O Grupo de Pesquisa em Química Analítica Instrumental, do Instituto de Química (IQ) da UNIFAL-MG, desenvolveu uma pesquisa na qual detectou cádmio – um metal tóxico que pode se acumular no organismo – em maquiagens comercializadas no Brasil. Das 29 amostras de sombras e blushes analisadas no estudo, foi encontrado cádmio em 16, sendo 13 amostras destinadas ao público infantil.
Segundo Mariane Gonçalves Santos, professora e pesquisadora do Instituto de Química, e coordenadora da pesquisa, o número corresponde a 55,2% dos produtos avaliados, com concentrações de até 25,72 miligramas por quilograma. “O estudo não representa todas as maquiagens comercializadas no país, mas mostra que a presença de cádmio não foi um caso isolado e reforça a necessidade de maior monitoramento, especialmente dos produtos infantis”, explica.

Risco estimado maior nos produtos infantis
A pesquisadora pontua que o risco estimado foi maior nos produtos infantis devido a o menor peso corporal das crianças. “O cálculo considerou 60 quilogramas para adultos e 15 quilogramas para crianças. Assim, uma mesma quantidade de cádmio representa uma dose maior por quilograma de peso corporal para a criança. Os produtos infantis também apresentaram uma frequência de detecção ligeiramente maior, mas o resultado 3,4 vezes superior está relacionado principalmente ao menor peso corporal considerado no modelo”, detalha.
O estudo também avaliou possíveis riscos à saúde. Embora os efeitos não carcinogênicos tenham ficado dentro dos parâmetros aceitáveis, uma estimativa conservadora de exposição prolongada indicou a necessidade de atenção ao risco carcinogênico. Segundo a coordenadora, o resultado não significa que o uso de uma maquiagem específica cause câncer. “O que foi realizado foi uma estimativa matemática de risco, utilizando parâmetros internacionais e considerando uma exposição frequente e prolongada”, esclarece a coordenadora do estudo.
Mariane Santos explica que os dados da pesquisa representam uma estimativa preventiva e reforçam a necessidade de monitorar metais potencialmente tóxicos em cosméticos, aprimorar o controle de qualidade e dar atenção especial aos produtos destinados às crianças. “Esses modelos são conservadores e servem como ferramentas de alerta. Quando o valor estimado ultrapassa a faixa de referência, isso indica a necessidade de maior controle e investigação”, afirma.
Além de investigar a presença do contaminante, o grupo desenvolveu e validou uma aplicação de nanopartículas magnéticas para determinar cádmio em maquiagens em pó sem a digestão ácida convencional. “As nanopartículas funcionam como pequenas ‘esponjas magnéticas’. Elas são adicionadas à amostra e retêm o cádmio em sua superfície. Em seguida, um ímã é utilizado para separá-las rapidamente da solução. Depois, o cádmio é retirado das partículas e medido por espectrometria de absorção atômica”, explica.
O método, conforme a pesquisadora, reduz o uso de ácidos concentrados, o tempo de análise e a geração de resíduos, além de dispensar a digestão ácida convencional da maquiagem. “A inovação do trabalho está na utilização desse material para analisar maquiagens em pó, sem a necessidade da digestão ácida convencional”, acrescenta.
Resultados podem contribuir para monitoramento de cosméticos
Para a coordenadora da pesquisa, os resultados podem ampliar o monitoramento de cádmio em cosméticos. “Os resultados podem auxiliar os órgãos reguladores na ampliação do monitoramento e na discussão de limites específicos de cádmio em produtos cosméticos acabados, especialmente naqueles destinados às crianças”, indica.
A pesquisadora também aponta a contribuição no controle de matérias-primas e lotes na indústria, e a possibilidade de subsidiar a discussão de limites para o metal em produtos acabados, especialmente os infantis. “Para os fabricantes, o estudo reforça a importância do controle das matérias-primas, dos pigmentos, dos fornecedores e dos diferentes lotes. O método desenvolvido também pode ser utilizado em análises de rotina de controle de qualidade”, reforça.
Pesquisa reúne estudantes e pesquisadores em diferentes etapas de formação
O projeto de pesquisa é fruto de um trabalho coletivo, que reuniu pesquisadores em diferentes etapas de formação, desde a iniciação científica até o pós-doutorado. Da UNIFAL-MG, participaram estudantes de iniciação científica dos cursos de Química (Bacharelado) e de Farmácia, mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ), uma pesquisadora de pós-doutorado vinculada PPGQ, além da professora Mariane Costa e do professor visitante do Instituto de Química, Bruno Alves Rocha. A pesquisa também contou com a colaboração do professor Fernando Barbosa Júnior, da Universidade de São Paulo, na discussão dos aspectos toxicológicos.
O trabalho ganhou repercussão no artigo Health Risk Assessment of Cadmium in Brazilian Makeup Products Using a Novel MDSPE-FAAS Method publicado na revista científica ACS Omega, no final de julho. Além dos professores Mariane Santos, Bruno Alves Rocha e Fernando Barbosa Júnior, também assinam o artigo Milena Secco de Souza, Cristiane dos Reis Feliciano, Saulo Alves de Souza, Grazielle Cabral de Lima, Nathália Carvalho Costa e Gabriel Oliveira Araújo Costa.
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