As mulheres e o novo radicalismo de direita no Brasil

Parlamentares da ultradireita detratam o feminismo e negam a existência de feminicídio. (Foto: Reprodução)

Das 17 mulheres que comporão o Senado a partir do ano que vem, no mínimo seis estão alinhadas com o campo ultraconservador, seja por atuação política, cargos ocupados na gestão de Jair Bolsonaro ou filiação ao PL. Eduarda Campopiano (PL-SP) foi eleita deputada federal com 1,95 milhão de votos. Contudo, tal presença feminina não significa, necessariamente, compromisso com a ampliação dos direitos das mulheres. Em comum, estas parlamentares detratam o feminismo, negam a existência de feminicídio (“nenhuma mulher morre por ser mulher”), desqualificam mulheres trans e menosprezam políticas públicas voltadas para as mulheres.

As mulheres, por sinal, são 52,84% do eleitorado brasileiro em 2026. Embora historicamente elas tenham se inclinado, em vários países (inclusive no Brasil), ao campo progressista, não se pode ignorar que, nesta semana, 41% das eleitoras brasileiras pretendem votar na ultradireita no segundo turno das eleições, segundo Quaest e DataFolha desta semana. Um fenômeno sociologicamente interessante: uma fatia expressiva do eleitorado feminino inclina-se ao ultraconservadorismo, apesar deste campo ter bases claramente machistas e misóginas, e comunicar-se mal com este público, fazendo-o apenas por meio de peças publicitárias vagas e essencialistas.

Como interpretar essa contradição aparente?

Em Aspectos do Novo Radicalismo de Direita, Theodor Adorno aponta como a antecipação de uma catástrofe pode ser utilizada politicamente para mobilizar o medo e justificar determinadas escolhas. A ideia de que um mal maior está prestes a acontecer pode produzir um estado de exceção moral, no qual atitudes normalmente questionadas passam a ser aceitas em nome do combate a uma ameaça mais grave. A propaganda de direita constrói inimigos e anuncia cenários de crise, fazendo com que a necessidade de atitudes enérgicas sejam prioridade.

Nas redes sociais, a confissão de preconceitos revela o medo de um mal maior se aproximando. São frequentes ataques de mulheres a feministas, gays e lésbicas, frequentemente apresentados como ameaças aos valores ou ao modo de vida delas. O descontentamento social direciona-se a minorias, enquanto as desigualdades, a violência doméstica, o feminicídio, a disparidade salarial e as contradições nos discursos políticos recebem menos atenção.

Adorno indica como a insatisfação é mobilizada politicamente: a esquerda é apontada como a responsável por todos os males, e a direita como a única solução para a tragédia iminente, mesmo que por medidas extremas, simplistas ou autoritárias. O medo se sobrepõe à avaliação crítica das propostas e das atitudes dos candidatos.

Segundo o autor, esses fenômenos não representam apenas um efeito de consciência, mas também expressam “angústia e fúria represada”, relacionadas a um sofrimento social acumulado que se transforma em uma energia política ambígua. Assim, compreende-se por que diferentes eleitoras podem se aproximar da ultradireita. O apoio a Flávio Bolsonaro, por exemplo, não significa que todas compartilhem integralmente das pautas do bolsonarismo. Algumas podem até se identificar com algumas pautas conservadoras, ou mesmo considerar a esquerda uma ameaça maior aos seus interesses e valores, sem aderir a todos os discursos e comportamentos associados ao movimento bolsonarista.

A necessidade de se combater um mal maior torna secundária a avaliação de discursos ou a apreciação racional de determinadas escolhas. Isto não significa que todas as eleitoras desconsiderem fatos ou compartilhem das mesmas motivações; o que fica claro é que o medo pode justificar o voto. O sentimento de desorientação num mundo em constante e acelerada mudança, a profusão de inimigos (alguns, imaginários), o alarmismo e o pânico moral influenciam no apoio à ultradireita, mesmo que isso signifique votar contra a própria condição feminina. Pelo temor do que está por vir, arrisca-se a própria pele.

Referências

ADORNO, Theodor W. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026. 20 jul. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/mais-de-158-milhoes-de-eleitores-estao-aptos-votar-nas-eleicoes-2026. Acesso em: 21 out. 2026.

G1. Eduarda Campopiano, ‘maior inimiga das feministas’, deputada mais votada em SP coleciona polêmicas; veja. 6 out. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/eleicoes/2026/noticia/2026/10/06/eduarda-campopiano-maior-inimiga-das-feministas-deputada-mais-votada-em-sp-coleciona-polemicas-veja.ghtml. Acesso em: 21 out. 2026.

JORNAL DO INTERIOR. Recorde histórico: 12 mulheres são eleitas para o Senado em 2026. UVESP, 5 out. 2026. Disponível em: https://uvesp.com.br/recorde-historico-12-mulheres-sao-eleitas-para-o-senado-em-2026/. Acesso em: 21 out. 2026.

 

Giovanna Marques Modesto é estudante do 8º período do curso de Bacharelado em Ciências Sociais da UNIFAL-MG e bolsista de monitoria em Métodos Qualitativos. Desenvolve pesquisas sobre a adesão de mulheres à extrema-direita. Currículo lattes.

 

Thiago Antônio de Oliveira Sá é professor do curso de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UNIFAL-MG. Dedica-se às áreas de Teoria Sociológica, Sociologia da Educação e Pensamento Social Brasileiro. Currículo lattes.

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