TV Box apreendida pela Receita Federal vira protótipo de monitoramento ambiental em pesquisa do campus Poços de Caldas

TCC desenvolvido no ICT resultou em protótipo com equipamento do Programa Além do Horizonte, aplicado em reator de tratamento de efluentes
Protótipo montado na bancada do laboratório na UNIFAL-MG (Foto: Arquivo Rogério Salustiano)

Um equipamento que seria descartado depois de apreendido pela Receita Federal por uso irregular ganhou nova função em uma pesquisa científica desenvolvida no campus Poços de Caldas da UNIFAL-MG. A TV Box descaracterizada pelo Programa Além do Horizonte foi reprogramada e integrada a um conjunto de sensores para monitorar, em tempo real, parâmetros físico-químicos de um reator biológico utilizado no estudo de tratamento de efluentes. O protótipo é resultado de Trabalho de Conclusão de Curso defendido em dezembro de 2025 no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT).

Prof. Rafael Brito de Moura, discente Luiz Felippe Santos Marinello e Prof. Rogério Esteves Salustiano (Foto: arquivo Rogério Salustiano)

A pesquisa foi conduzida pelo discente do curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT), Luiz Felippe Santos Marinello,  sob orientação do professor Rogério Esteves Salustiano e coorientação do professor Rafael Brito de Moura, ambos do ICT. Intitulado “Desenvolvimento de um Protótipo para Monitoramento Ambiental Utilizando a Plataforma Arduino e TV Box Descaracterizada”, o trabalho parte da disponibilidade gratuita das TV Boxes cedidas a projetos institucionais por meio do Programa Além do Horizonte — coordenado, na UNIFAL-MG, pelo professor Leonardo Henrique Soares Damasceno.

Conforme explica o professor Rogério, após a descaracterização — que substitui o sistema ilegal pelo sistema operacional Linux —, os aparelhos passam a ter capacidade computacional suficiente para aplicações de sensoriamento. Segundo o docente, isso reduz o custo de desenvolvimento de protótipos e amplia o reaproveitamento desses equipamentos. “Por estarem disponíveis de forma gratuita para uso em projetos de ensino e pesquisa, permitem não apenas baratear o desenvolvimento de protótipos e equipamentos de monitoramento ambiental, mas também dar outra utilidade para esses equipamentos descaracterizados, além da convencional, minicomputador”, afirma.

Sobre o projeto

Para viabilizar o monitoramento foram acopladas à TV Box descaracterizada cinco sondas analógicas comerciais do fabricante Vernier, voltadas à medição de pH, potencial de oxirredução (ORP), concentração de amônio (NH₄⁺), concentração de nitrato (NO₃⁻) e temperatura. O professor Rogério explica que as sondas se conectam a uma plataforma Arduino por meio de uma placa de circuito eletrônico desenvolvida em outro projeto de pesquisa do campus — uma iniciação científica também sob sua orientação, dedicada à aquisição de dados de sondas analógicas com processamento de sinais.

Visualização dos dados em “dashboard” na planilha on-line do Google (Foto: Arquivo Rogério Salustiano)

Ainda segundo o orientador, o sistema combina três camadas de programação: um software específico embarcado no Arduino, outro software desenvolvido para ser executado no Linux da TV Box e uma planilha eletrônica on-line (Google Planilhas) que recebe os dados pela rede. “A transmissão dos dados é realizada utilizando rede cabeada (ethernet) ou por rede Wi-Fi. Pode-se optar pela utilização de uma delas, disponível na TV Box descaracterizada, de acordo com a disponibilidade no local de utilização”, detalha o professor. A visualização das medições ocorre em um painel (dashboard) configurado na própria planilha, que apresenta os valores em tempo real e médias dos últimos sete dias.

Aplicação no estudo de tratamento de efluentes

O protótipo desenvolvido por Luiz Felippe Santos Marinello foi testado em um Reator Biológico de Leito Estruturado e Aeração Intermitente (SBRIA), parte do projeto de pesquisa coordenado pelo professor Rafael Brito de Moura, coorientador do TCC. De acordo com a coordenação do projeto, o reator tem como foco o estudo do controle da aeração de efluentes para otimizar o processo de tratamento. Essa linha de pesquisa, desenvolvida em parceria com o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) de Poços de Caldas, já rendeu publicações em periódicos científicos internacionais e tem se destacado como referência na área de saneamento.

Conforme informado pelo professor Rogério Salustiano, o equipamento permanece, atualmente, à disposição como parte do conjunto de instrumentos para monitoramento de experimentos realizados no reator SBRIA e em outras atividades laboratoriais, podendo ser utilizado por discentes de graduação e pós-graduação sempre que se fizer necessário. O docente também informa que o desenvolvimento de equipamentos e sistemas para sensoriamento e monitoramento ambiental constitui sua linha de pesquisa e que, desde 2019, coordena o projeto “Monitoramento de Bacias Hidrográficas na área do Município de Poços de Caldas”, em parceria com a Prefeitura Municipal, com a Alcoa e com a Associação Poços Sustentável. O orientador acrescenta, ainda, que atua em parceria com o professor Rafael Brito de Moura no desenvolvimento de outros protótipos e sistemas voltados ao monitoramento e ao controle de reatores SBRIA.

Reaproveitamento eletrônico e novos horizontes

Utilização do protótipo (TV Box descaracterizada, Arduino e sondas) no reator SBRIA (Foto: Arquivo Rogério Salustiano)

Para os pesquisadores, o trabalho dialoga diretamente com o conceito de economia circular. “Equipamentos eletrônicos que seriam descartados — seja por obsolescência ou por questões legais, como é o caso da TV Box — podem se tornar grande passivo ambiental quando não recebem destinação adequada. Como o processo de separação dos componentes para reaproveitamento individual costuma ser economicamente inviável, a reutilização do aparelho como um todo, em uma nova função, mostra-se a alternativa mais viável”, explica o professor Rogério.

A replicação do modelo em outras aplicações, no entanto, exige cautela, segundo o professor. O docente pondera que, por se tratar de equipamentos originalmente não padronizados — provenientes de apreensões diversas, com modelos e projetos distintos —, cada nova adaptação demanda ajustes às características da “matéria-prima” disponível. O orientador esclarece, ainda, que o protótipo desenvolvido no TCC ainda não pode ser aplicado diretamente em projetos reais externos à Universidade, mas serve de base experimental para o desenvolvimento de soluções voltadas a aplicações específicas em diferentes cenários.

Entre os desdobramentos previstos pela equipe estão a continuidade do uso do equipamento em outros experimentos com reatores SBRIA e seu emprego como instrumento didático em aulas de graduação e pós-graduação. “Mais do que a própria utilização do equipamento desenvolvido, o projeto traz consigo um avanço no conhecimento e nas possibilidades de aplicação da tecnologia para outros cenários de uso no contexto de sensoriamento e monitoramento ambiental, seja em ambiente laboratorial, aplicações reais ou voltada para o ensino”, conclui o orientador.

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