as informações possíveis e agimos sempre de forma plenamente racional, sem sofrer influência.
Além de questões sobre sexo, faixa etária e escolaridade, o questionário também apresentou oito afirmações relacionadas a comportamentos financeiros, avaliadas por uma escala de concordância de cinco pontos, e cinco questões objetivas destinadas a verificar conhecimentos sobre juros compostos, inflação, taxa Selic e relação entre risco e retorno. Entre os participantes, 45% tinham entre 20 e 29 anos; 32% haviam concluído o Ensino Superior e 29% ainda cursavam esse nível de formação.
Nas perguntas de letramento financeiro, 65% responderam corretamente à questão sobre juros compostos e 72% identificaram o efeito de uma inflação superior ao rendimento de uma aplicação sobre o poder de compra. Na questão mais geral sobre inflação, 99% reconheceram que preços tendem a subir em um cenário de inflação alta. Já 57% responderam corretamente à pergunta envolvendo a taxa Selic e 63% identificaram a relação esperada entre maior potencial de retorno e maior risco nos ativos financeiros.

Aposentadoria evidencia diferença entre saber e agir
O contraste apareceu com maior clareza nas questões comportamentais. Na afirmação de que o participante tende a deixar para depois decisões de investimento para a aposentadoria, 28% concordaram parcialmente e 26% concordaram fortemente. Assim, 54% manifestaram algum grau de concordância com o adiamento.
Leonardo Leme interpreta esse comportamento como possivelmente relacionado à preferência por benefícios imediatos em relação a ganhos futuros. “Mesmo reconhecendo a importância de se preparar para a aposentadoria, muitos indivíduos acabam priorizando o consumo presente ou adiando o esforço necessário para o planejamento financeiro indispensável para o maior padrão de vida futuro”, argumenta.
Outro resultado mostrou que 35% dos participantes concordaram, em algum grau, que tomam decisões financeiras sem pesquisar muito antes. Ao mesmo tempo, 48% discordaram dessa afirmação, indicando que quase metade relatou buscar informações antes de decidir. Em outra questão, 39% concordaram que sentem mais prazer em gastar dinheiro do que em poupar para o futuro, enquanto 43% discordaram.
Para o autor, esses dados ajudam a mostrar que saber qual seria uma escolha financeiramente adequada não significa necessariamente colocá-la em prática. “Embora os participantes tenham demonstrado domínio satisfatório de conceitos como inflação, juros compostos, juros Selic e risco-retorno, isso não se refletiu necessariamente em decisões consideradas plenamente racionais”, explica.
A pesquisa também encontrou baixa incidência de sinais associados ao excesso de confiança na amostra. Entre os respondentes, 48% discordaram da afirmação de que suas próprias decisões de investimento seriam melhores do que aquelas tomadas com aconselhamento de terceiros. Além disso, 53% não se consideraram mais experientes em investimentos do que colegas, amigos ou familiares.

Educação financeira precisa considerar fatores comportamentais
Para o autor, os comportamentos nas decisões financeiras do dia a dia podem trazer consequências como dificuldade de alcançar objetivos financeiros de longo prazo. “A procrastinação, por exemplo, pode reduzir o tempo disponível para acumular recursos para a aposentadoria. Já a preferência pelo consumo presente pode diminuir a capacidade de poupança e formação de patrimônio”, pontua.
O economista também fala que, decisões tomadas sem pesquisa prévia podem levar a escolhas menos vantajosas, seja na contratação de crédito, na realização de compras ou nos investimentos. “O problema central, portanto, não é apenas a falta de conhecimento, mas a dificuldade de transformar esse conhecimento em comportamento”, afirma.
Na avaliação de Leonardo Leme, os resultados reforçam uma das ideias discutidas pela economia comportamental: decisões econômicas não dependem apenas das informações disponíveis, mas também de fatores psicológicos, cognitivos e comportamentais.
“Programas de educação financeira são vitais para o atual contexto socioeconômico – que a literatura especializada denomina ‘financeirização’, em que há uma forte dependência de práticas da vida cotidiana com atividades financeiras. Portanto aprender conceitos básicos, saber como esses elementos podem nos ajudar a manter uma vida financeira mais saudável é fundamental”, enfatiza.
O autor ressalta, porém, que a educação financeira não deve ser apresentada como solução isolada para problemas socioeconômicos. Segundo ele, condições básicas de vida, como acesso à educação, saúde e habitação, inserção adequada no mercado de trabalho e acesso a produtos e serviços financeiros também permanecem fundamentais.
O estudo completo pode ser acessado pelo Repositório Institucional neste link














