
A fabricação de inimigos na midiosfera bolsonarista opera na interseção entre a estratégia ideológica da extrema-direita e o funcionamento técnico das plataformas digitais.
Em Guerra Pela Eternidade, Benjamin Teitelbaum analisa as correntes tradicionalista e populista da extrema-direita, bases que supõem que a sociedade está em processo de decadência moral. Para estes grupos, o mundo vive em uma guerra do bem contra o mal, na qual a conciliação seria impossível. Para que a narrativa seja sustentada, o movimento precisa eleger e atacar alvos constantes, mesmo que improváveis e até imaginários, como chinelos.
As plataformas digitais são a infraestrutura que impulsiona esse discurso. Giuliano da Empoli, em Os Engenheiros do Caos, detalha como as redes sociais são projetadas para priorizar o engajamento. O modelo de negócio das plataformas digitais constatou que emoções violentas retêm a atenção do público com mais eficiência, portanto, a arquitetura dos algoritmos está configurada para priorizar provocações.
Na prática política brasileira, o modelo funciona perfeita e destrutivamente: a ideologia da extrema-direita fornece o discurso de “nós contra eles”, enquanto a tecnologia das redes sociais entra como o motor que transforma o inimigo em alcance e capital político.
Ao observar a atuação de figuras que representam a nova extrema-direita, como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, é possível entender exemplos de como a engrenagem funciona no cotidiano. A dinâmica é simples, repetitiva e eficaz.
O confronto deliberado é o início de tudo. A atuação política se resume a ir a espaços públicos, como universidades ou manifestações, com o objetivo de provocar opositores. O foco é a busca por uma reação exaltada, que será colocada em um vídeo curto e descontextualizado, onde o político aparece como a voz da razão e o interlocutor, reduzido a uma personagem descontrolada.
A rede entra em combustão assim que o material é publicado. Sendo uma publicação, foto, fala ou aspecto da vida pessoal retirados de contexto, os algoritmos identificam uma indignação, gerada tanto pelos apoiadores quanto pelos críticos e passam a distribuir o conteúdo. Em poucas horas, a pessoa-produto do conteúdo é transformada em um inimigo na midiosfera bolsonarista.
Essa lógica transforma a política em uma espetacularização de violência (simbólica ou não). O projeto político não se trata mais da apresentação de novas propostas, e sim da capacidade diária de encontrar novas vítimas para alimentar a raiva, o alcance e o apetite da militância.
Referências
EMPOLI, Giuliano da. Os engenheiros do caos: como as redes sociais estão reescrevendo a política. Tradução de Arnaldo Bloch. São Paulo: Vestígio, 2019.
TEITELBAUM, Benjamin R. Guerra pela eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista.Tradução de Cynthia Costa. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.
Beatriz Rocha Porto Lauand é graduanda em Ciências Sociais, monitora da disciplina de Métodos Quantitativos e desenvolve pesquisas sobre crime organizado e polarização política. Currículo lattes.
Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.












