Para ler a poesia de Marcos de Carvalho

Atualizado em 11/06/2026 15:04

que ambulância de sonhos
 recolherá nossos corpos?

Poucos livros haverá, na poesia brasileira de todos os tempos, densos como as duas reuniões publicadas pelo alfenense Marcos de Carvalho, professor da UNIFAL-MG desde 2009. Breviário da neve nos trópicos (2005) e Subúrbio da arte (2018) são obras muito diferentes entre si, mas coincidem no fato de terem estruturas cerradas – a sequência dos poemas importa, e muito –, além de na alternância entre o puro lirismo e a reflexão filosófica, os quais com frequência se amalgamam no mesmo poema. Especialmente na primeira delas, a lógica que preside à sequência é inseparável da imbricação semântica entre os textos. É claro que seus leitores, ainda em número muito menor do que faria supor a importância dessa poesia essencialmente sul-mineira – conquanto universal pela amplitude dos temas e referências – que poderão descobrir outros caminhos que não os supostos na dita estruturação; depois de publicado, um livro já não pertence tanto a quem o fez. Leiam-se estas linhas tendo isto em conta: resultam de uma das interpretações possíveis desses dois cumes visíveis (por ora) do iceberg poético marcoscarvalhiano; leitura que pode ter a limitação afetiva de uma longa amizade e, ao mesmo tempo, ser compensada pelas “dicas de cocheira” proporcionadas pelo convívio com o autor.

A coesão estrutural é mais evidente no Breviário, dividido em quatro partes e produzido em formato pocket. Cada qual remete a uma estação da natureza e antes de cada parte, o autor fez um poema para introduzi-los. Essa quadripartição expõe, de saída, a infiltração da pesquisa que o poeta fazia na época sobre a obra de Fernando Pessoa. Marcos de Carvalho é um grande estudioso e conhecedor da poesia pessoana, objeto de seus trabalhos de mestrado e doutoramento na UFRJ. As marcas são por demais evidentes, e propositadas: não só a dicção do heterônimo Alberto Caeiro ressoa no primeiro poema da terceira parte (elas são chamadas de “livros”) como o influxo ainda repercutirá, com maior explicitude, em Subúrbio da arte, patenteado por títulos como “Alba” e “Fausto”, referências claras aos ingredientes alquímicos e literários da fórmula poética pessoana.

No título da primeira reunião já é possível, porém, perceber que tal impregnação não explica tudo. Ele remete ao Breviário de decomposição (1949) de Emil Cioran, filósofo romeno, uma das outras balizas incontornáveis da cosmovisão do poeta alfenense. A “neve nos trópicos”, aí talvez sem intenção, traduz aquele “torcicolo cultural” mencionado por Roberto Schwarz como constituinte da cultura brasileira: olhamos para a Europa, até pelo menos a metade do século XX, tendo os pés plantados numa América da qual pouco conhecemos. No caso de Marcos, é falar de um Sul de Minas um pouco alheio à grande cultura, imerso em seu passado rural recente e, em termos de inconsciente coletivo, onipresente para corpos pensantes de pés plantados no chão. Nesse lugar real, qualquer imaginário metropolitano, desfeito em sutilezas que muito chegam a dizer da concretude do que nos cerca, derrete-se rapidamente (“neve”) ao calor de um ambiente cultural tosco, quase situado em recuados tempos – os mesmos daquela memória arcaica que o poeta, escavando sua própria história, esculpe em muitos de seus versos.

Assim, a imagética realista de uma poesia de base telúrica transita das lembranças personalíssimas ao plano do mito, emblema por excelência da poética pessoana, como ao transformar ramela em lirismo no poema “O olhar e a lesma”:

como atestam os rastos
de cada uma acordados
no canto de cada olho
(não sei por que se espantam
os do comércio
quando peço um par de óculos de sal)

 

Um dos estopins de Marcos é a evocação de cenas, transpostas em versos elípticos que enformam sua mitificação do vivido. Como no sempre reproposto diálogo com as amadas, vertido por meio de flashes líricos que, mesmo denunciadores de pungente emoção, desembocam na ironia e se tornam, por vezes, sardônicos. Certa amada (talvez nem tanto assim) comparece em “Segredo” na condição de invasora da privacidade:

estas manhãs
assim tão líricas
te sabem intrusa 
era isso
era isso que queria te contar

Numa primeira leitura, os versos do poeta podem parecer unicamente tributários da poesia moderna e de contemporâneos – ou já nem tanto – como o Concretismo e Leminski. Mas, não se engane, a de Marcos é uma das poéticas mais elaboradas de nosso tempo, e desde o princípio também supõe intenso diálogo com os clássicos. Não raro, além da mestria rítmico-estrutural meio oculta na simplicidade aparente, o poeta lança mão do verso decassílabo, de rimas que comparecem não como regra, mas como elementos de surpresa, e principalmente de uma imagética desconcertante, da qual “Papel de seda”, cuja primeira metade se transcreve a seguir, vale como amostra.

o rebanho
lentamente sobe a encosta
nesta manhã de chuva

há o gemido
de um automóvel
que luta distante contra o barro

 e sincopados
os pingos sobre uma
velha bacia de alumínio

Até aqui, fez-se do Breviário um apressado bosquejo. Em Subúrbio da arte a elaboração poética de Marcos de Carvalho apresenta-se muito mais refinada. Não se trata apenas da admissão de iniciais maiúsculas, a substituir certa ortodoxia concretista da coletânea anterior. O primeiro poema é um “prefácio” que engoliu o livro inteiro, e anuncia outra aluvião de técnicas poéticas e referências. Sendo impossível, no espaço que nos resta, traduzir toda a complexidade do Subúrbio, transcrevemos, daqui por diante, parte da apresentação feita para sua primeira tiragem.

A metalinguagem tem uma função precisa, muito distante daquela de Joao Cabral e de qualquer outra. Ela funciona como válvula que admite ou não o ingresso de determinado tema ou palavra num poema. É assim: se tal ou qual reminiscência da infância, por exemplo, cabe no projeto poético do autor, ela é admitida – não entrará simplesmente por suas qualidades subjetivas. E essa válvula trabalha admiravelmente, pois poucas vezes uma reunião de poemas resultou em obra de coerência tão estrita.

O projeto de Subúrbio da arte consiste na construção de poemas que discutam o lugar da poesia no mundo atual – raramente, ou subsidiariamente apenas, sua natureza linguística e estética. Esse movimento remonta, no mínimo, a Baudelaire, mas nosso autor prima pelo constante estado de alerta quanto às armadilhas que a vida contemporânea espalha no caminho do poeta. A principal delas talvez seja a tentação de repropor o mito da torre de marfim, explicitamente conjurado no poema que dá título ao livro:

A poesia
é o subúrbio
da arte

Essa gente
que só faz versinho-
caviar

não faz
ideia do que estou
falando

Na poética marcoscarvalhiana, os versos não são o veículo de um discurso a girar em torno de si mesmo; a poesia é o centro da própria vida. Subúrbio da arte expressa um desmedido amor pela poesia como forma de viver, a única forma que o autor conseguiu descobrir em seus 60 anos de existência. São tratados os mais diversos aspectos da vida em geral e da vivência pessoal – tudo filtrado pelo fingimento aprendido na leitura de Pessoa:

mais que esconder
é fingir ser meu
meu próprio rosto

A essência da poesia, aqui, está na dialética entre a forma geral do poema e os pequenos detalhes micropoéticos, tomada não como tema, e sim como processo. Fica evidente a lição modernista de que num poema tudo conta, da ausência de uma vírgula às ambiguidades que subvertem o sentido de uma expressão gasta pelo uso. Aí chegam a caber na poesia ditos populares como “tinha o rei na barriga” e “fazer de besta”. De repente, um arremate súbito reverte completamente a expectativa criada pelo andamento anterior do poema. Ou, em meio à avalanche de imagens retrabalhadas por esse método personalíssimo de incorporar modos de sentir e de dizer, vivências e imaginações próprias e alheias, lá vem a nos surpreender a menção ao sujeito que espia um decote (“Emboscada”): subversivo às avessas, em tempos de histeria politicamente-correta, o poeta merecerá cadeia, como seu “último profeta” Woody Allen?

O que talvez mais chame atenção na poesia de Marcos é a pureza formal já evidente na própria disposição gráfica dos poemas, a qual repercute na exatidão escrupulosa do vocabulário. Num primeiro olhar, literalmente um poeta de linhagem apolínea. Mas essa unidade superficial, paradoxalmente confirmada pela que ecoa no subsolo do poema, é cheia de sumidouros semânticos e contradições escandalosamente expostas na vitrine. Em “Apêndice”, por exemplo, a afirmação feita na segunda estrofe é ao mesmo tempo falsa e verdadeira:

Cada um
faz o que quer
com a poesia

Eu não faço nada
Ela é que faz
comigo

Particularmente atento a dialéticas desse tipo, o poeta sabe que o domínio da linguagem e da forma é tão essencial quanto, a partir de certo ponto, torna-se um triste engano a ser desfeito na própria fatura do poema. Bem diferente, então, das profissões-de-fé utópica e incoerentemente pós-modernas. Como não ficar desconcertado com “Fugidinha”, em que o coloquial mais chão se apresenta lapidar como as figuras poéticas mais buriladas? Ou com a distância entre a clareza solar desse poema e o quase hermetismo de “Bandarra”?

Outro aspecto a não perder de vista, num primeiro reconhecimento de Subúrbio da arte, é a noção de conjunto (bem diferente daquela do Breviário) que preside à sequência dos poemas. Existe uma lógica geral, subordinada a um claro projeto de livro, que se entremostra na repetição de referências: em dois poemas, separados por muitas páginas, são mencionadas personagens do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Tal lógica também fica explícita no díptico, em que a continuidade temática é flagrante, embora nem sempre delimitada; é fácil reconhecê-la na sequência “Canção de Anabel Lee” / “Alçapão”. Já “Perder uma mulher”, “O abandono de Ariadne”, “Outro Tântalo” e “Fim da linha” formam um quadríptico.

Uma apresentação como esta não tem o direito de ser longa ou pretensiosa. Ficam aqui apenas alguns sinais. A merecida análise da poética do autor teria que se espraiar (mas não só por ela) pela imensa variedade temática do livro: de uma reticente declaração de amor às aporias do ensino de teoria literária num curso de Letras, do desalento sentimental às imagens rurais alçadas ao plano do mito, o espectro poético alcançado por Marcos de Carvalho pede leituras muito mais detidas e análises muito mais detalhadas.

 

Ficha técnica da obra:
Título: Breviário da neve nos trópicos
Autor: Marcos de Carvalho
Género: Poesia
Editorial: Impresso na FÁBRICA DE LIVROS, Senai-RJ – CFP de Artes Gráficas
Ano de edição: 2005
Páginas: 63
Onde encontrar: Biblioteca Municipal de Alfenas-MG

Ficha técnica da obra:
Título: Subúrbio da arte
Autoras: Marcos de Carvalho
Género: Poesia
Editorial: Sic Edições
Ano de edição: 2018
Páginas: 115
Onde encontrar: Acessando o Arquivo Literário Sul Mineiro

*Outras obras do autor poderão ser consultadas no Arquivo Literário Sul Mineiro: https://www.unifal-mg.edu.br/arquivoliterario/autores-alfenenses/marcos-de-carvalho/

 Eloésio Paulo é professor titular da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras — uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020). Entre 2022 e 2024, foi colaborador do Jornal UNIFAL-MG, onde assinou a coluna semanal exclusiva Montra, dedicada à crítica e à divulgação de produções literárias.

 

Participe do Jornal UNIFAL-MG!

Você tem uma ideia de pauta ou gostaria de ver uma matéria publicada? Contribua para a construção do nosso jornal enviando sugestões ou pedidos de publicação. Seja você estudante, professor, técnico ou membro da comunidade, sua voz é essencial para ampliarmos o alcance e a diversidade de temas abordados.

LEIA TAMBÉM