Redes sociais definem votos? O que os dados dos 30 deputados federais mais votados em 2026 mostram

Há forte correlação entre votação e engajamento no Instagram, mas os casos de Pavanato, Cortez e Sâmia Bomfim mostram que a conta não fecha para todos.

Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) tiveram votações próximas na eleição deste ano: mais de 3 milhões de votos cada um, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No Instagram, a distância entre os dois é grande. Os cinco posts mais recentes de Nikolas somaram, em média, cerca de 2,5 milhões de curtidas e comentários por publicação. Os de Pavanato, 682 mil.

A diferença de 3,7 vezes entre dois deputados do mesmo partido e do mesmo porte de votação é um bom ponto de partida para uma pergunta que ronda toda campanha: o Instagram decide eleição? Para investigar, cruzamos a votação dos 30 deputados federais mais votados do país com o engajamento médio por post de cada um. Foram considerados os cinco posts mais recentes de cada perfil, publicados depois da eleição, excluindo as colaborações com outros perfis e as publicações em que a contagem de interações não estava visível. Os dados foram coletados em 19 de outubro de 2026.

O resultado mostra uma relação forte. O r de Pearson, medida que vai de −1 a +1, ficou em 0,82. Os 12 deputados com 400 mil votos ou mais têm engajamento mediano de cerca de 270 mil por post, enquanto os demais têm cerca de 16 mil, uma diferença de aproximadamente 17 vezes. A relação se mantém, ainda que mais fraca (0,66), mesmo sem Nikolas, o líder da lista.

Gráfico 1 – Deputados Federais mais votados: votos x engajamento no Instagram

Fonte: TSE (votos); perfis oficiais no Instagram, coleta em 19/10/2026.

Os que fogem da regra

A linha de tendência dá uma ideia do engajamento “esperado” para cada nível de votação. Nem todo mundo cai sobre ela, e as distâncias são grandes.

Do lado de cima estão os deputados com mais interação do que a votação faria supor. O maior destaque é Guilherme Cortez (PSOL-SP): foram 275 mil votos, mas cerca de 174 mil curtidas e comentários por post, algo como 12 vezes o que a tendência indica. Na sequência aparecem Sâmia Bomfim (PSOL-SP), com cerca de 6 vezes o esperado, Jeffrey Chiquini (Novo-PR), Tabata Amaral (PSB-SP), Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) e Ana Elisa (PT-MG), todos entre 4,7 e 5,7 vezes. Entre os mais votados do país, só Erika Hilton (PSOL-SP) está claramente acima da linha: com 1,6 milhão de votos, seu engajamento médio passa de 1,9 milhão por post, cerca de 2,2 vezes o esperado.

Do lado de baixo, o cenário se inverte. Jader Filho (MDB-PA) teve 327 mil votos e engajamento médio de apenas 852 por post, cerca de 4% do esperado. Mauricio Neves (PP-SP) tem 685 por postagem e Tainah Marinho (PSB-CE), 1.108. Dra. Alessandra Haber (Podemos-PA) tem 2.180. O caso mais expressivo entre os mais votados é o de Pavanato: com mais de 3 milhões de votos, tem apenas cerca de 17% do engajamento que a tendência prevê.

Tabela 1 – Deputados mais acima e mais abaixo da linha de tendência. “Razão” é o engajamento observado dividido pelo esperado pela tendência.

Fonte: TSE (votos); perfis oficiais no Instagram, coleta em 19/10/2026.

O que explica essas diferenças? Os dados não respondem, mas apontam caminhos para a apuração. Deputados bem abaixo da linha podem ter se elegido por bases regionais, estrutura partidária, apoio de lideranças locais ou presença em outras mídias, como rádio e TV. Os bem acima podem ter fama anterior à campanha ou uma estratégia centrada na internet. Também vale lembrar que o levantamento mediu só o Instagram: um deputado com pouco engajamento ali pode ter muito mais audiência no TikTok, no X ou no YouTube.

Como foi feito o levantamento

Foram analisados os 30 deputados federais mais votados nas eleições deste ano, com base nos dados de votação nominal do TSE. Para cada um, foram coletados os cinco posts mais recentes no Instagram oficial, publicados depois da eleição, excluindo publicações feitas em colaboração com outros perfis e aquelas em que a contagem de interações estava oculta. A coleta foi feita em 19 de outubro de 2026.

O engajamento médio por post é a soma da média de curtidas com a média de comentários nos cinco posts. A relação com os votos foi medida pelo coeficiente de correlação de Pearson, que varia de −1 a +1, e checada de outras formas: em escala logarítmica, sem o deputado mais votado (Nikolas Ferreira) e pela posição de cada um nos rankings de votos e de engajamento (correlação de Spearman). A linha de tendência dos gráficos foi ajustada sobre os logaritmos dos dois valores.

Limitações do levantamento

Os resultados valem apenas para os 30 deputados mais votados e não podem ser estendidos aos 513 eleitos: em um grupo escolhido pelo resultado da eleição, a relação entre votos e engajamento pode ser mais forte ou mais fraca do que no conjunto todo. Além disso, correlação não é causa, já que fama anterior, partido e estrutura de campanha podem explicar votos e engajamento ao mesmo tempo. Como os posts são posteriores à votação, também não é possível saber se o engajamento ajudou a produzir os votos ou se foi o resultado que o aumentou. O levantamento cobre só o Instagram, deixando de fora outras redes, como Tik Tok, X e YouTube, e outras mídias, como rádio e TV. A amostra de posts é pequena, de cinco publicações por deputado, de modo que um único post viral pode puxar a média para cima, e a escolha dos posts (sem colaborações e só com métricas visíveis) pode favorecer certos perfis. A medida usada é o engajamento absoluto, o volume de curtidas e comentários, e não a proporção do público que interage, o que favorece perfis com mais seguidores. Por fim, os votos não foram ajustados pelo número de eleitores de cada estado, o que beneficia candidatos de estados maiores, como São Paulo.

Então, redes sociais definem votos?

Os dados mostram que, entre os deputados federais mais votados, votos e engajamento no Instagram andam juntos: a correlação é forte e resiste a diferentes formas de cálculo. Mas essa é a resposta a outra pergunta. Que as duas coisas caminhem no mesmo sentido não significa que as redes tenham decidido a eleição, e os casos que fogem da regra, de Guilherme Cortez a Lucas Pavanato, mostram que há deputados com muita votação e pouca presença digital, e o contrário.

Para saber o quanto as redes pesaram, seria preciso ir além deste recorte: incluir os 513 eleitos, comparar o engajamento antes e depois da campanha, ajustar os votos pelo tamanho de cada estado e olhar para outras redes e mídias. Por ora, a conclusão mais segura é a mais modesta: o Instagram é um bom retrato do prestígio de quem foi eleito, mas está longe de ser a explicação completa de como se chega a Brasília.


Maria Lívia Silva Fernandes
é graduanda em Ciências Sociais pela UNIFAL-MG, bolsista Pibid/Capes e desenvolve pesquisas sobre comportamento eleitoral e redes sociais.

 

Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.

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