O Currículo Invisível: o que o recreio e as portas dos banheiros revelam sobre o gênero na escola?

Atualizado em 01/07/2026 09:22

Representação do “currículo invisível” da escola, formado por práticas, regras e mensagens que ajudam a construir percepções sobre o que se espera de meninas e meninos. (Imagem gerada por IA a partir de descrição jornalística, com revisão e supervisão da Dicom/UNIFAL-MG)

Além dos quadros de giz e das lições de Português, há um aprendizado silencioso que transcorre entre os adolescentes muito antes de eles chegarem ao mercado de trabalho. Uma pesquisa etnográfica acompanhou a rotina de uma escola de Ensino Médio no sul de Minas Gerais e apontou que as maiores lições sobre o significado de ser “menina” ou “menino” não estão apenas nos livros didáticos, mas rotineiramente reiteradas e reconstruídas nas entrelinhas de práticas tão naturalizadas que se tornam invisíveis.

A começar pela cantina: ao servir a merenda, funcionárias colocam, de forma mecânica e inconsciente, mais comida no prato dos rapazes, retroalimentando o mito de que o corpo masculino exige mais espaço e energia. Esse controle sutil estende-se à sala de aula, onde professores buscam o caderno das alunas para checar o andamento da matéria por já esperar delas o capricho, enquanto a desorganização dos garotos é tolerada como um traço “natural”. Até as punições têm pesos diferentes: enquanto elas recebem advertências discretas e individualizadas em suas mesas, a abordagem com os meninos tende a ser explosiva e pública, expondo o estudante diante da turma.

No entanto, este estudo aprofundou a agência humana sujeita a essas lições: os jovens não são receptores passivos dessas regras e respondem a elas com táticas criativas de subversão. Historicamente associada aos rapazes, a icônica “turma do fundão” e a contestação aberta à autoridade foram apropriadas pelas meninas. Elas protestam contra a disparidade das regras de vestimenta, que lhes proíbem seus croppeds, mas toleram as bermudas e regatas deles, adotando uma encenação teatral: saem de casa com o uniforme padrão e trocam de roupa estrategicamente assim que cruzam os portões. O deboche e a ironia viraram a ferramenta dessas jovens para esvaziar o peso das repressões institucionais.

Essa diferença de comportamento entre os sexos atinge seu ápice na gestão das emoções, e o termômetro mais preciso desse fenômeno está nos grafitos das portas dos banheiros. Enquanto os garotos usam-nas para escrever os próprios nomes e desenhar genitálias, um ato quase nostálgico de demarcação de território (“eu estive aqui”) que reforça uma “brotheragem” baseada em brincadeiras agressivas, o banheiro feminino transforma-se em um “burn book” (ou “livro do ódio”). Nele, as portas viram páginas de um diário coletivo repleto de desabafos interpessoais, declarações amorosas e xingamentos severos direcionados. Como a hostilidade escancarada e o desabafo não são socialmente aceitos para as mulheres no pátio, o ambiente íntimo do banheiro torna-se o único refúgio seguro para expressar rivalidades e frustrações geradas desde a infância.

Assim, verifica-se que o gênero consta em lições expressas nos currículos escolares e ocultas, na atuação de funcionários e no regimento escolar. Porém, estas noções e significados são ressignificadas ativamente pelos estudantes. Longe de ser um ambiente estático, a escola se revela um organismo vivo onde o gênero é negociado, contestado e reinventado a cada minuto pelos corredores.

Alexia Ferreira Rocha Moreira é licenciada e bacharelanda em Ciências Sociais e mestranda em Educação pela UNIFAL-MG. Este artigo é um apanhado de seu Trabalho de Conclusão de Curso “A Construção Sutil do Gênero nas Escolas” para obtenção do título de licenciada em Ciências Sociais, sob orientação do professor Thiago Antônio de Oliveira Sá.

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