Do sobrenome ao algoritmo: famílias e redes no senado eleito em 2026

Atualizado em 23/10/2026 10:10

Imagem ilustrativa. Fonte: Canva Pro.

As redes sociais mudaram a maneira como políticos falam com seus eleitores, permitindo construir audiências de milhões sem dependência de partidos, televisão ou longas trajetórias públicas. Contudo, cabe questionar: a expansão digital é um novo acesso ao poder ou combina-se com outros mecanismos tradicionais, como relações pessoais e famílias políticas?

Comparou-se os senadores eleitos em 2026 segundo três critérios: seguidores nas redes sociais, percentual de votos válidos no estado e tempo de participação política. A análise investiga se a visibilidade digital influencia o recrutamento político ou oferece novos meios de reprodução para grupos estabelecidos.

O algoritmo está criando novos caminhos para chegar à política?

Candidatos com alta visibilidade digital e carreiras curtas mostram que é possível construir rápido reconhecimento: Gustavo Gayer (3,3 milhões de seguidores no Instagram; três anos em cargos eletivos; 24,53% dos votos em GO), Deltan Dallagnol (2,8 milhões; três anos; 25,14% no PR), Guilherme Derrite (2,2 milhões; sete anos; 30,59% em SP) e Carol de Toni (1,5 milhão; sete anos; 33,46% em SC).

Contudo, seguidores não se convertem automaticamente em votos. A correlação entre seguidores no Instagram e votação proporcional é de apenas 0,12, e no X é de -0,04. Candidatos com audiências modestas obtiveram maior votação proporcional: Marcelo Castro (104 mil seguidores; 43 anos de carreira) obteve 35,67% no PI, e Reinaldo Azambuja (90,5 mil seguidores; 29 anos de carreira) alcançou 34,64% em MS. Na comparação, Michelle Bolsonaro (8,8 milhões de seguidores; 28,98% no DF) obteve percentual inferior a ambos.

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda destacou a dificuldade histórica de se separar relações pessoais e familiares da esfera pública. Longe de enfraquecer o personalismo, as redes sociais fornecem novas ferramentas para ele: ao expor rotinas diretamente à câmera, o candidato gera no seguidor uma sensação de intimidade. A tecnologia amplia, assim, a centralidade do vínculo pessoal na construção da confiança política.

Mas será que ser novo na urna significa realmente ser novo na política?

Michelle Bolsonaro (8,8 milhões de seguidores; 28,98%) e Gracinha Caiado (216 mil seguidores; 21,83% em GO) figuram na base com zero anos de mandato prévio. O dado superficial sugeriria duas estreantes, mas nenhum ano de mandato não significa nenhum capital político: a primeira traz a projeção de ex-primeira-dama e a ligação com a família Bolsonaro; a segunda é esposa de Ronaldo Caiado. Ambas estrearam nas urnas amparadas por expressivo capital acumulado.

Família ainda importa?

Segundo o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, “família ainda importa”. Suas pesquisas mostram que laços de parentesco não desapareceram com a urbanização, a profissionalização política ou o fortalecimento partidário. Famílias politicamente estabelecidas adaptam-se e utilizam Instagram, X e TikTok como novos instrumentos de reprodução do poder.

E quem tem décadas de carreira? O que acontece quando o sobrenome aprende a usar o algoritmo?

O tempo de carreira apresenta correlação fraca com o percentual de votos (0,14). Estar há mais tempo na política não garante isoladamente votações maiores — como mostram João Azevêdo (7 anos registrados; 32,50%) e Fernando Máximo (3 anos; 31,97%). Nenhuma variável isolada explica o resultado; o fator determinante é a combinação dos capitais.

Isso representa renovação ou adaptação?

O Senado eleito em 2026 reflete a coexistência entre o velho e o novo. Se o ambiente digital encurta trajetórias para novos atores, também amplia o alcance de sobrenomes consolidados e converte laços familiares em audiência. Tanto grupos tradicionais se adaptam às redes quanto grupos emergentes incorporam o modelo familiar. O algoritmo abre novas portas, mas quem já possui sobrenome, relações e capital acumulado começa a corrida alguns passos à frente.

Metodologia e coleta de dados

A análise baseou-se nos 54 senadores eleitos nas eleições de 2026. Levantaram-se seguidores em contas oficiais verificadas no Instagram e X, percentual de votos válidos (via G1) e tempo de trajetória política em fontes institucionais (Senado Federal e Câmaras).

Aplicou-se o coeficiente de correlação linear de Pearson (rr) para avaliar a associação entre as variáveis. Trata-se de um estudo exploratório que identifica padrões de concomitância, sem inferir causalidade direta, articulando a estatística à teoria sociológica sobre capital político e reprodução de elites.



Osmar Silva Neto
é estudante do curso de Licenciatura em Ciências Sociais  da UNIFAL-MG e bolsista do Pibid/Capes. Desenvolve pesquisas sobre discursos parlamentares, oligarquias, patrimonialismo e reprodução do poder na política brasileira.
Currículo lattes.

 

Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.

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