Um trabalho integrado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da UNIFAL-MG contribuiu para a reestruturação do serviço de Cata-Treco de Poços de Caldas. A iniciativa reuniu mudanças administrativas e operacionais e a análise de dados sobre a demanda e o perfil dos usuários, o que ampliou a capacidade diária de atendimento de aproximadamente 12 para 40 solicitações, crescimento de 233%.
O Cata-Treco é um serviço público e gratuito de coleta agendada de resíduos volumosos que não são recolhidos pela coleta domiciliar convencional, como colchões, sofás, camas, armários, mesas e cadeiras. Após o agendamento, o morador disponibiliza os objetos na data programada para a realização da coleta. Os materiais em condições de reutilização podem ser separados e encaminhados ao Ecoponto municipal para armazenamento temporário e posterior doação, enquanto os demais seguem o fluxo de destinação adotado pelo município.
Dois trabalhos acadêmicos complementares utilizaram o serviço como objeto de estudo. A tese Resíduos volumosos no município de Poços de Caldas: gerenciamento e valorização foi desenvolvida por Isis Alves e avaliou a implantação do novo modelo de gestão.
A dissertação Análise espaço temporal da demanda e do perfil dos usuários do serviço de Cata-Treco de resíduos volumosos em Poços de Caldas-MG, de Myllena Isabella Gonçalves Oliveira, investigou a distribuição das solicitações e as características socioeconômicas dos usuários.
Os trabalhos foram orientados pelo professor Rafael de Oliveira Tiezzi, docente vinculado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e também ao PPGCA da UNIFAL-MG. Isis Alves e Myllena Oliveira também atuam na Prefeitura de Poços de Caldas e participaram conjuntamente da execução das ações e da produção dos dados utilizados nas pesquisas.
Para o orientador, a principal contribuição está na integração entre a operação do serviço público e a análise científica das informações geradas. “A grande descoberta conjunta é que a gestão de resíduos volumosos não deve ser vista como uma tarefa meramente operacional, mas como uma política estratégica e integrada”, afirma Rafael Tiezzi.
Segundo o professor, a tese demonstrou os ganhos operacionais e sociais relacionados à reestruturação técnica e administrativa. Já a dissertação mostrou que o planejamento do serviço também depende da compreensão do perfil socioeconômico e territorial da cidade, inclusive para identificar os grupos que utilizam menos o sistema e orientar ações específicas de comunicação e educação ambiental.
Gestão baseada em dados
Antes dos estudos, o Cata-Treco enfrentava dificuldades relacionadas à falta de informações sistematizadas, ao planejamento das rotas, à demora na realização das coletas, ao retrabalho e à baixa rastreabilidade das solicitações. Segundo as pesquisadoras, os problemas estavam ligados à ausência de uma gestão estruturada, apoiada em mecanismos permanentes de planejamento, acompanhamento e avaliação.
“A falta de informações sobre a distribuição espacial da demanda, o perfil dos usuários, os tempos de atendimento e o desempenho operacional comprometia a tomada de decisões, dificultando a elaboração de estratégias mais eficientes, a alocação adequada de recursos e o aprimoramento contínuo do serviço”, comenta Isis Alves.

A pesquisa foi desenvolvida na Divisão de Zeladoria da Região Oeste da Prefeitura de Poços de Caldas entre 2022 e 2024. O trabalho envolveu o diagnóstico do sistema, a proposição de melhorias e a avaliação das mudanças implementadas.
Entre as medidas adotadas estiveram a digitalização dos agendamentos e das ordens de serviço, o agrupamento das solicitações por regiões da cidade, a reorganização das rotas, a comunicação em tempo real entre a administração e as equipes de campo, a capacitação dos servidores e a adequação da frota às características do serviço.
Os pedidos passaram a ser acompanhados desde o agendamento até a realização da coleta, com registros digitais e fotográficos. A organização das informações também permitiu criar indicadores de volume, produtividade e ociosidade.
Para Isis Alves, a principal transformação não ficou restrita às ferramentas utilizadas. “O impacto mais profundo foi a mudança cultural. A equipe passou a trabalhar baseada em indicadores. Adotamos a cultura de que ‘quem não mede, não gerencia’. Passamos a coletar dados sistemáticos sobre volume, produtividade e ociosidade, o que nos permitiu, pela primeira vez, planejar o serviço com base em evidências, saindo de um modelo reativo para um modelo proativo”, relata.

Conforme Isis Alves, a reorganização ampliou a capacidade operacional de aproximadamente 12 para 40 solicitações atendidas por dia.
O resultado não decorreu de um aumento proporcional da estrutura disponível, mas da reorganização dos processos e do melhor aproveitamento das equipes e dos recursos.
“É importante destacar que esse aumento da capacidade de atendimento não decorreu da ampliação da equipe ou da estrutura disponível, mas da eliminação de desperdícios operacionais, da otimização dos processos e da implantação de um modelo de gestão baseado em evidências”, enfatiza.
Em 2024, o Cata-Treco recolheu, em média, aproximadamente 112 toneladas de resíduos volumosos por mês, o equivalente a cerca de 4,5 toneladas por dia. O serviço também passou a incorporar um fluxo para identificar materiais ainda em condições de utilização.
Por meio do projeto Doar Faz Bem para o Coração, o Seu e de Quem Precisa, os itens reutilizáveis podem ser encaminhados ao Ecoponto municipal para armazenamento temporário e posterior destinação a famílias em situação de vulnerabilidade. Até dezembro de 2024, a iniciativa havia beneficiado 240 famílias.
Desigualdades territoriais no acesso
A reestruturação e a organização dos registros permitiram que a dissertação de Myllena Oliveira analisasse mais de 20 mil solicitações realizadas entre janeiro de 2021 e dezembro de 2024.
Os endereços foram revisados, padronizados e convertidos em pontos no mapa da cidade. Em seguida, as informações foram relacionadas às áreas da cidade definidas pelo Censo e a indicadores de renda e alfabetização. A pesquisa utilizou Sistemas de Informação Geográfica (SIG), ferramentas que permitem associar dados às diferentes áreas de um território.
De acordo com Myllena Oliveira, a análise mostrou que o uso do serviço não ocorre de forma uniforme em Poços de Caldas. As solicitações se concentraram em áreas de renda baixa a intermediária, enquanto regiões de extrema vulnerabilidade e setores de renda mais elevada apresentaram utilização proporcionalmente menor.
“Os mais de 20 mil registros de solicitações analisados revelaram que a utilização do serviço de Cata-Treco em Poços de Caldas não ocorre de forma homogênea no território. Os resultados demonstraram que áreas periféricas de extrema vulnerabilidade ou áreas de altíssima renda utilizam o serviço proporcionalmente menos, mostrando que a demanda é moldada por padrões de consumo e pelo acesso à informação”, explica.
Nas áreas de renda mais elevada, a menor procura pode estar relacionada à utilização de serviços privados de retirada, à realização direta de doações e a outras formas de destinação dos materiais. Nos setores de maior vulnerabilidade, a menor utilização pode decorrer tanto da menor renovação de móveis e utensílios quanto de barreiras para conhecer e solicitar o serviço.

A análise também identificou a concentração de solicitações em áreas onde estão localizados equipamentos institucionais. “Verificou-se que determinados equipamentos institucionais, como escolas, creches, presídios e unidades administrativas, bem como características territoriais contribuem para a concentração da demanda em áreas específicas da cidade”, aponta.
A pesquisa encontrou ainda uma relação entre melhores indicadores de alfabetização e maior utilização do Cata-Treco. O resultado sugere que o acesso às informações sobre a existência do serviço, seu funcionamento e os procedimentos de agendamento interfere na participação da população.
Myllena Oliveira ressalta, entretanto, que a menor quantidade de solicitações não deve ser interpretada automaticamente como ausência de necessidade. “A menor utilização do Cata-Treco em áreas com maiores índices de analfabetismo pode estar relacionada tanto a barreiras de acesso à informação quanto às condições socioeconômicas dessas populações”, enfatiza. Segundo ela, os resultados do estudo sugerem que melhores indicadores educacionais estão associados a maior uso do serviço, e que tanto o conhecimento sobre sua existência e funcionamento, quanto as formas de solicitação influenciam na utilização.
“Populações com menor nível de alfabetização tendem a apresentar menor participação no serviço formal de coleta, possivelmente devido a dificuldades de acesso à informação, à comunicação institucional e aos procedimentos de agendamento. Assim, a menor demanda observada pode refletir uma subutilização do serviço, e não necessariamente uma menor necessidade de descarte”, afirma.
Os resultados podem contribuir para direcionar ações de divulgação e educação ambiental às regiões com menor utilização do serviço, além de auxiliar no planejamento das rotas e na distribuição dos recursos municipais.
Cartilha e desdobramentos
A integração entre os dois trabalhos também resultou na elaboração da Cartilha para Gestão Municipal de Resíduos Volumosos – Cata-Treco. O material reúne procedimentos, fluxos de trabalho, instrumentos de gestão e orientações para municípios interessados em implantar ou aprimorar serviços semelhantes.

“A criação da nossa cartilha de implementação de sistemas de cata-treco, feita para gestores municipais, vai permitir que outros municípios aprendam com o erros e acertos da nossa pesquisa, como implantar um sistema eficiente de cata-treco em seus municípios, já partindo de um ponto avançado e testado”, informa o professor Rafael Tiezzi.
Isis Alves também comenta a respeito de transformar a experiência científica em um guia prático como modelo replicável para estruturar, implantar e aprimorar um serviço de cata-treco municipal. “A cartilha é uma referência porque não é teórica; é baseada em evidências reais de gestão pública e está em fase de institucionalização via decreto em Poços de Caldas, mostrando que a pesquisa acadêmica pode, sim, gerar impacto direto na melhoria do serviço público e da qualidade de vida da população”, garante.
A previsão é que a cartilha seja lançada em novembro durante uma programação relacionada ao saneamento que está sendo organizada com a participação de projetos da UNIFAL-MG e da Prefeitura de Poços de Caldas. O material está em processo de editoração e deverá subsidiar uma futura instrução normativa do município, a ser formalizada por meio de decreto.
Além da cartilha, os trabalhos geraram ainda três artigos submetidos a revistas científicas. Outros dois trabalhos estão previstos para apresentação no Encontro Técnico da Associação dos Engenheiros da Sabesp durante a Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, entre os dias 20 e 22 de outubro de 2026, em São Paulo.

















