A esquerda não farma aura

Na campanha eleitoral, a esquerda tenta converter em voto seu legado: enfrentamento da pobreza e da desigualdade (Bolsa Família, Luz Para Todos, Farmácia Popular), retirada do país do mapa da fome, oportunidades a minorias (reserva de vagas, demarcação de terras indígenas) e desempenho econômicos (pleno emprego, controle da inflação). Realizações e avanços são apresentados como credenciais, provas de competência. A propaganda parece um currículo e sua mensagem é clara: fizemos, melhoramos, entregamos. Logo, merecemos continuar.

Porém, as peças publicitárias lulistas remetem a um mundo extinto e anterior aos jovens. Nas imagens, ainda havia fuscas e orelhões pelas ruas, José Alencar, simbolizando a bem-sucedida estratégia de conciliação de classes, ainda estava vivo e um Lula de cabelos castanhos, olhar duro e ternos largos e quadrados liderava uma saudável e ordenada alternância de poder.

Evolução do voto jovem até o 1o turno. Fonte: DataFolha.

Eleitores entre 16 e 24 anos não assistiram às transformações ocorridas ao longo dos anos 2000 nem às disputas que as possibilitaram. Para essa geração, o mundo que resultou dessas lutas é o que sempre existiu. Os indicadores da economia são positivos. As políticas sociais proporcionaram avanços concretos. Mas nada disso conquista-lhes o voto. Para quem não sabe como era antes, o presente é “taken for granted”: tomado como garantido, óbvio, porque nunca se experimentou sua ausência.

Além disso, a mensagem do partido é institucional, formal, sóbria e burocrática. Traz gráficos do PIB, estatísticas de universitários, tabelas sobre emprego, indicadores sociais, pedreiros construindo, cargueiros atracando, petroleiras jorrando, padeiros tirando pães do forno, pretos de capelo e mulheres de capacete de obra. O conteúdo evoca desenvolvimento, consumo e prosperidade, mas de modo datado. E a forma é ultrapassada: a estética alterna gente triste em preto e branco e gente alegre colorida, com um samba ou um forró ao fundo, exaltando um patriotismo ufanista folclórico e quase escolar. E quando a campanha recorre a memes, à irreverência ou à música, nem sempre convence, pois são projetos gráficos desenvolvidos por quem não é nativa digital e, portanto, não domina as sutilezas da linguagem digital. Não entusiasma, não tem graça, não entretém, não diverte, não emociona, não revolta, não provoca ódio, não choca. Enfim: Não engaja.

Enquanto isso, a extrema direita aprendeu cedo que a comunicação política, hoje, é choque, emoção, dopamina, espetáculo, performance e construção de personagens. A linguagem é memeficada, infantilizada, viral e virulenta. O argumento cede espaço ao impacto. A complexidade é substituída por narrativas simples, nas quais existem culpados facilmente identificáveis e soluções aparentemente definitivas. O humor normaliza discursos antes considerados inaceitáveis; a repetição transforma slogans em certezas; a indignação converte-se em engajamento.

Assim, o eleitorado jovem é exposto ao conteúdo enfadonho e à sedução oca. Se a comunicação institucional apresenta indicadores, a comunicação extremista oferece inimigos. Se uma campanha enumera realizações, a outra promete vingança. Enquanto uma fala em responsabilidade fiscal, crescimento econômico e políticas públicas, a outra mobiliza imagens de violência, frases de impacto, palavras de ordem, bordões assimiláveis e soluções radicais. Uma evoca um legado não vivido e banalizado; a outra transforma ressentimento e medo em comunicação altamente compartilhável.

Talvez por isso o gráfico dos eleitores mais jovens trace uma tendência particular: estão cindidos entre a prestação de contas, que vale cada vez menos, e capacidade de reter atenção, que vale muito, para sua geração. Algoritmos encarregam-se do “delivery”, entregando imagens de destruição, fantasias de vingança e promessas de eliminação do outro diretamente nas telas. E a mensagem não fica ali. Chega aos grupos de família, às conversas entre amigos, às escolas, às universidades e aos espaços de convivência cotidiana.

E talvez seja justamente aí que a esquerda não esteja “farmando aura”. Ela insiste numa comunicação política institucional que disputa atenção com uma linguagem que não precisa demonstrar resultados para demonstrar força. Basta difundir uma imagem convincente de poder. Não porque lhe faltem histórias, realizações ou personagens capazes de despertar admiração. Mas porque a legitimidade histórica não se converte automaticamente em prestígio geracional. Ter participado de uma transformação não significa, por si só, conseguir fazer com que aqueles que nasceram depois compreendam sua importância. Ter razão sobre os resultados de um governo também não garante que sua comunicação seja capaz de produzir identificação.

O desafio serve para todas as democracias do mundo que se veem sob ameaça: fazer com que as conquistas deixem de ser apenas lembranças de quem governou e passem a ter significado para quem não viveu o passado. Mostrar que aquilo que parece natural foi construído coletivamente e pode ser perdido. Conectar as políticas públicas às experiências concretas, às expectativas e aos desejos de uma geração que não tem obrigação de sentir nostalgia de um mundo que nunca conheceu. A prestação de contas precisa conviver com a capacidade de inspirar. E a defesa da democracia precisa disputar não apenas os argumentos, mas também as imagens de futuro que tornam um projeto político desejável. Democratas de todos os espectros precisam “farmar aura”, que não é simplesmente parecer descolado na internet. É construir reconhecimento, presença e significado, usando, para isso, as linguagens de seu tempo, ao invés de presumir que as novas gerações já conhecem a história que têm para contar.



Gabriela Haide Ribeiro Wivaldo é formanda em Ciências Sociais pela UNIFAL-MG e bolsista Pibid/Capes. Desenvolve pesquisas sobre juventude e comportamento político. Currículo lattes.

 

Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.

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