Afinidades eletivas entre bolsonarismo e protestantismo

Cresci num lar evangélico onde, até então, nunca havia visto meus pais falarem sobre política. Porém, em meados de 2018, o nome de Jair Bolsonaro passou a circular dentro da igreja que frequentávamos. De repente, a política começou a fazer parte da nossa rotina tanto dentro de casa quanto na igreja.

Meu pai, que era analfabeto funcional e só enviava áudios pelo WhatsApp, passou a “se informar” por meio de vídeos que recebia dos “irmãos”, os quais estimulavam a posse de armas, o fuzilamento de petistas e combate à uma suposta “ideologia de gênero”. O bolsonarismo despertara nele seu lado machista, racista e preconceituoso. Se ele sempre fora assim, tinha vergonha de demonstrá-lo publicamente; a partir de então, passou a sê-lo, verbal, aberta e orgulhosamente.

Evolução do voto evangélico até o 1o turno. Fonte: DataFolha.

Passei a refletir sobre o quão contraditório aquilo era, pois ele me ensinara que Deus é amor, bondade e compaixão, e não opressão, violência, ódio e perseguição. As mesmas contradições alastraram-se pela igreja. A política passou a pauta cristã, e ir contra Bolsonaro era ir contra Deus, pois, para esses fiéis, o voto significava um voto na purificação de um país corrompido pelas “ações mundanas”. Este é o objetivo do meu TCC: compreender como algumas igrejas deixaram de professar valores humanos para tornarem-se incubadoras de preconceito e intolerância, com pastores pregando sobre armas e a volta da ditadura militar.

Minha pesquisa, qualitativa, consiste em observações participantes na igreja e entrevistas semiestruturadas com suas lideranças. Esse laço prévio facilitou o acesso aos participantes e a visita aos cultos, pois, como já fiz parte da igreja pesquisada, tenho vínculos com os membros e conheço seus posicionamentos. Os encontros foram gravados mediante autorização dos entrevistados.

Os achados preliminares indicam que, curiosamente, não há contradição no proselitismo pró-Bolsonaro dentro de igrejas evangélicas. Pelo contrário, Bolsonarismo e protestantismo partilham inúmeras afinidades eletivas: conservadorismo moral, defesa da família tradicional, teologia do domínio, batalha espiritual, maniqueísmo, anticomunismo e narrativa de ameaça à liberdade religiosa.

Fé e política, no caso em estudo, esboçam mais convergência que contradição: ambos inculcam uma visão de mundo apocalíptica, catastrófica, em que estaria havendo uma suposta desordem moral no mundo e um complô de uma esquerda que estaria empenhada em fechar igrejas, “ensinar” homossexualidade e destruir “a” família. Ambos discursos comungam da beligerância, da necessidade de enfrentamento de inimigos, que geralmente são professores, artistas, militantes, jovens, homossexuais, “tatuados”… Até o momento, o protestantismo na igreja pesquisa parece ser a continuidade religiosa do bolsonarismo, enquanto este parece o prolongamento político da fé.

Referências

VALLE, Vinicius Saragiotto Magalhães do. A política da fé: evangélicos e a eleição de Jair Bolsonaro. São Paulo: Alameda, 2019. Disponível em: https://www.alamedaeditorial.com.br. Acesso em: 22 set. 2026.

VALLE, Vinicius Saragiotto Magalhães do; SOLANO, Esther. Evangélicos nas eleições nacionais de 2022: um público em disputa. Revista Espirales, Foz do Iguaçu, v. 9, e22828869111, 2025. DOI: https://doi.org/10.29327/2282886.9.1-11. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/espirales/article/view/5175. Acesso em: 22 set. 2026.

VITAL DA CUNHA, Christina. Retórica da perda e os aliados dos evangélicos na política brasileira. In: GUADALUPE, José Luis Pérez; CARRANZA, Brenda (orgs.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020. p. 41-66. Disponível em: https://www.kas.de/pt/web/brasilien. Acesso em: 22 set. 2026.

VITAL DA CUNHA, Christina; LOPES, Paulo Victor Leite. Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll; ISER, 2012. Disponível em: https://iser.org.br/publicacao/religiao-e-politica-uma-analise-da-atuacao-de-parlamentares-evangelicos-sobre-direitos-das-mulheres-e-de-lgbts-no-brasil/. Acesso em: 22 set. 2026.

 

Naelly Gomes da Silva é graduanda em Ciências Sociais pela UNIFAL-MG, bolsista do Pibid/Capes e pesquisa a politização dos evangélicos no Brasil.

 

Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.

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