Relato de pesquisadores de Medicina documenta recuperação de paciente com pé diabético após manejo inadequado na atenção básica

Publicado em revista da USP, estudo mostra como atuação multidisciplinar reverteu sepse e destaca a importância da prática médica baseada em evidências

Atualizado em 16/04/2026 10:04

Imagem ilustrativa. (Foto: Reprodução/Canva Education)

A atuação integrada de profissionais de diferentes áreas da saúde foi decisiva para reverter um quadro grave de pé diabético. O caso clínico complexo foi relatado por Thais Cristina de Aquino Lima, estudante do 12º período do curso de Medicina da UNIFAL-MG, em um artigo divulgado pela Revista de Medicina – periódico bimestral da USP.

O estudo Pé diabético complicado e manejo multidisciplinar: um relato de caso da iatrogenia à resolução é assinado por Thais Lima em parceria com os professores da área de ortopedia e traumatologia: Tiago Soares Baumfeld – Faculdade de Medicina da UFMG; e Eli Ávila Souza Júnior – Faculdade de Medicina da UNIFAL-MG.

No trabalho, os autores descrevem o caso de um paciente de 80 anos com diabetes tipo 2 que sofreu um ferimento no pé e evoluiu para necrose. Ao buscar atendimento na atenção básica, foi submetido a uma amputação realizada em condições inadequadas, sem assepsia apropriada e sem suporte especializado, fato que agravou o quadro, levando à infecção grave e sepse.

“O caso ilustra uma situação em que uma conduta inicial iatrogênica [danos causados pela própria conduta médica] evoluiu favoravelmente após a aplicação de recursos multidisciplinares”, explica Thais Lima.

Após o agravamento, o paciente foi encaminhado para atendimento especializado, passando por nova intervenção cirúrgica, antibioticoterapia adequada e acompanhamento intensivo.

Abordagem multidisciplinar decisiva na recuperação

Durante toda a internação, o paciente recebeu acompanhamento semanal de uma equipe integrada, que envolveu ortopedistas, equipe de enfermagem especializada, psicologia e uso de tecnologias como terapia por pressão negativa e oxigenoterapia hiperbárica.

A atuação multidisciplinar de diferentes profissionais da saúde foi fundamental para a reversão do caso. “Esses recursos, aplicados de forma sinérgica, foram cruciais para o êxito terapêutico, mesmo após um tratamento inicial inadequado”, ressalta Thais Lima. “O reconhecimento da gravidade de diabetes mellitus e da importância da assistência multidisciplinar foram fundamentais para o desfecho satisfatório no caso apresentado, apesar da iatrogenia inicial”, complementa.

Segundo a autora, após a alta hospitalar a evolução clínica foi favorável. “Depois de 30 dias, o coto já havia recuperado aproximadamente 50% da epitelização inicial. Após 60 dias da alta, o coto apresentava epitelização quase completa, restando apenas área de granulação central bem formada, sem sinais infecciosos, permitindo a suspensão do antibiótico”, revela.

Além dos aspectos clínicos, o artigo também levanta uma discussão ética importante. O procedimento inicial, realizado sem condições adequadas, contraria princípios fundamentais do Código de Ética Médica, especialmente no que se refere à obrigação de não causar dano ao paciente.

“A imprudência e a não observância de aspectos como anestesia, assepsia e antissepsia contribuíram diretamente para um desfecho inicialmente ruim”, aponta a autora.

Para Thais Lima, o caso reforça a necessidade de decisões clínicas fundamentadas em evidências científicas e protocolos consolidados, sobretudo na atenção básica, onde muitos desses casos têm início. “A assistência multiprofissional garante melhores desfechos nos pés diabéticos complicados, com destaque para a relevância de fundamentar os atos médicos no Código de Ética do Conselho Federal de Medicina em sua versão mais recente”, destaca.

O olhar sobre o paciente

A estudante também chama atenção para um aspecto que vai além da técnica: o cuidado centrado na pessoa. “A gente não está tratando só uma doença, a gente está tratando uma pessoa. Esse paciente tem uma família, tem uma história, e isso precisa ser considerado em toda decisão médica”, reflete.

Conforme Thais Lima, o trabalho também reforçou a importância da formação contínua e da responsabilidade profissional. “Esse caso me marcou muito porque mostra que a gente precisa sempre basear a prática médica em evidência, em ética e em responsabilidade com o paciente”, completa a médica em formação, que pretende se especializar em cirurgia clínica.

O pé diabético responde por aproximadamente 25% das internações de urgência entre pessoas com diabetes no Brasil e nos Estados Unidos, e eleva em até 40 vezes o risco de amputação não traumática em relação à população sem a doença. Apesar disso, os danos causados pela própria conduta médica permanecem pouco documentados como fator de risco para amputações na literatura científica.

O relato foi publicado na edição de abril da Revista de Medicina da USP e está disponível em acesso aberto neste link.

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