A presença de pixações e graffitis no trajeto cotidiano de uma estudante da UNIFAL-MG deu origem a um estudo sobre como essas inscrições estão distribuídas no espaço urbano de Alfenas. Brenda Letícia de Paula Muniz, acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGeo), percebeu essa presença ao percorrer a cidade, especialmente no caminho até a Unidade Santa Clara, onde estuda, e passou a investigar como o fluxo de pessoas, a visibilidade e a concentração de atividades econômicas se relacionam com essa distribuição.


Os resultados estão reunidos no artigo A centralidade das pixações em Alfenas, Minas Gerais, publicado no Caderno de Geografia, periódico científico da PUC Minas, na edição especial de 2026.
Além de Brenda Muniz, o artigo também é assinado por Evânio dos Santos Branquinho, docente do programa e orientador da acadêmica; e conta ainda com a colaboração de Laura Andrade Viana, vinculada à Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais.
No estudo, os pesquisadores mostram que as pixações se concentram nas áreas de maior circulação e exposição, onde estão reunidos os principais serviços comerciais, financeiros e administrativos. Segundo a análise, essa distribuição não acontece por acaso, mas está ligada à busca por reconhecimento e à tentativa de ressignificar espaços marcados pela concentração de atividades econômicas.
Centro concentra pixações e disputa por visibilidade
As respostas reunidas pela pesquisa indicam uma diferença na distribuição das manifestações: enquanto as pixações aparecem com maior intensidade nas áreas central e pericentral de Alfenas, os graffitis são encontrados com mais frequência em bairros periféricos, como Pinheirinho e Santa Clara.

Segundo Brenda Muniz, a principal motivação para estudar essas áreas da cidade se deu por identificar uma elevada quantidade de pixações em prédios e estruturas que compõem o centro de Alfenas.
“Essas zonas concentram esse tipo de escrita pois configuram-se como uma linguagem de contestação dos espaços de poder e da concentração de capital”, explica.
Conforme a autora do trabalho, os espaços centrais são mais propensos a esse tipo de intervenção porque a intensa circulação de pessoas e a visibilidade dessas áreas ampliam o reconhecimento dos praticantes.
As pixações são analisadas como uma linguagem que questiona a organização do espaço urbano em função do comércio, do consumo e dos interesses econômicos.

A área ao redor da praça da Igreja Matriz concentra agências bancárias, um pequeno centro comercial, bares e farmácias.
Na região também há antigos casarões da elite local, hoje destinados a outros usos. Para os pesquisadores, as inscrições evidenciam uma disputa sobre quem pode se expressar, aparecer e deixar marcas na cidade.
“Percebe-se pela dinâmica de Alfenas que a reunião de pessoas ocorre, em geral, determinado pelo desejo do consumo de mercadorias, poucas ocasiões em que esse uso se dá pelo uso do espaço em seus atributos de proporcionar a reunião, o encontro, o lúdico etc.”, comenta Brenda Muniz.
Graffiti fortalece vínculos com o hip-hop nos bairros

Já os graffitis aparecem com mais frequência em bairros periféricos, como Pinheirinho e Santa Clara. “É onde acontecem os encontros de hip-hop que proporcionam atividades relacionadas a esse movimento social, como o break, DJ, batalha de rima e apresentações artísticas que englobam o graffiti no âmbito da arte de rua”, aponta a acadêmica.
Na pesquisa, Brenda Muniz mapeou uma rede de pixadores e grafiteiros que liga Alfenas a cidades como Poços de Caldas, Itajubá, Pouso Alegre, Guaranésia, Monte Belo, Varginha e Carmo do Rio Claro, mobilizada principalmente por eventos de hip-hop organizados sem apoio público ou privado.

“Essa rede é articulada segundo os propósitos do hip-hop que procura ser um movimento de formação coletiva, fortalecendo os laços com a comunidade por meio da arte e transformando a paisagem desses bairros”, diz.
Diferentemente de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, onde grupos rivais disputam prestígio, a pesquisadora identificou que os pixadores de Alfenas mantêm entre si uma relação de proximidade.
“Alfenas tem como uma de suas principais características a relação de pessoalidade entre os pixadores, por tratar-se de uma manifestação relativamente recente que leva em conta também a escala da cidade, onde a maioria dos pixadores se conhecem”, observa.
Mapeamento registrou 49 pixações em Alfenas
Para desenvolver a pesquisa, a mestranda adotou uma abordagem qualitativa, com revisão bibliográfica, trabalho de campo, registros fotográficos, produção de mapas e entrevistas semiestruturadas com praticantes de pixação e graffiti.
A coleta de campo ocorreu entre outubro de 2022 e novembro de 2024. As inscrições foram fotografadas, localizadas inicialmente no Google My Maps e depois analisadas no software de geoprocessamento QGIS. Ao todo, foram registradas 49 pixações nas zonas central e pericentral de Alfenas.
Quatro praticantes de pixação e graffiti também foram entrevistados sobre suas experiências e percepções. Três deles confirmaram a maior presença de pixações na região central.

Conflitos pelo uso do espaço urbano
“Uma das principais lutas políticas da pixação é denunciar a forma como a cidade é organizada em razão da funcionalidade econômica, que implica na segregação socioespacial”, explica.
Conforme a pesquisadora, essas inscrições também se configuram como reivindicação para uma maior inserção na cidade que busca tornar possível a expressão dos sujeitos em seus atributos artísticos.

“As disputas se apresentam em conflito com o poder público e a sociedade em geral, que reduzem essa expressão a atos de vandalismo, produzindo o conflito com o que está expresso nos muros e com os sujeitos. Porém, o que a pesquisa pretende trazer para a reflexão da Geografia e da comunidade, é a interpretação dessa grafia como uma linguagem que tem suas estéticas, regras, alianças e também os conflitos, revelando suas lutas políticas pelo espaço”, reforça.
O trabalho apontou também que a maior parte de quem pratica pixação em Alfenas é formada por estudantes da própria UNIFAL-MG, sobretudo de cursos da área de Ciências Humanas, fato que para ela, ajudaria a explicar por que as inscrições aparecem com mais frequência no entorno do campus sede. O mesmo padrão não se repete perto da Unifenas, cujos muros triangulares e espaçados, segundo o artigo, atraem menos os pixadores.
Também foram identificados sinais de verticalização, com grafias que começam a alcançar fachadas e pontos mais altos de prédios. Essa configuração, entretanto, ainda não é predominante na cidade.
A pesquisa começou como uma iniciação científica integrada ao projeto A reestruturação da rede urbana no Sul de Minas Gerais: estudos sobre pequenas e médias cidades, coordenado pelo professor Evânio Branquinho. Os resultados também deram origem ao trabalho de conclusão do curso de Geografia (Licenciatura) de Brenda Muniz, apresentado em 2024.
Atualmente, como mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade, a acadêmica segue aprofundando o mesmo tema numa dissertação a ser apresentada em 2027.
Leia o artigo na íntegra: A centralidade das pixações em Alfenas, Minas Gerais
Sobre o uso do termo ‘pixação’
Nesta matéria, o termo “pixação”, com x, segue a escolha adotada pelos autores do artigo e pelos praticantes para se referir ao movimento do pixo, que possui formas próprias de escrita, organização e atuação no espaço urbano. A grafia também diferencia essa manifestação de “pichação”, palavra empregada em sentido mais amplo para designar inscrições feitas em muros e outras superfícies.














