Permanência na universidade exige acolhimento e organização coletiva, defende Chavoso da USP em entrevista ao Jornal UNIFAL-MG

Thiago Torres Moura Santos é sociólogo, professor, palestrante e criador de conteúdo digital, conhecido como Chavoso da USP (Fotos: Dicom/UNIFAL-MG).

Natural da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, Thiago Torres Moura Santos, conhecido como Chavoso da USP, é formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), palestrante, professor e criador de conteúdo digital. Sua trajetória na universidade, na qual ingressou aos 17 anos, foi marcada pelo contraste entre a realidade da periferia e o ambiente acadêmico, além de experiências de preconceito, discriminação e desigualdade social.

Bate-papo com Chavoso da USP, durante entrevista para o Jornal UNIFAL-MG, realizada na 5ª Jornada de Ciências Sociais da Universidade.

Foi a partir dos relatos sobre essas vivências, publicados inicialmente no Facebook, que Thiago começou a ganhar visibilidade. O que surgiu como desabafos pessoais se transformou em uma atuação pública voltada à educação, à política, à cultura e às questões sociais. Nas redes sociais, conquistou centenas de milhares de seguidores e passou a ser conhecido como Chavoso da USP.

Ao longo dos últimos anos, realizou centenas de palestras em escolas públicas periféricas, cursinhos populares e instituições de cumprimento de medidas socioeducativas. Nesses espaços, conversa com jovens sobre acesso à universidade pública, desigualdade social e perspectivas de futuro. Sua atuação também envolve produção de conteúdos sobre temas como veganismo.

Em visita à UNIFAL-MG para participar do evento 5ª Jornada de Ciências Sociais da UNIFAL-MG: Democracia Algorítimica – redes, afetos e o futuro do voto, Chavoso concedeu uma entrevista exclusiva para a equipe do Jornal UNIFAL-MG, na qual compartilha um pouco da sua caminhada pessoal, sua atuação política e educacional e os desafios enfrentados na defesa da educação pública e dos direitos da população periférica. 

Quando o Thiago Torres Moura Santos, graduado em Ciências Sociais pela USP, se entendeu como Chavoso? E o que você pensa que essa imagem representa?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): No começo de 2019, em abril, eu passei por uma situação na periferia. Na Zona Leste, eu sou da Zona Norte. E aí eu tinha “ficante”, em São Mateus, que é uma região bastante periférica, e a gente não se via há alguns meses. A última vez que eu tinha visto ele, ele estava muito bem, estava trabalhando, estava “OK”.

Depois de alguns meses, quando eu cheguei à casa dele, descobri que ele não morava mais lá e fui à casa de um amigo nosso em comum, que falou que ele estava morando na casa de amigas de favor, porque tinha sido expulso da casa dos pais. E aí eu vou atrás dele. Quando eu o encontro, estava extremamente alterado, assim, drogado, digamos. Estava fora de si.

Ele me relatou que havia sido demitido do trabalho. Ver ele naquela situação foi uma coisa que me tocou muito, sabe? Imagina você ser uma pessoa que você gosta desempregada, morando de favor na casa dos outros, porque foi expulsa de casa, extremamente alterada… Ele mal me reconheceu. Fiquei pouco tempo lá e depois eu fui embora. Peguei o ônibus e, durante o trajeto, fui pensando sobre isso. “Caramba, mano, olha como o nosso povo tá, né?”

Então, eu comecei a escrever naquele dia mesmo, dentro do ônibus. E, nesse texto, eu fiz essa reflexão sobre como é ser uma pessoa da periferia de São Paulo e estudar na USP.

Eu falo que São Paulo tem dois mundos, né? Existe essa São Paulo da vitrine, da propaganda, dos pontos turísticos, da Avenida Paulista, do Parque do Ibirapuera, etc., e outra periférica, que não está nesta vitrine, que está apagada, segregada e distante do centro. E que é onde está a imensa maioria da população que mantém a cidade de pé e funcionando, mas que é oprimida, marginalizada, violentada e vai ao centro apenas para trabalhar e depois volta para casa. 

Desde a USP até os parques, até as coisas mais básicas, né? Ir na Paulista, dar uma volta num domingo, as pessoas nunca fazem isso, sabe? Assim, duas horas para ir, duas horas para voltar dentro de um trem ou um metrô cada vez mais sucateado. Então, eu coloco toda essa emoção nesse texto. O choque de realidades de alguém que convive nesses dois mundos, no mundo da periferia e nesse mundo do centro.

Naquela semana, eu fui para a Universidade e tirei uma foto, sentado assim no chão, e tinha uma placa escrito USP atrás. E aí eu estava sentado assim com um boné e bermuda da Cyclone, um Juliet, uma camisa do Barcelona, correntes, tênis Mizuno, né? Esse estilo que aí, na periferia de São Paulo, a gente chama de Chavoso. Então, eu tirei essa foto, postei no Facebook com o texto.

No dia seguinte, já tinha passado 50.000 curtidas e dezenas de milhares de pessoas começaram a me seguir do nada. Eu não esperava que isso fosse acontecer. Eu tinha públicos-alvo em mente, que eram meus amigos da periferia que não sabem o que é USP e os meus amigos da USP que não sabem o que é a periferia.

Só que furou muito a bolha e o texto se comunicou com as periferias e os universitários do Brasil inteiro. Começaram a me seguir pessoas que estão na periferia e que não sabem o que é universidade pública, pessoas que estão na periferia e querem entrar na universidade pública ou privada e assim vai.

Uma semana depois, eu dei uma entrevista para a KondZilla, e o repórter que me entrevistou colocou no título “Um Chavoso na universidade pública” e, a partir desse texto, eu fiquei conhecido como Chavoso, né? E depois outros jornais começaram a querer saber mais sobre a minha história. Aí eu dei entrevistas para o G1, para o R7, para o UOL, para a BBC e por aí vai. Muita gente começou a me seguir, né? E esse vulgo de Chavoso “pegou”.

As pessoas então começaram a pedir que eu criasse um canal, mas eu resisti por muito tempo, até que eu criei um canal no YouTube, coloquei o nome Chavoso da USP, que é um nome que eu já estava conhecido, e, a partir daí, eu comecei a criar conteúdo sobre esses assuntos envolvendo periferia, universidade, educação, política também, violência policial, funk, dentre tantos outros.

Então, eu acho que eu não tenho noção até hoje, passados 7 anos, da dimensão do que a minha imagem alcança e quem ela atinge. Porque, como não foi algo pensado, na minha cabeça até hoje eu sou aquela pessoa de 8 anos atrás, que não era famosa. Então, eu tento viver minha vida assim, “pegando” o metrô, indo num rolezinho, num barzinho no centro de São Paulo.

Eu represento também essa possibilidade de um jovem periférico, negro, passar a ler, a estudar, se informar, produzir conteúdo político, educativo, participar de debates, se engajar em pautas importantes.

Eu sou uma pessoa comum, com a diferença que tem muitos seguidores na internet, né? E eu sei que, para essas pessoas, pelo que elas me falam, eu represento muitas coisas. Eu represento desde uma perspectiva de futuro, que é algo que tanto falta para nossa juventude, a possibilidade de você entrar numa boa universidade, fazer um curso, conseguir um bom trabalho, mudar suas condições de vida.

Eu represento o enfrentamento ao sistema que a gente vive, o enfrentamento à polícia, o enfrentamento aos políticos,  né? A minha participação na CPI dos Pancadões, ela consolidou muito isso.

Como o banimento da sua conta do Instagram afetou seu trabalho? Como você enxerga que esse fator influenciou no seu alcance com o público e na realização do seu trabalho na Internet? Teve alguma atualização no processo de recuperação da conta?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): O meu banimento do Instagram foi um baque muito grande para mim. E eu digo sempre que o ano passado, 2025, na minha vida profissional, ele foi, ao mesmo tempo, o melhor e o pior ano. O melhor ano porque eu alcancei lugares inimagináveis, mas o pior ano porque eu fui lá para baixo ao mesmo tempo, sabe? Então, eu tive um voo muito alto, muito rápido, e uma queda muito rápida também.

Ano passado, por exemplo, eu fui no Podpah TV, que é o maior podcast do Brasil. Eu também fui na CPI dos Pancadões, onde eu me projetei muito e alcancei mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. E, logo na sequência, conheci o MC Cabelinho no Rio de Janeiro. Ele me levou lá na casa dele e disse que queria que eu fosse professor dele, que eu desse aulas para ele. Eu vivi coisas surreais, realmente o meu auge quando eu simplesmente fui banido do Instagram, no dia 16 de novembro, do nada. Eu abri o Instagram e aí apareceu lá que minha conta tinha sido suspensa e, depois, na sequência, desabilitada.

Eu e meus advogados entramos com um processo contra a Meta, logo no dia seguinte, contra o Instagram. O processo segue agora na segunda instância, no Tribunal de Justiça. Conquistei a liminar em primeira instância, em segunda instância. Está sendo um processo muito difícil e muito demorado. Mas eu acredito que no Tribunal de Justiça a gente deve vencer. Mas a Justiça é burguesa, então a gente não tem confiança nela, então é continuar fazendo pressão. Agora, em novembro, vai completar um ano. 

Cinco dias depois que eu fui no Podpah, recebi uma ameaça por um número estrangeiro, um textão ameaçador, dizendo que eu ter rasgado a bandeira de Israel no Carnaval de Salvador desagrada a pessoas poderosas e essas pessoas teriam acionado ou contratado aquela pessoa para vasculhar minha vida e tentar encontrar alguma coisa que me incriminasse. Mas eles não conseguiram e iria forjar coisas contra mim etc. e tal.

Na época, eu não dei muita atenção para isso, sabe? Eu achei que seria só mais uma besteira qualquer, porque eu comecei a receber muitas ameaças depois do acontecimento com a bandeira.

No primeiro momento, quando meu Instagram foi derrubado, eu não associei a ameaça. Eu só fui associar muito tempo depois. E aí, quando o Instagram derruba minha conta, eles alegam sem qualquer prova que o meu perfil promovia a sexualização de menores de idade. Essa foi a justificativa: “Sua conta não segue os padrões da comunidade sobre sexualização de menores de idade”. E aí, imediatamente, eu liguei para um dos meus advogados. Eu falei: “Absurdo isso aqui, vamos entrar com o processo”, e a gente entrou com o processo no dia seguinte. 

Depois de alguns meses, essa mesma pessoa que tinha me ameaçado antes veio com um outro número, porque eu tinha bloqueado aquele número, né? Ela apareceu e falou assim: “E aí, como é que está a sua vida agora, depois de tudo que eu falei que aconteceria com você e está acontecendo?”

Porque a pessoa tinha dito, naquela época, que eu seria banido das redes sociais. Não especificou o Instagram, porque eu acho que ficaria muito na cara. Hoje eu entendo que essa pessoa é alguém de dentro da Meta. É alguém de dentro do Instagram que foi acionado pelo lobby sionista para averiguar e tentar encontrar alguma coisa para me incriminar.

Ele disse claramente que essas pessoas queriam achar alguma prova de que eu tenho ligação com o PCC, que eu tenho financiamento do crime organizado, mas eles não acharam nada disso. Então, você vê que é um processo muito difícil, né? Porque, sim, eu estou batendo de frente com a Meta, com lobby sionistas, com um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, que é o que advoga para a Meta. O que eles estão fazendo contra mim também é dano moral, é calúnia.

O seu ingresso na USP apresentou uma realidade diferente da que você tinha na Brasilândia, em que você sai da periferia e ingressa num ambiente da elite paulistana. Essa mudança de território provavelmente contribuiu para que você tivesse que criar formas de resistência para estar e permanecer dentro do ambiente acadêmico. Quais foram as ferramentas de resistência que você encontrou ao longo desse processo? E como você pensa que essas ferramentas contribuem hoje para a sua formação como professor, palestrante e youtuber?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): Eu não me entendia como uma pessoa negra. Eu me entendia como uma pessoa periférica, pobre, de escola pública. Eu entrei na USP por conta da cota de estudante de escola pública. No meu primeiro dia na Universidade, teve uma apresentação dos coletivos que estavam ali lutando contra a opressão dentro do curso de Ciências Sociais. Então, o coletivo negro, o coletivo feminista, o coletivo LGBT.

No coletivo negro, algumas pessoas chegaram em mim depois me convidaram a entrar. Eu disse que não era negro. No dia seguinte, outras pessoas me convidaram para entrar no coletivo da juventude, dizendo que ainda não tinha nenhuma pessoa negra. Eu achei isso um absurdo, para começar, né? Mas, para além disso, eu falei: “Eu não sou negro”.

E aí, ao longo dos dias, das semanas, dos meses, eu fui entendendo que, ali dentro, eu era racializado e que eu era visto e tratado como uma pessoa negra, né? No primeiro semestre, a gente teve Antropologia Evolucionista, mas, sem sentir, aquela disciplina, aquele semestre, para mim, foi muito importante para entender o desenvolvimento do racismo, principalmente no Brasil, para entender essa tentativa de embranquecimento da população por meio da miscigenação, os projetos e ideias eugenistas que tiveram ali no pós-abolição da escravidão.

Então, tudo isso, para mim, foi muito importante para que eu conseguisse entender o meu lugar racial, uma posição racial no Brasil. E, consequentemente, eu fui para o coletivo negro do meu curso. Isso, somado àqueles episódios que eu disse que eu passava, por exemplo, de preconceito, de discriminação, e eu entendi que, sozinho, não sobreviveria, ali dentro.

Na primeira semana da calourada, eu fiz amizade com várias pessoas de periferia, pessoas negras que estavam entrando na universidade também. Então, eu formei um grupo de amigos e era uma forma de me fortalecer, mas, para além disso, eu queria me organizar politicamente.

Então, eu entrei para o coletivo negro, entrei pro coletivo LGBT, depois de um ano eu também entrei pro coletivo socialista e para o Centro Acadêmico do meu curso. Então, eu fiz parte de todos esses coletivos e movimentos por entender que só assim, coletivamente organizado, eu conseguiria sobreviver lá dentro. E isso é uma coisa que eu levo para a vida, é uma coisa que eu passo para as pessoas nas minhas palestras. Para os alunos: “Entrem na universidade, mas entrem sabendo que o ambiente é hostil a nós. Então, vocês têm que se coletivizar, se acolher, para conseguir resistir e sobreviver dentro desse espaço. Entrem na Universidade para mudar a sua realidade, para mudar a realidade da sua família, mas também da sua quebrada, do seu bairro, da sua cidade, do seu país. Estude para isso, se mobilize e se organize para isso. Não pense só em você Se eu pensasse só em mim, eu não estaria fazendo esse trabalho hoje, né?”

Eu entrei na USP, poderia estar trabalhando, se eu quisesse, numa ótima escola privada, ganhando um salário de R$10 mil e dane-se os outros, mas eu não penso dessa forma, né? Eu penso em voltar para a base, de estar atuando nas escolas públicas, nas instituições socioeducativas etc., que é o público que eu prefiro trabalhar.

Pelo seu trabalho e posicionamento, a gente percebe que o seu arcabouço teórico é extremamente amplo e aprofundado. Quais são suas principais referências? 

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): Eu decidi que queria fazer Ciências Sociais quando eu passei a ter aula de Sociologia no primeiro ano do ensino médio. Então, minha primeira referência foi minha professora, a Cris. Ela foi uma grande referência para mim nesse sentido.

Na sequência, conheci os canais da Nátaly Neri e da Neggata. Duas mulheres negras que cursaram Ciências Sociais em universidades públicas: a Nátaly, na Unifesp, e a Negata, na UnB.

Então, elas foram outras duas grandes referências para mim. Ao mesmo tempo, tive como referências grandes rappers, sobretudo o Mano Brown, do Racionais MC’S, além do Eduardo Taddeo, do Facção Central. Eles foram muito importantes para mostrar como estudar é importante e como se posicionar contra as desigualdades também é importante. Ouvir as letras deles me dava gás para sobreviver, seguir em frente, tá ligado? Assim como outros rappers.

Eu ouvia muito a Tasha e a Tracie, a Linn da Quebrada e a Gloria Groove. Estou falando de 2016, 2017 e as pessoas LGBTQIA+ também foram muito importantes naquele momento da minha vida, para que eu tivesse força para resistir, sobreviver, enfrentar e ir para cima.

Na sua bio do youtube, você cita o verso da música “Chico Xavier do Gueto”, do Facção Central, “injetar ódio no cérebro do conformado, informação no desinformado e autoestima no derrotado”. A partir disso, qual a estratégia para concretizar essa visão trazida na canção, sabendo que a elite domina os meios de comunicação, como as emissoras de televisão, as rádios e as redes sociais, como você já disse em entrevista no Mano a Mano?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): É muito difícil mesmo, né? A gente, que é de esquerda, fica cada vez mais pessimista a cada ano que passa e a cada eleição. A gente está fazendo essa entrevista um dia depois da eleição em primeiro turno.

Aproveitando o assunto, tem outra pergunta que acredito que possa ser respondida junto: o que os resultados das eleições de 2026 refletem no contexto geopolítico do Brasil e da América Latina?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): Eu fazia parte da Ação Subversiva no final de 2018, começo de 2019 e o lema dela era: “organizar a revolta e mobilizar as esperanças”. É isso que a esquerda deve fazer, e é isso que a extrema-direita faz, tá ligado? Eles mobilizam sentimentos que a população tem, porque dentro do nosso sistema, naturalmente, as pessoas vão ter ódio e vão ter revolta.

A esquerda está fazendo o papel de bombeiro da luta de classes. Quando começa pegar fogo, a gente vai apagar esse fogo. A esquerda assume esse papel de abafar, de colocar panos quentes, de dizer para a população: “Calma, vamos conciliar. O amor vai vencer o ódio.”

Mas a gente tem uma bancada boa eleita para tentar mudar um pouquinho as coisas, né? São pessoas mais jovens, que têm mais domínio das redes sociais. As redes sociais são terreno do inimigo. A política institucional é também terreno do inimigo. Mas a gente não pode deixar esse espaço vago.

A gente não pode deixar que a casa grande domine as 513 cadeiras na política. A gente não pode achar que as grandes mudanças estruturais vão sair de lá, porque não vão, mas também não podemos deixar que só eles estejam lá. Temos que arrancar essas cadeiras deles e fazer esse enfrentamento lá dentro. A mesma coisa vale para as redes sociais.

A luta política hoje é digital. A gente tem que abrir mão da luta na rua, na base? Não, de forma alguma. Mas a comunicação de massa hoje está ali. Ela não está em entregar panfleto na rua, está em fazer vídeo de um minuto no TikTok, no Instagram, tá ligado? Infelizmente, isso é verdade. 

A gente tem que continuar o trabalho de base, porque o único lugar de onde não podem tirar a gente, a menos que nos prendam ou nos matem, é a rua. Eu fico olhando para que aconteceu com o meu Instagram, mas nunca saí da rua, né? Durante todos esses 11 meses, depois que me baniram do Instagram, não teve uma semana em que eu não estivesse em uma escola pública periférica, num cursinho popular, numa Fundação Casa, em São Paulo, a antiga Febem, num presídio, num Serviço de Acolhimento, fazendo uma comunicação direta, cara a cara, olho no olho e, mais do que isso, somando com esses movimentos sociais.

Então, eu estou junto com os movimentos de mães que lutam contra a violência policial. Eu estive também nas lutas contra a Operação Escudo e a Operação Verão. Enfim, estou em movimentos por moradia… É para eles que eu quero direcionar essas pessoas.

Então, um vídeo é tipo um topo de funil: você vai se sensibilizar, vai se mobilizar e o que vai fazer com isso? Vai atrás de movimento social. Se você está na escola, vai para o grêmio estudantil. Se não tem grêmio, funda um. Se você está na universidade, vai lutar no movimento acadêmico, vai para algum coletivo de luta, vai fazer alguma coisa. A gente tem que estar organizado coletivamente.

Considerando os diferentes espaços em que você atua, como escolas, universidades, unidades da Fundação Casa e outros ambientes que historicamente são marginalizados pela sociedade, como você percebe a identificação e a recepção dos estudantes e do público com você? Você percebe diferenças na forma como é recebido e visto nesses espaços, por exemplo, entre um público de uma escola de elite e jovens de contextos periféricos ou socialmente marginalizados?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): Teve um episódio muito significativo para mim, quando eu palestrei em uma escola pública no Tatuapé. Para quem não conhece, o Tatuapé é um bairro de classe média alta que fica no começo da Zona Leste de São Paulo, mas também há bairros pobres e algumas favelas por perto.

Era uma escola pública que concentrava vários alunos brancos de classe média, mas também muitos alunos pobres e negros que vinham de longe, de regiões do extremo leste, para estudar naquela escola. Talvez aquela tenha sido a primeira palestra que fiz em que não houve um silêncio absoluto por parte dos alunos.

Geralmente, os alunos prestam muita atenção, e os professores sempre falam: “Eu nunca vi esses alunos tão concentrados na minha vida”. Eu fico duas horas falando sobre educação, a situação da universidade pública e a adolescência na era das redes sociais. 

Só que, naquele dia, um grupo não ficou em silêncio. Alguns alunos estavam virados de costas, conversando, e eu precisava falar mais alto. Quando olhava, percebia claramente que os estudantes que prestavam atenção eram os negros e periféricos. Os que conversavam, virados de lado ou de costas, eram brancos, com um perfil mais associado à classe média.

Naquele dia, percebi que as coisas que falo geralmente não são tão atrativas para esse público. Minha palestra busca justamente mobilizar uma certa indignação e revolta dos adolescentes contra a desigualdade que faz com que as universidades estejam lotadas de pessoas brancas, ricas ou de classe média, muitas delas vindas de escolas particulares.

Na palestra, falo, por exemplo, sobre o estudante de classe média que faz o ensino fundamental em uma escola particular e depois entra em um Instituto Federal para aproveitar as oportunidades de acesso à universidade. Não acho isso justo. Por que esse aluno se interessaria por um discurso que questiona uma situação da qual ele próprio se beneficia? Ele não vai se identificar; vai virar de lado e ficar conversando.

Quando falo sobre como as famílias de classe média conseguem preparar os filhos desde o ensino fundamental para que cheguem mais bem preparados à universidade, estou direcionando minha fala a um público específico. Esse público para e presta atenção, enquanto o outro, muitas vezes, não.

Com essas experiências, fui percebendo esse padrão em várias escolas. Uma vez, dei uma palestra em uma escola no centro de Diadema, cidade da região metropolitana de São Paulo, e aconteceu a mesma coisa.

Por conta dessas experiências, fui deixando de fazer palestras em escolas centrais. Não faço palestras apenas em escolas particulares, porque acho que seria ainda mais difícil. Também vou a escolas técnicas públicas de São Paulo, principalmente as de ensino médio. Mas muitos alunos fizeram o ensino fundamental em escolas particulares e depois foram para uma Etec ou um Instituto Federal para ter acesso às oportunidades. Quando entram na universidade, são considerados estudantes de escola pública.

Se já tenho dificuldade para dialogar com esse público em escolas públicas, imagina em uma escola particular. Por isso, não gosto muito de trabalhar com esse perfil de público. Já a recepção dos estudantes pobres e periféricos é muito boa, principalmente na Fundação CASA. É justamente por isso que quero entrar como professor da Fundação CASA no ano que vem.

Fiz a prova do processo seletivo em São Paulo para dar aulas lá. Não é um concurso para uma vaga permanente, mas um processo seletivo para contrato temporário. Fui muito bem colocado, então é possível que eu seja chamado no começo do ano. Quero muito dar aula na Fundação CASA e trabalhar com esses adolescentes em uma situação educativa, porque as palestras com eles são sempre as melhores.

Existe um estigma muito grande em relação a esse público, que é extremamente marginalizado. Ainda chamam esses adolescentes de “menores infratores”. Esse termo não é mais utilizado da mesma forma; falamos em adolescentes em conflito com a lei, porque eles já carregam uma visão pejorativa sobre si mesmos.

As pessoas dizem que são bandidinhos, trombadinhas, que são isso ou aquilo, e sequer tentam dialogar com eles. Quem está lá conversando com esses adolescentes são as igrejas. Nos presídios e nas unidades da Fundação CASA, a Igreja Universal, principalmente, está presente. Eu também quero estar lá, oferecendo uma perspectiva de futuro e tentando entender a cabeça desses jovens: por que entraram para o crime? Não vou dizer, como faz a direita, que eles entraram para o crime somente porque são sem-vergonha ou mau-caráter. 

Existem questões muito subjetivas. Há quem queira ter uma sensação de poder. Na quebrada, a pessoa pode sentir que não é ninguém e querer se tornar alguém. Pode querer ter uma arma, ficar em uma esquina traficando e sentir o poder de gritar com um morador.

Também existe a possibilidade de ganhar mais dinheiro no tráfico do que em um trabalho formal, em determinadas situações. São questões relacionadas à vontade de ter poder, status e atenção, de se colocar contra o sistema e de conseguir dinheiro para colocar lentes nos dentes, usar cordão de ouro, vestir roupas de marca e comprar a melhor moto. Também entra aí a questão das meninas.

Eu tento mostrar a esses jovens que, estudando e acessando uma boa universidade, eles também podem conquistar algumas dessas coisas. Começo minhas palestras contando o que aconteceu comigo. Eu simplesmente comecei a sair em vários jornais por ser um Chavoso na USP. Uma vez, um moleque me falou: “Cara, agora eu quero entrar na universidade só para sair no jornal”.

Às vezes, não se trata apenas de aparecer. A pessoa quer ser vista e respeitada, quer ter sua foto estampada no jornal. Infelizmente, muitas vezes, ela aparece de forma negativa, porque roubou, está foragida ou foi morta. Mas também pode aparecer de forma positiva, dando orgulho à mãe, em vez de vergonha ou desgosto.

É essa possibilidade que tento mostrar aos jovens. Por isso, tenho uma grande aceitação entre eles. As palestras na Fundação CASA são as melhores, as que têm mais interação. As meninas fazem mais perguntas e comentários.

Saio de lá aplaudido de pé. Um por um, eles vêm me cumprimentar e dizem que, quando saírem de lá, vão me seguir nas redes sociais e entrar na universidade. Isso me dá um ânimo e uma esperança muito grandes. O trabalho com eles me anima muito.

Na universidade, geralmente também tenho uma boa recepção, embora quem costuma me ouvir sejam os meus seguidores. Há uma ou duas semanas, participei de uma mesa na USP e havia uma fila enorme de pessoas querendo falar comigo. Alguns disseram que tinham me visto palestrar em suas escolas e que, depois disso, haviam entrado na universidade.

Também tenho uma recepção muito boa em outras regiões do Brasil. Claro que isso depende do estado e da cidade, mas o público que mais comparece às minhas palestras costuma ser formado por jovens negros e periféricos.

Uma vez, fiz uma palestra no Sesc Ceilândia, no Distrito Federal. Ceilândia é uma região periférica, e os organizadores me disseram que aquela havia sido a primeira vez que o auditório ficou cheio e que uma palestra esgotou os ingressos. Também foi a primeira vez que viram uma fila para tirar fotos com o convidado. Fico muito feliz com essas experiências. Não falo disso para me achar, de forma alguma, mas talvez para mostrar à esquerda um exemplo do que fazer.

Em Poços de Caldas, aqui na nossa região, onde há inclusive um campus da Universidade, um projeto de mineração de terras raras está em fase de licenciamento. Como você avalia a exploração desses recursos no Brasil e a participação de empresas estrangeiras nesse setor? Que possíveis consequências você vê para a população e o meio ambiente?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso): Sem dúvida, vai ser extremamente prejudicial. Com certeza, haverá consequências para as pessoas que moram nas proximidades. As empresas chegam, exploram os recursos e deixam as consequências para a população local e para o país.

Temos vários exemplos disso, como Brumadinho e Mariana. A mineração provocou grandes tragédias e foi responsável por desastres que deixaram consequências profundas. Quem ficou com o prejuízo foi a população local, além da própria natureza.

O que você acha da frase Universidade pública, gratuita e de qualidade?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso):  É o que eu defendo. A minha proposta é estatizar todas as universidades privadas. Assim, a gente garantiria o ensino superior público e gratuito para todo mundo. Pega todas essas milhares ou milhões de vagas que existem nas universidades privadas e passa para o controle público. Então, tira todo esse investimento, esses milhões e bilhões do Sisu e do Fies e joga para o investimento nas universidades públicas ou, aliás, estatizar essas universidades, né?

Então, a gente precisa ter um ensino superior universalizado, 100% público e gratuito, com bastante investimento, de qualidade, sem qualquer processo seletivo e acessível para todo mundo.

Para finalizar, quais políticas educacionais poderiam ser criadas e aplicadas para atingir os territórios periféricos e também outras para o sistema carcerário no sentido de alterar a lógica estrutural das pessoas consideradas à margem da sociedade pelo Estado necropolítico e das pessoas privadas de liberdade? Além disso, quais são seus próximos planos para o seu trabalho na área educacional e quanto influencer?

Thiago Torres Moura Santos (Chavoso):  Bom, sobre a educação, a gente está vivendo um momento dramático no nosso país, né? Então, a gente tem um governo que tem responsabilidade sobre as universidades federais e os institutos federais. Ele também tem alguma interferência nas escolas.

Então, a gente precisa, primeiro de tudo, acabar com esse teto de gastos. A gente precisa acabar com qualquer limite fiscal que impeça o aumento dos investimentos no ensino público. 

A gente também está vendo a plataformização do ensino. Os professores estão virando passadores de slides, e não têm liberdade para dar aula como querem. Simplesmente precisam apresentar os slides previamente formulados pelo governo, pela Secretaria da Educação. Eu não sou contra o uso da tecnologia, muito pelo contrário. Tem que usar, mas não dessa forma.

Essa plataformização está sendo uma privatização do ensino, inclusive, porque as plataformas são de empresas privadas contratadas pelo governo do estado. Os professores estão desvalorizados. Eu sei que, na maior parte dos estados, não está tendo concurso público. O professor é contratado temporariamente, com um contrato precário, sucateado. A escola já não é mais atrativa para os alunos.

Temos também o Novo Ensino Médio. Então, a gente teve uma reforma da reforma do ensino médio, que não melhorou praticamente nada. Isso faz com que o ensino esteja precário. Os alunos não têm aprendido nada na escola. Essa é a verdade. E ela não tem sido nem um pouco atrativa para eles.

Num primeiro momento, eu proporia revogar tudo isso, todas essas políticas que foram promovidas nos últimos anos. Elas só pioram a educação, não melhoraram nada. Eu procuraria outras soluções. Por exemplo, o ensino integral não é necessariamente um problema, mas, para que seja eficaz, a estrutura da escola tem que ser boa. Então, a gente precisa de mais orçamento para a educação. Tudo gira em torno do orçamento, de aumentar o orçamento. A gente precisa de mais investimento na educação pública, precisa ter uma estrutura muito boa para que a escola seja atrativa.

As aulas têm que ter mais tecnologia, com certeza. Porque aquela aula dos anos 1950, de lousa, giz e cópia, sabe? Isso é coisa do século passado, é totalmente ineficaz. 

Outra coisa, as salas são muito lotadas, com 50 ou 60 alunos dentro de uma sala. Eu defendo muito mais que a gente faça aulas com as carteiras em círculo, por exemplo, para todo mundo olhar para todo mundo. Não tem alguém na frente e os outros atrás. Todo mundo compartilha, todo mundo fala. Mas, para isso, o professor também precisa ter mais tempo de aula. As aulas são muito curtas, e o professor perde muito tempo fazendo várias coisas burocráticas.

Sobre meus planos, eu fiz duas provas muito importantes, né? Uma foi a prova para o processo seletivo para dar aula, como eu falei, e eu fiquei numa posição muito boa. Então, eu pretendo, no ano que vem, estar como professor em São Paulo. A minha preferência é a Fundação CASA. Se, por acaso, eu não conseguir, talvez eu vá tentar no sistema prisional também. E, se eu não conseguir, talvez na escola pública.

Chavoso da USP, durante entrevista ao Jornal UNIFAL-MG, na 5ª Jornada de Ciências Sociais da Universidade.

E a outra prova que eu fiz foi a prova do mestrado na USP, né? Então, agora eu vou seguir para o mestrado. Passei na prova e vou seguir. E aí eu vou seguir para o mestrado na Faculdade de Direito da USP, na área da crítica marxista do direito, e talvez, muito provavelmente, pesquisando justamente o sistema socioeducativo ou o sistema prisional.

Para as redes sociais, eu só pretendo conseguir conquistar meu Instagram de volta, crescer mais no TikTok e no YouTube. Eu tenho crescido muito, né? Estou muito feliz que meu TikTok tem crescido bastante. Espero que o pessoal continue, porque é um canal de comunicação com jovens e adolescentes muito potente.

E, por fim, observando os rumos que o nosso país está tomando e o abismo para o qual a gente está caminhando, eu tenho que começar a pensar em lutar, pela primeira vez na minha vida, pela política institucional. É uma coisa que eu ainda vou pensar muito, sabe?  Então, talvez não no momento, mas nos próximos anos isso aconteça. Antes de tudo, eu preciso me organizar politicamente de novo, né? Não tem nenhum movimento nesse momento, mas eu estou me reaproximando de um movimento, o Poder Popular. Já fiz parte e talvez eu volte para ele em algum momento. E essa ideia pode ser colocada em prática em algum momento, né? É só uma ideia.

Nota: A entrevista foi realizada no dia 05 de outubro, com duração de 01h30. Para a publicação, o conteúdo foi reduzido, sem perder as principais informações e ideias apresentadas pelo entrevistado.

Participe do Jornal UNIFAL-MG!

Você tem uma ideia de pauta ou gostaria de ver uma matéria publicada? Contribua para a construção do nosso jornal enviando sugestões ou pedidos de publicação. Seja você estudante, professor, técnico ou membro da comunidade, sua voz é essencial para ampliarmos o alcance e a diversidade de temas abordados.

LEIA TAMBÉM