Em homenagem a Edgar Morin, o pensador da complexidade que não nos deixa pensar simples na era da inteligência artificial

Atualizado em 02/06/2026 08:40

Edgar Morin no festival literário Le Livre sur la place, em 2024. (Foto: Gérald Garitan/ Wikimedia Commons)

Edgar Morin morreu na última sexta-feira, 29 de maio de 2026, em Paris, aos 104 anos, às vésperas de completar 105. Filósofo, sociólogo, antropólogo e sobrevivente da Resistência Francesa, deixou uma obra que atravessou quase um século e mais de cinquenta livros. No Brasil, país que ele dizia admirar pela biodiversidade e pela mistura cultural, pesquisadoras e pesquisadores que ajudaram a traduzir e a ensinar sua teoria reagiram ao luto com a serenidade de quem reconhece que um pensamento dessa envergadura não termina com a morte de seu autor. Despedir-se de Morin é, paradoxalmente, herdá-lo.

Escrevo este texto não apenas como leitora de Morin, mas como alguém para quem o pensamento complexo é referência viva na construção de uma tese de doutorado em Enfermagem. Conheci sua obra pelas mãos da professora Dra. Maria Regina Martinez, minha orientadora de mestrado e atualmente do doutorado, durante uma disciplina, e desde então Morin se tornou meu referencial teórico. É difícil pensar a saúde hoje, a saúde das pessoas e a saúde do planeta, sem os operadores que ele nos legou: o princípio dialógico, que sustenta a tensão entre opostos sem dissolvê-la; o princípio recursivo, que mostra como efeitos retroagem sobre suas causas; o princípio hologramático, segundo o qual o todo está na parte e a parte está no todo (MORIN, 2015). Quando a Enfermagem reconhece que a criança com asma no bairro vizinho à refinaria carrega no corpo um modelo de desenvolvimento inteiro, ela está, mesmo sem nomear, pensando com Morin. O cuidado integral que a profissão reivindica desde Nightingale encontra na complexidade uma gramática contemporânea.

Mas homenagear um pensador rigoroso exige mais do que repetir suas categorias: exige problematizá-las. E aqui está, talvez, a melhor forma de honrá-lo. O pensamento complexo corre um risco que o próprio Morin reconhecia, o de se tornar tão abrangente que perca o fio analítico. Quando tudo é interdependente, recursivo e hologramático, como decidir onde intervir? Uma teoria que recusa a simplificação precisa, ainda assim, oferecer critérios de ação, sob pena de se converter em retórica edificante, uma celebração da complexidade que não muda nada na consulta de enfermagem, na escala do plantão, na alocação de recursos. Há uma distância considerável entre a reforma cognitiva que Morin propõe (MORIN, 2000) e as estruturas disciplinares, curriculares e institucionais que resistem a ela. Reconhecer essa distância não enfraquece sua obra; é o gesto complexo por excelência.

Nenhum campo torna essa problematização mais urgente do que o da inteligência artificial e o das tecnologias de informação e comunicação (TICs) na saúde. Morin insistia que a tecnologia é, ao mesmo tempo, problema e resposta, e a IA é hoje a expressão mais aguda dessa dialógica. Algoritmos de apoio à decisão clínica, sistemas preditivos de risco, triagem automatizada, prontuários inteligentes e modelos de linguagem que sintetizam evidências prometem ampliar a segurança e o alcance do cuidado, sobretudo num país de dimensões continentais e profundas desigualdades de acesso. Ao mesmo tempo, essas ferramentas reproduzem e amplificam vieses presentes nos dados com que são treinadas, podem desqualificar o julgamento clínico da enfermeira em nome de uma suposta objetividade da máquina e deslocam para sistemas opacos decisões que afetam corpos concretos. Pensar dialogicamente a IA na enfermagem significa não escolher nenhum dos lados confortáveis: nem o tecno-otimismo que delega ao algoritmo a responsabilidade pelo cuidado, nem o tecno-pessimismo que recusa em bloco o que poderia democratizar o acesso à saúde.

O princípio hologramático ajuda a enxergar o que o entusiasmo tende a ocultar. Cada predição de um modelo de IA condensa um modelo inteiro de mundo: os dados de quem foi historicamente contado e de quem foi deixado de fora, as prioridades de quem financiou o sistema, as populações que servem de matéria-prima e as que colhem os benefícios. E há o custo material que a aparente imaterialidade do digital esconde. Os grandes centros de dados que sustentam a IA e as TICs consomem volumes expressivos de energia e de água para refrigeração, e a produção e o descarte de dispositivos eletrônicos geram lixo tecnológico que contamina solos e águas, sobretudo no Sul Global, onde as populações mais pobres acumulam as exposições mais perigosas. A mesma tecnologia que dá visibilidade ao trabalho historicamente invisível da enfermagem tem, portanto, uma pegada ambiental que recai sobre os corpos que a enfermagem cuida. Recusar essa contradição seria abandonar Morin no momento em que ele é mais necessário, na policrise planetária que ele soube nomear como nenhum outro (MORIN; SLOTERDIJK, 2021).

Para a Enfermagem, essa problematização tem consequências concretas. Falta-nos transformar princípios em prática mensurável. Como se avalia, em contextos reais e desiguais do território brasileiro, se uma equipe incorporou de fato a dimensão ambiental e a crítica tecnológica ao diagnóstico, ou se apenas adicionou um vocabulário sofisticado ao mesmo cuidado fragmentado de sempre? Backes et al. (2024) propõem conceber o próprio processo de enfermagem como fenômeno complexo, feito de dinâmicas interdependentes, abordagens dialógicas e percepção crítico-reflexiva, o que oferece um caminho promissor, mas ainda carente de validação empírica. O pensamento complexo nos dá a pergunta certa, a interdependência entre corpo e ambiente, entre algoritmo e desigualdade, entre saúde individual e saúde planetária, mas a resposta empírica ainda precisa ser produzida. É justamente esse o espaço que a pesquisa de enfermagem pode e deve ocupar: não para aplicar Morin como receita, o que seria trair sua própria advertência contra os modelos prontos, mas para colocar a complexidade à prova do trabalho real, inclusive diante das ferramentas de IA que já entram, sem pedir licença, nos serviços de saúde.

Morin costumava dizer que a tragédia do nosso tempo não é a maldade humana, mas a cegueira, um modo de pensar que separa o que a realidade mantém unido. Sua morte, neste momento de crise ambiental e sanitária entrelaçadas e de uma transformação tecnológica sem precedentes, parece sublinhar a urgência dessa lição. Como afirmam Silva et al. (2025), a Enfermagem, historicamente comprometida com a promoção da saúde, tem papel estratégico diante dos desafios da saúde planetária. Resta a nós, que trabalhamos no cuidado, decidir o que faremos com esse legado. Podemos transformar a complexidade em ornamento acadêmico, citá-lo nas introduções e esquecê-lo nas conclusões. Ou podemos assumir o desafio mais difícil: deixar que o pensamento complexo desorganize de fato as nossas certezas, os nossos currículos, as nossas práticas e o modo como recebemos cada nova tecnologia. A segunda opção é a única à altura do que Edgar Morin foi. E é, também, o melhor luto possível.

Referências

BACKES, Dirce Stein et al. Indissociabilidade entre saúde pública, saúde planetária e processo de enfermagem: premissa para o desenvolvimento sustentável. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 58, e20240026, 2024. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2024-0026pt.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.

MORIN, Edgar; SLOTERDIJK, Peter. Tornar a Terra habitável. Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Fagner França. Natal: EDUFRN, 2021.

SILVA, Jacinta de Fátima Sena da et al. Planetary health: challenges and critical nursing action. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 78, n. 2, e2025780202, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/0034-7167.2025780202.

Quevellin Alves dos Santos Francisco é enfermeira, docente e pesquisadora com sólida atuação nas áreas de assistência, ensino, gestão e pesquisa em saúde. Doutoranda e mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alfenas, desenvolve pesquisas voltadas ao uso de Tecnologias da Informação e Comunicação na prática clínica, com ênfase em humanização do cuidado, inteligência artificial, telessaúde e tomada de decisão em enfermagem. Possui experiência como docente no ensino superior e técnico. É especialista em Gestão Pública em Saúde pela Universidade Estadual de Campinas e possui experiência em pesquisa clínica, coordenação de equipes de enfermagem e condução de estudos de biodisponibilidade e bioequivalência. Atualmente, exerce funções de coordenação e gestão em saúde. Temas de interesse: Gestão de pessoas, humanização do cuidado, inteligência artificial, telessaúde e tomada de decisão em enfermagem.

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